Livro refuta a hipótese da guerra pela água

Tese de livre-docência sobre a relação entre os conflitos e a escassez hídrica no Oriente Médio é o tema do livro de Luis Antonio Bittar Venturi, docente do Departamento de Geografia da FFLCH-USP 

 

13/09/2017

No próximo dia 16/09 acontece o lançamento do livro "Águas no Oriente Médio: o fluxo da paz", do professor Luis Antonio Bittar Venturi, docente do Departamento de Geografia da FFLCH-USP. A obra é fruto de sua tese de livre-docência, defendida em 2012 na Faculdade. 

A partir de estudo de caso no Oriente Médio, desenvolvido junto ao Departamento de Geografia da Universidade de Damasco, o autor contesta a ideia fatalista e malthusiana de que a água vai acabar e o mundo guerreará por ela. Apesar de amplamente difundida, esta ideia de países em conflito pela água não teria base empírica nem conceitual, já que a água é um recurso inesgotável.

O professor argumenta, por um lado, que as técnicas existentes de captação, tratamento (incluindo dessalinização) e distribuição de água são cada vez mais eficientes e acessíveis, tornando distante a ideia de conflito (que seria, inclusive, muito mais dispendioso). Por outro lado, afirma que os acordos que regem as mais de 260 bacias internacionais têm assegurado de forma eficiente o uso compartilhado dos recursos hídricos, inclusive em regiões conflituosas, como na bacia do rio Eufrates, um dos casos estudados.

O autor ainda apresenta uma impactante revisão conceitual acerca dos recursos hídricos ao classificar a água como recurso inesgotável, (já que as águas continentais vêm do oceano, via evaporação e precipitação) e reprodutível, uma vez que hoje é possível produzir água potável em escala industrial.

Segundo o professor "Os resultados não se limitam ao contexto do Oriente Médio, mas podem ser expandidos para a escala global. Eles nos são úteis, inclusive, aqui na Região Metropolitana de São Paulo, pois nos alertam para a ideia equivocada de que existe uma crise hídrica natural".

De acordo com Venturi, "Crise hídrica (que significa faltar água em nossas torneiras), é sempre um problema social. Mesmo considerando que existem regiões com escassez natural de água, a decisão de se estabelecer aqui ou ali é sempre uma determinação social. A natureza funciona muito bem com suas diferentes quantidades de água. Mas se uma sociedade se estabelece e se desenvolve em uma região com escassez natural e não é capaz de assegurar o abastecimento, isto é um problema social, por mais que os gestores queiram culpar a natureza", afirma.

E completa: "Enquanto estive na Síria nunca faltou água na minha torneira, apesar da relativa escassez hídrica. Mas aqui em São Paulo isso ocorreu muitas vezes, apesar de estarmos na segunda região mais úmida do país, em uma metrópole que, como poucas no mundo, é cortada por diversos rios e rodeada por diversas represas", conclui.

O lançamento ocorrerá dia 16/09, às 16h, no Esporte Clube Sírio, sala Palmira, Av. Indianópolis, 1192, Planalto Paulista, São Paulo. A entrada é gratuita e sem inscrições.