Genocídio em Ruanda

Um dos maiores genocídios do século XX teve interferência direta de países da Europa, que estimularam o ódio entre os povos Hutu e Tutsi que culminaria no massacre ocorrido em 1994
Por
Paulo Andrade
Data de Publicação
Editoria
Hoje na História

 

Genocídio em Ruanda (Arte: Davi Morais)
Um dos maiores genocídios do século XX teve interferência direta de países da Europa, que estimularam o ódio entre os povos Hutu e Tutsi que culminaria no massacre ocorrido em 1994. (Arte: Davi Morais)


Um dos maiores genocídios do século XX aconteceu em 7 de abril de 1994, em Ruanda. Fruto da interferência europeia na política e cultura do país, o massacre colocou duas etnias locais, Hutus e Tutsis, em um confronto entre si, resultando em mais de 1 milhão de mortes.

Conversamos com as professoras Maria das Graças de Souza, Departamento de Filosofia da FFLCH USP, e Zilda Marcia Grícoli Iokoi, do Departamento de História da FFLCH USP, que explicaram um pouco sobre o conflito. Confiram:

Serviço de Comunicação Social: Os conflitos entre Hutus e Tutsis que levaram ao genocídio podem ser explicados pela influência europeia em Ruanda?

Maria das Graças de Souza e Zilda Marcia Grícoli Iokoi: Sem dúvida alguma, o genocídio dos tutsis em Ruanda teve sim influência dos países da Europa. Vou dar apenas dois exemplos. Em primeiro lugar, os belgas. De acordo com o professor José Kagabo, docente da École des Hautes Études em Sciences Sociales, recentemente falecido, foram os belgas que promoveram a hostilidade entre hutus e tutsis. Na ocasião do curso por ele ministrado no Núcleo Diversitas da FFLCH USP, o professor nos explicou que as duas etnias viviam juntas há séculos, com a mesma língua, os mesmos deuses, a mesma mitologia de fundação.

Foram os belgas que começaram a dizer aos tutsis: “vocês são mais brancos, mais inteligentes, e podem trabalhar nos serviços da administração colonial. Os hutus são mais negros, menos inteligentes, mais rudes, mais ignorantes”. Chegaram mesmo a obrigar que nas carteiras de identidade constasse “Tutsi” ou “Hutu”. Estes procedimentos deram a origem ao ódio dos hutus pelos tutsis, que, como sabemos, culminou com a matança que quase um milhão de tutsis, mulheres, homens, crianças, velhos. Eles foram mortos a machadadas, e os machados foram comprados e distribuídos à população pelo próprio governo hutu.

O segundo exemplo diz respeito aos franceses. Na ocasião do genocídio, eles mantinham em Ruanda uma força militar de apoio ao governo hutu, chamada Operação Turquoise. Presenciaram os massacres, e se limitaram a retirar os franceses que lá moravam em seus aviões, e deixar a morte correr solta pelas ruas nas cidades e nos campos. A revista francesa Les Temps Modernes, fundada por Jean-Paul Sartre, em seu número 680, de 2104, é dedicada à análise desta tragédia. Diversos autores, europeus e ruandeses, discutem ali a responsabilidade francesa no genocídio. Um dos artigos, o de Jean Chatain, mostra o negacionismo francês que não admite o seu papel de cúmplice neste que foi o último genocídio do século XX.

Serviço de Comunicação Social: Durante o genocídio, a comunidade internacional se envolveu pouco. Isso é correto? Como podemos analisar essa postura da ONU e demais órgãos internacionais?

Maria das Graças e Zilda Iokoi: Ao que parece, a comunidade internacional se envolveu muito pouco. Tanto as instituições internacionais quanto a imprensa europeia, e mesmo a imprensa brasileira, tende a tratar os conflitos na África como “mais uma guerra entre negros”, o que revela a indiferença das outras nações face ao genocídio e a força do preconceito nos países não africanos.

Serviço de Comunicação Social: Como Ruanda se reergueu política e economicamente após os conflitos entre Hutus e Tutsis?

Maria das Graças e Zilda Iokoi: Mais de vinte anos após o massacre, o país ainda tenta se reerguer, com uma nova constituição, com a criação de um ministério de gestão de desastres e assuntos de refugiados, que estimula os refugiados que haviam saído de Ruanda para escapar da matança, a voltar para Ruanda e ajudar a reconstruir o país.

Na opinião dos ruandeses, o país mudou, está se recuperando, procura curar as feridas e superar o trauma do genocídio. Entre 2006 e 2011 um milhão de pessoas saiu da condição de pobreza e a expectativa de vida subiu, segundo estimativa das Nações Unidas. Mas a taxa da população pobre ainda é muito alta.

Por último, a professora sugeriu algumas recomendações de leitura para quem quiser saber mais sobre o genocídio ruandês. Segue abaixo:

Florence Prud’homme, Rwanda, l’art de reconstruire. Boulogne-Billancourt, Éditions HD, 2015.

Élise Rida Musomandera, Le livre d’Élise. Paris, Les Belles Lettres, 2014.

Boubakar Boris Diop. Le livre des ossements, Paris Zulma, 2014.

No Brasil, a Editora Nós publicou, de Scholastique Mukassonga, autora ruandesa, dois livros:

A mulher de pés descalços

Nossa Senhora do Nilo.