Nasce Simões Lopes Neto

E se você soubesse que Guimarães Rosa não foi um dos únicos a valorizar a linguagem regional?
Por
Lara Tannus
Data de Publicação
Editoria
Hoje na História

 

João Simões publicou não só livros como peças teatrais e postais  ilustrados por ele sobre a história da nação denominada “Coleção Brasiliana”. (Arte: Renan Braz)
João Simões publicou não só livros como peças teatrais e postais  ilustrados por ele sobre a história da nação denominada “Coleção Brasiliana”. (Arte: Renan Braz)


Um escritor que dá voz às marcas de linguagens regionais, não só aproxima o leitor a costumes e tradições, como abre um espaço democrático para manifestações linguísticas que fogem à norma padrão. Simões Lopes Neto, nascido em 9 de março de 1865, se destacou por valorizar o personagem gaúcho na literatura

Saberemos mais sobre o escritor regionalista pelo docente Horácio Costa, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da USP, que explica sua importância para as obras literárias do nosso país. Veja abaixo: 

“Simões Lopes Neto tem um lugar específico na literatura brasileira por ter sido, a meu ver, o primeiro que "dá a palavra" a seu personagem Blau Nunes, narrador do livro Contos Gauchescos (1912), colocando em cheque a distância entre o português "culto", do autor, e o falado por seu personagem, a bem dizer interpretado para a regra culta do bom-falar e bom escrever, na prosa de ficção regionalista anterior ao escritor gaúcho.

Esse "dar a palavra" a seu personagem, que fala lhanamente, aproxima o relato do leitor e termina com a distorção do registro culto sobre a fala popular, que reinara ao longo do século XIX na prosa de ficção que se debruçara sobre os falares do povo brasileiro. 

Nesse sentido, Simões Lopes Neto é precursor da operação do texto de Guimarães Rosa, no século passado, quando o registro do marco regional não empana, mas sim, turbina a criação e, consequentemente, a leitura. 

Até aqui, percebemos a inovação de Simões Lopes no aspecto da linguagem que emprega em suas primeiras obras. Por outro lado, a personagem Romualdo do livro Casos do Romualdo (publicado postumamente, em 1952, devido ao trabalho de pesquisa de Carlos Reverbel) nos revela uma exploração, não do gaúcho como uma espécie de herói regional, tal e como aquele Blau Nunes – que goza de excelente saúde e narra suas histórias marcadas por um grande teor de dramaticidade –, mas a de um narrador de outra linhagem, a da picaresca, que explora certos aspectos bem humorados da existência humana no Sul.

Romualdo, um gaúcho aindiado, desde sua velhice plasma o universo decadente dos pampas em seu lado não retórico, não sublime, diríamos, e tece os seus casos desde um outro olhar, mais próximo ao da experiência cotidiana. Tal diferença de registros nos dá a ideia da riqueza da prosa de Simões Lopes, um escritor que (ainda) não faz parte do "estante principal" – o cânone – da literatura brasileira, como deveria.”