Nascimento de Karl Marx

Nos 200 anos do nascimento do filósofo alemão, é importante entender como funciona a lógica de suas ideias e como elas podem ser pensadas nos dias atuais
Por
Lara Tannus
Data de Publicação
Editoria
Hoje na História

 

Nascimento de Karl Marx (Arte: Davi Morais)
“Seu projeto emancipatório a fim de demonstrar que o seu materialismo não se desenvolveu numa contraposição unilateral à democracia, mas justamente na busca de um desenvolvimento e aprofundamento desta”, analisa Julia Lemos. (Arte: Davi Morais)


Acima de posicionamentos de afinidade ou repulsa, entender o marxismo é entender a sociedade. Karl Marx, nascido em 5 de maio de 1818, deixou um importante legado para a história política que repercute e é analisado até os dias de hoje.

Em defesa do proletariado que se via explorado pela burguesia, o filósofo alemão desenvolveu uma teoria crítica ao capitalismo, baseando suas ideias numa sociedade mais democrática e igualitária.

Desde seu surgimento, as ideias socialistas foram absorvidas tanto de forma positiva quanto negativa. Mas o fato é que, muitos de seus pensamentos foram sendo distorcidos ao longo da história. “Penso que o motivo fundamental é a luta de classes e a disputa ideológica que ela suscita, a qual se desequilibrou sobretudo a partir da derrocada do socialismo real soviético”, explica Julia Lemos Vieira, doutora em Filosofia pela FFLCH USP e atualmente professora e pós-doutoranda na área de Filosofia Política e Ética da Universidade Federal de Goiás.

Em uma era de fake news, cada vez mais vemos a importância de fatos científicos para melhor compreendermos o mundo. Por isso, convidamos o leitor a conferir a entrevista com Julia Lemos e entender melhor os pensamentos marxistas e como podem ser interpretados no contexto de nosso país:

Serviço de Comunicação Social: Como você explicaria a teoria marxista para um leigo, considerando a dialética e a luta de classes?

Julia Lemos: Mesmo para um leigo, penso que é possível remeter às próprias palavras de Marx para se explicar a luta de classes, sobretudo às suas palavras expressas nos seus Manuscritos Econômico-FIlosóficos de 1844:

É evidente que há uma luta contra a classe trabalhadora, dado que é fato que "o trabalhador fica mais pobre à medida que produz mais riqueza e sua produção cresce em força e extensão. [Que] O trabalhador torna-se uma mercadoria ainda mais barata à medida que cria mais bens. [Que] A desvalorização do mundo humano aumenta na razão direta do aumento de valor do mundo dos objetos (...)[Que] o trabalho humano produz maravilhas para os ricos, mas produz privação para o trabalhador. [que] ele produz palácios, porém choupanas é o que toca ao trabalhador. Ele produz beleza, porém para o trabalhador só fealdade. Ele substitui o trabalho humano por máquinas, mas atira alguns dos trabalhadores a um gênero bárbaro de trabalho e converte outros em máquinas. Ele produz inteligência, porém também estupidez e cretinice para os trabalhadores".

O que Marx avalia é que existe um desenvolvimento histórico no modo como o ser humano trabalha: inicialmente o trabalho é para os seres humanos uma maneira de se alienarem, empobrecerem e explorarem uns aos outros e, posteriormente, o trabalho é uma forma de satisfação e de relacionamento humanista um com o outro.

O capitalismo é uma espécie de trava deste movimento de desenvolvimento do processo de trabalho humano em seu primeiro momento de estranhamento. Esse momento de estranhamento no processo de trabalho é que possibilita que uns acumulem o produto do trabalho de outros e que tal acumulação fixada pela legitimação da propriedade privada repete-se como estranhamento do trabalho e apropriação do fruto do trabalho por outro a cada processo de produção.

Marx defendeu que esse ciclo não só pode como deve ser rompido, pois apenas com o seu rompimento é que o processo de trabalho irá sair de seu momento de estranhamento e passar para o seu momento de fazer do trabalhador um ser que toma posse de toda a sua humanidade, tanto como posse de seus objetos quanto como posse de sua subjetividade e de sua irmandade humana.

Serviço de Comunicação Social: Pensando no contexto político e econômico do Brasil, o que podemos trazer das ideias de Marx para a nossa realidade? Você acredita que elas ainda possam ser aplicadas de alguma maneira?

Julia Lemos: É muito constante no Brasil de hoje o discurso de uma polarização forjada simplesmente através do discurso. Entretanto, de um ponto de vista histórico, a polarização é estrutural e sempre se intensificou diante da falência das superestruturas em conter as contradições intrínsecas da infraestrutura econômica que, em momentos de crise, empobrece ainda mais as classes médias e pobres e enriquecem ainda mais as classes altas, aumentando assim o fosso que se expressando como polarização de dois extremos.

No Brasil tivemos um momento de administração do capitalismo que de alguma forma vinha conseguindo driblar o agravamento da crise econômica internacional e permitir um certo contorno dela por meio de estímulo à ascensão das classes mais baixas através de políticas públicas e de estímulo ao consumo combinadas.

