Fundação

Na época da fundação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, em 1934, havia um projeto de um segmento da elite paulista que buscava a modernidade política conforme os moldes do pensamento liberal e concebia a educação como uma ferramenta de organização social. Voltada para a formação de elites intelectuais, a faculdade cumpriria um papel "civilizatório", já que a atuação dessas elites levaria ao progresso cultural de toda a sociedade.

Nessa chave, os fundadores equacionaram a tensão constitutiva das relações entre Estado e Universidade, pois se o Estado financiava a Universidade visando à realização de seus próprios fins, a Universidade não poderia estar subjugada ao Estado sob pena de não conseguir desempenhar seus papéis específicos. No projeto fundador, o objetivo se afirmava respeitando os interesses gerais da sociedade, sempre designados como "os mais altos interesses".

A proeza de fazer com que convergissem os interesses do Estado, os interesses gerais do indivíduo e a autonomia universitária caberia, justamente, à Faculdade de Filosofia, enquanto lugar da dimensão universal do conhecimento e, portanto, núcleo irradiador do sentido da atividade universitária.1

Para atingir objetivos que até hoje pulam no coração da Faculdade, contribuíram grupos de diferentes origens culturais e sociais. De um lado, os professores das "missões europeias", que colocavam a universidade na corrente das tendências globais; além disso, filhos das elites paulistanas que compartilhavam o espírito de seus fundadores e, por fim, jovens trabalhadores, na sua maioria professores do ensino público sem diplomas, que unificavam a "missão" do ensino universitário ao ensino público brasileiro.

A Faculdade de Filosofia é cosmopolita desde sua origem e sempre contribuiu para a inserção da USP entre as universidades mundialmente reconhecidas. Tal padrão de excelência era pretendido em 1934, quando foram contratados professores de origem europeia. 

Não se pode ignorar a inestimável contribuição desses renomados professores para a própria consolidação da Universidade. Muito se deve a eles, que, vindos de mundos tão distantes, superaram as inevitáveis dificuldades de adaptação à América Latina, a começar pela própria língua. Assim, enquanto aprendiam e se exercitavam no português, muitos docentes ministravam cursos na língua nativa. Os alunos, sob influência de suas ideias, aprenderam muito da cultura e pensamentos europeus.

 

1 Fonte: Informe, n. 4, julho-agosto / 2003.