Nascimento de Carlos Magno

Carlos Magno foi a figura central na consolidação do Império Carolíngio, que dominou parte da Europa medieval por meio de guerras de conquistas religiosas
Por
Paulo Andrade
Data de Publicação
Editoria
Hoje na História

 

Nascimento de Carlos Magno (Arte: Davi Morais)
Carlos Magno impôs o catolicismo à força aos povos conquistados pelo seu Império Carolíngio, com conversões forçadas por meio de guerras de conquistas. Daí a fragilidade do Império, que não sobreviveu após a morte do imperador. (Arte: Davi Morais)


Nascido em 2 de abril de 742, o rei franco Carlos Magno foi a figura central na ascensão do Império Carolíngio, que influenciou a história da França e regiões próximas por muitas gerações. 

A professora Ana Paula Tavares Magalhães Tacconi, do Departamento de História da FFLCH USP e pesquisadora de história medieval, explicou em entrevista sobre o papel de Carlos Magno na formação do Império Carolíngio e o legado para a tradição política europeia:

Serviço de Comunicação Social: Estudamos no colégio que Carlos Magno unificou as regiões da Europa que estavam fragmentadas, promovendo uma política expansionista na construção do seu império. Poderia falar um pouco como isso se deu?

Ana Paula Magalhães: Podemos dizer que a construção do Império precedeu a existência do imperador. Carlos Magno foi coroado imperador do Ocidente no ano de 800, mas a prática militarista e expansionista precede até mesmo o próprio Carlos Magno. Seu avô, Carlos Martel, foi chamado de líder militar europeu pelo cronista espanhol Juan de Biclaro por vencer os mouros na Batalha de Poitiers, em 732. 

A partir deste momento, a linhagem dos carolíngios se tornou uma referência na associação entre militarismo e cristianismo. Filho de Carlos Martel e pai de Carlos Magno, Pepino III, o Breve, destronou o último rei da dinastia merovíngia, em 751, iniciando o período carolíngio. Seu reinado foi marcado pela aliança com o papado e pela crescente militarização do reino franco. O novo rei defenderia a Igreja romana diante do avanço dos lombardos na Península Itálica, e assumiria posturas hostis em relação ao imperador de Bizâncio. Sua política militar e diplomática garantiria a hegemonia os francos na cristandade ocidental. 

Quando da ascensão ao trono de seu filho, Carlos Magno, a realeza se encontrava consolidada em sua legitimidade interna e em suas funções guerreiras. Carlos Magno prosseguiu essa obra, ao promover anexações de territórios e, ao mesmo tempo, cristianizar populações. 

É importante notar, entretanto, que não se tratava de regiões fragmentadas, mas sim de povos que ocupavam territórios e que possuíam, cada qual, sua unidade linguística e cultural: a anexação, associada à cristianização forçada dessas populações, levaria à constituição de um império cuja essência era a fragmentação - uma vez que a unidade proposta se deu a partir de um mecanismo artificial. Daí a fragilidade desse império, que não subsistiria após a morte de Carlos Magno (seu filho, Luís o Pio, não conseguiria dar continuidade às iniciativas de seu pai, e o império acabaria dividido entre seus filhos, no ano de 843). 

Do ponto de vista ideológico, a construção do Império Carolíngio representava o ideal de reconstituição do Império Romano, agora sob princípios cristãos. Daí o nome dado à nova unidade territorial: "Sacro Império Romano". Carlos Magno identificava-se a Constantino, célebre por ter favorecido a religião cristã no Império. Pretendia-se associar o ideal imperial e a fé cristã, ainda que o único elemento de unidade do império de Carlos Magno fosse o batismo, proveniente das conversões forçadas.

Serviço de Comunicação Social: Carlos Magno também fez reformas na educação, incentivou as artes e promoveu o catolicismo em seus domínios. Que efeitos isso provocou na sociedade e nos seus domínios na época?

