Laerte: heroína trans ou homem vestido de mulher?

Estudo da FFLCH-USP mostra como foi a cobertura da imprensa durante a transição de gênero da cartunista Laerte Coutinho

 

22/06/2017
Por Paulo Andrade

Você está louco, Laerte? Essa pergunta foi feita à cartunista Laerte Coutinho em entrevista à Folha de S.Paulo, em 2010. À época, ela estava começando a tornar pública sua transição de gênero que já estava presente explicitamente em seu trabalho.

A partir de então, passou a ser personagem de reportagens sobre transgêneros, sendo retratada pela grande imprensa sem aprofundamento dos debates, como causadora de polêmicas, um homem vestido de mulher e outros estereótipos. Por outro lado, virou uma espécie de heroína da causa trans em algumas mídias alternativas, onde a questão foi mais desenvolvida.

Essa cobertura foi analisada em uma pesquisa de mestrado defendida no Departamento de Antropologia da FFLCH-USP, em novembro de 2016. O autor, Tulio Heleno de Aguiar Bucchioni, utilizou dois recortes de publicações entre 2012 e 2015: imprensa hegemônica (jornais brasileiros de grande circulação) e mídias alternativas (portais, blogs e veículos ligados a direitos humanos).

Na ocasião, Laerte era tida como um homem com mais de 60 anos, com uma namorada mulher, em um processo de transição e declarava não ter intenções de fazer cirurgias. Bucchioni conta que viu uma oportunidade de levantar um debate qualificado sobre gênero: “Havia ali uma pessoa pública experimentando uma desconexão entre sexo biológico, identidade de gênero e desejo sexual”.

Segundo o pesquisador, seu objetivo era entender como as diferentes mídias podem ou não contribuir com o debate de gênero no Brasil. Bucchioni reforça: “não foi uma pesquisa sobre a Laerte, mas sobre como as mídias representaram esse processo em que ela publicamente foi se afirmando como uma mulher transgênero e vivendo uma série de entendimentos sobre si mesma”.

Esse entendimento foi progressivo. Laerte começou como crossdresser, passando depois a se entender como travesti, mulher transgênera, até se denominar atualmente uma mulher social ou uma mulher possível. “Ela criou esse termo, não é uma coisa da academia. Na antropologia, buscamos trabalhar com os conceitos dos nossos interlocutores. Partimos dessas categorizações deles e buscamos entender como eles próprios articulam isso”, esclarece o antropólogo.

Banheiro feminino

O caso do banheiro – no qual Laerte foi repreendida ao utilizar o banheiro feminino em um restaurante – foi um dos abordados na pesquisa. Para o antropólogo, a grande imprensa tratou a cartunista como a causadora da polêmica. “Ela passou de vítima de uma proibição para sujeito de uma polêmica”, avalia.

O pesquisador observou que a grande imprensa cobriu o episódio privilegiando discursos cisnormativos e heteronormativos, caracterizando Laerte como um homem que se veste de mulherpor exemplo. “Ela foi tratada como uma causadora de problema, sendo até associada à pedofilia. A grande imprensa repercutiu muito essa notícia, mas não a problematizou”, explica.

Aqui vale uma explicação: os termos cisnormatividade e heteronormatividade se referem à ideia de que ser cisgênero ou heterossexual é algo normal ou natural, em detrimento de outras sexualidades e identidades de gênero, além de aspectos da vida social desses grupos.

Bucchioni avaliou que há um discurso naturalizado na grande imprensa, no qual há uma associação entre pessoas transgênero e uma suposta anormalidade. “As matérias das mídias hegemônicas caracterizavam a Laerte como alguém que se veste de mulher apenas. E a transgeneridade era resumida a isso, especificamente como um homem que se veste de mulher”, esclarece.

Uma heroína?

Por outro lado, as mídias alternativas ampliaram o debate além da questão pessoal da cartunista. “As mídias alternativas não a limitaram apenas como uma pessoa trans, mas deram voz a ela por entender que é preciso dar voz de modo complexo às pessoas trans. Então, ela é tida como uma referência no debate dos direitos de pessoas trans”, explica o pesquisador.

A visível ascensão de pautas femininas e de gênero nos últimos anos pode ter contribuído para uma maior exposição da cartunista na imprensa. Por isso, Bucchioni diz que é importante não tomar Laerte como uma heroína, como parte da imprensa alternativa a retratou.

Sua trajetória como figura pública, com alta escolaridade, em um círculo social intelectualizado e progressista não é um caso comum. “Ela tem uma trajetória muito ímpar e individual, mas devemos pensar em como o contexto histórico [de ascensão dos debates de gênero] também propiciou isso tudo”, avalia.

 

Foto: SSEXBBOX/vimeo