Mas a reação daqueles que perdiam privilégios se deu no sentido de exercer uma pressão contra esse processo através de uma extrapolação ideológica, política e jurídica do tema do combate à corrupção - que tanto oculta as diversas e essenciais perca de capitais públicos – levando a uma explosão da crise econômica e da luta de classes e, portanto, da expressa polarização.

As ideias de Marx surgem importantes para compreender o Brasil atual quando é tão manifesta a existência de uma oposição da elite a quaisquer mínimas políticas de ascensão dos de baixo e quando nos vemos obrigados a admitir a impossibilidade de superar as contradições do capitalismo num interior de uma administração do Estado burguês que não rompe com as estruturas perniciosas que sustentam o sistema de opressão do grande capital sobre o trabalhador assalariado, do latifúndio sobre o agricultor familiar, do monopólio sobre o médio e pequeno comerciante.

É constante o retorno à Marx nas repetidas crises capitalistas e no modo como arrastam cada vez mais médios e pequenos empreendedores à infelicidade do trabalho assalariado concomitante com o fortalecimento dos monopólios e grandes bancos.

Além disso, é preciso considerar que a despeito de muitos dos atuais movimentos sociais não se reconhecerem no marxismo, é possível sugerir que Marx está mais vivo do que morto neles. Como aspectos fundamentais dessa sugestão indico tanto a identificação por parte de tais movimentos da democracia liberal como uma democracia abstrata e quanto a identificação da liberdade capitalista como liberdade abstrata, como realidade de opressão social.

Muitos dos movimentos anti-capitalistas contemporâneos que não possuem como ponto de partida a crítica de Marx da alienação do Estado acabam por retornar essencialmente a ele quando questionam as instituições políticas vigentes; quando atentam-se para uma espécie de estranhamento em relação a elas, para um reconhecimento de que tais instituições não são na prática aquilo que afirmam ser no direito positivo: garantia do interesse público. Para além desse não reconhecimento das instituições vigentes como efetivamente democráticas suscitar de algum modo a crítica de Marx ao Estado burguês, também Nos textos do jovem Marx, vemos que a luta pela suprassunção do capitalismo e da democracia formalista surge justamente como forma de realização da liberdade de cada um, pois nele, o comunismo aparece como uma associação em que o indivíduo adentra não por obrigação, mas porque surge mais livre do que na anterior, justamente porque nela ele já não vale apenas pelo que produz economicamente e pelo que possui, mas pelo seu ser.

A análise empreendida nos Manuscritos de 1844, por exemplo, indica como a competitividade individualista acaba por oprimir a liberdade do indivíduo ao invés de realizá-la parece estar mais evidente hoje do que nunca: ainda mais reduzidos ao valor de eficiência produtiva ou de quantidade de posses, a meros objetos do fazer (econômico) e do ter, os indivíduos na contemporaneidade expressam um desconforto cada vez maior com o seu modo de vida.

Marx denuncia seu incômodo com a falta de sentido da existência, na qual a liberdade individual se dá no interior de uma competitividade cruel que enseja relações individualistas em termos de vitória de uns sobre os outros, alimentando uma angústia constante.

Serviço de Comunicação Social: Há muitas distorções sobre a teoria marxista hoje. Por qual motivo isso acontece, na sua opinião?

Julia Lemos: Penso que o motivo fundamental é a luta de classes e da disputa ideológica que ela suscita, a qual se desequilibrou sobretudo a partir da derrocada do socialismo real soviético.

Não tardou para que o sepultamento da URSS se desenvolvesse como um definitivo sepultamento de Karl Marx: se o comunismo soviético expressava o marxismo em si mesmo, também ele teria sido completamente ultrapassado com o triunfo da democracia ocidental. Então essa derrocada foi repercutida no meio liberal como uma colagem entre marxismo e antidemocracia e houve uma deliberada exploração dos equívocos do socialismo real no sentido de oprimir qualquer contraposição fundamentada em Marx à ordem social existente como um risco eminente de queda em governos totalitários.

Qualquer aprofundamento honesto nas obras de Marx evidencia que essa redução é uma grande distorção, pois, a despeito de quaisquer tensões nelas presentes, surge a evidência de que sua oposição à democracia liberal se justificava apenas por uma ampliação da democracia a partir da dissolução da privatização da política que fundamenta o Estado burguês desde a sua primeira constituição.

A difundida incompatibilidade entre marxismo e democracia geralmente decorre de leituras que veem em Marx uma teoria fechada da história, que operam uma redução da totalidade da obra de Marx a um momento específico e, sobretudo, à pouca relevância dada à uma essencial continuidade entre o republicanismo do jovem Marx e o comunismo do Marx maduro.

Neste sentido, é importante reverberar a genealogia do comunismo marxiano para demonstrar como ela está completamente intrincada com o desenvolvimento de seu projeto emancipatório a fim de demonstrar que o seu materialismo não se desenvolveu numa contraposição unilateral à democracia, mas justamente na busca de um desenvolvimento e aprofundamento desta.  

A exploração utilitarista e descuidada do tema do totalitarismo favorece apenas às classes privilegiadas e que obviamente pesou, juntamente com outros aspectos, para o desenvolvimento de uma recusa de aprofundamento no marxismo por parte até mesmo de movimentos sociais anti-capitalistas.