Ana Paula Magalhães: Carlos Magno ampliou o acesso à educação, criando escolas vinculadas ao seu governo, para além das escolas monásticas. Um importante fator que concorreu para isso foi a afluência de intelectuais, sobretudo oriundos da Grã-Bretanha, ao círculo próximo de Carlos Magno. Tais indivíduos se tornaram responsáveis pela diplomacia e pela produção de escritos a respeito do reino - e, posteriormente, do império. Esta é uma das razões pelas quais imaginamos que a França "começou com Carlos Magno". Na prática, o que temos é uma maior quantidade de registros, sob a forma de crônicas, anais, legendas - em suma, uma profusão de documentos que levaria os historiadores a superdimensionar seus feitos. 

Quanto ao cristianismo, foram efetuadas conversões forçadas por meio de guerras de conquistas. Podemos dizer que, sob Carlos Magno, a conversão se encontrava no próprio projeto da guerra de conquista. Há farta documentação narrando a conquista e a conversão de povos, tais como os saxões. Embora essa documentação - produzida pelos escribas de Carlos Magno - seja extremamente elogiosa à "obra cristã do conquistador", sabemos que, na prática, tais anexações se deram mediante muita violência. 

Na ideologia carolíngia, o imperador era o "primeiro cristão", aquele que deveria servir de modelo e, portanto, o mais qualificado para governar a Igreja. Por essa razão, Carlos Magno, a exemplo de seu pai, nomeava bispos, interferia na política dos concílios, controlava os mosteiros e dirigia reformas na Igreja. 

Sua relação com o papa Leão III, que veio a coroá-lo no ano de 800, foi marcada pela preeminência de Carlos sobre o papa. Questionado em Roma por suas origens e por sua extração social, Leão III acabou por colocar-se sob a proteção do rei franco, a quem coroaria como imperador, com o cerimonial simbólico que unia Igreja e Império (como à época de Constantino), e conferia legitimidade ao novo regime. 

Todos esses eventos deram-se a partir de um progressivo distanciamento e, por fim, aberta hostilidade em relação ao Império Bizantino - herdeiro e continuador de fato do antigo Império Romano. São comuns na documentação a respeito da coroação os esforços por desqualificar o Império e os imperadores de Bizâncio, como forma de legitimar a reconstituição do Império Romano no Ocidente.

Serviço de Comunicação Social: Qual foi o legado de Carlos Magno e seu império deixaram para a história da Europa medieval e para além da Idade Média? E quais ainda se refletem atualmente?

Ana Paula Magalhães: Na Idade Média, a cristandade ocidental jamais abandonaria o ideal imperial. Um de seus prolongamentos foi a criação, no ano de 962, do Sacro Império Romano-Germânico, nas terras mais orientais do antigo império de Carlos Magno. 

Precursor da atual Alemanha, esse ideal imperial se desdobraria pela era moderna: ele seria retomado, por ocasião das lutas pela unificação alemã, e resultariam no II Reich, em 1871, a monarquia comandada pelo chanceler Bismark. Posteriormente, a retomada do ideal imperial da Grande Alemanha resultaria na criação III Reich, com suas decorrências como o militarismo e o genocídio que marcaram a II Guerra Mundial. 

Na França, prevalece até hoje, sobretudo nos círculos conservadores, a noção de que Carlos Magno teria fundado a "nação" francesa, com base na noção de que ele teria "unificado territórios fragmentados". Tal ideal de nação é frágil, uma vez que se baseia na noção de que a unidade e a continuidade territoriais compõem a nação, independentemente do elemento humano que concorre para tal. 

Na atual política francesa, podemos identificar grupos que pretendem enxergar em Carlos Magno a origem da nação francesa, o que fixaria o povo francês em um momento no tempo e desconsideraria todos os movimentos de migração e interação que se processaram ao longo de 1.200 anos.

Tal pensamento tem resultado em ondas de xenofobia e, sobretudo, islamofobia, determinando o teor da política nacionalista e isolacionista. O próprio neocolonialismo francês elaborou-se, ao longo do século XIX, com base na noção imperial de Carlos Magno - hoje, passada a descolonização, impõe-se o "ônus histórico" da imigração de populações dessas regiões, imigração vista como ilegítima pelos grupos nacionalistas franceses.