Um estudo do professor Eduardo de Almeida Navarro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, mostra que apenas dois nomes de origem indígena ultrapassam 100 mil ocorrências entre os brasileiros, segundo dados retrospectivos do Censo de 2010 do IBGE. Em um artigo intitulado Os nomes de origem indígena dos brasileiros no século XX , o professor demonstra que a prática de atribuir nomes de origem tupi e guarani às crianças ocorreu em diferentes momentos, acompanhando ciclos específicos da história brasileira.
“Foi a primeira vez que um censo registrou os nomes dos brasileiros. A onomástica é o ramo da linguística que estuda os nomes próprios; a antroponomástica estuda os nomes das pessoas. Isso revela tendências culturais, fatos sociológicos importantes para nossa compreensão”, como explica Navarro ao Jornal da USP. Os dois nomes de origem indígena mais presentes entre os brasileiros são femininos: Tainá e Maiara. “Tainá é uma alteração de Taína, que significa criança em nheengatu, o tupi da Amazônia, ainda falado no Vale do Rio Negro. Maiara é um nome do tupi antigo, significa senhora das riquezas, dos bens”, diz o pesquisador.
“Mas mesmo esses nomes não superam os de origem inglesa. Jefferson teve 253 mil ocorrências em 2010; Tainá, apenas 130 mil.” Os dados citados pelo professor são do Censo 2010. Em 2025, o IBGE disponibilizou uma nova consulta com as ocorrências de nomes e sobrenomes registradas no Censo 2022, por meio da plataforma Nomes no Brasil.
A literatura é apontada como o principal motor da popularização dos nomes indígenas. Os romances indianistas de José de Alencar, como O Guarani (1857) e Iracema (1865), deram nomes como Peri, Ceci e Moacir. “Foi uma motivação literária mesmo, antropônimos literários. Isso acontece muito na humanidade. Ulisses, Homero, personagens de obras que viraram nome de gente”, afirma Navarro.
Ele lembra ainda a origem curiosa de Moema, personagem de Caramuru (1781), de Frei José de Santa Rita Durão. Batizada com um nome que significa “mentira” em tupi, a personagem é apresentada na obra como amante de um homem casado, o que ajuda a explicar a escolha pouco elogiosa. “Um padre não vai chamar a personagem com um nome elogioso, porque ela era uma amante. Aí você entende o porquê disso”, diz.
Identidade brasileira
Entre 1930 e 1960, houve um aumento da popularidade dos nomes de origem indígena, em um contexto de valorização de referências consideradas nacionais. Durante a Era Vargas, o nacionalismo oficial recuperou uma imagem idealizada do indígena do passado como símbolo das origens e da identidade brasileira, em movimento comparável à apropriação da Antiguidade clássica pelos nacionalismos europeus. Em 1943, um decreto-lei de Vargas chegou a recomendar “a adoção de nomes indígenas” para substituir topônimos repetidos entre cidades.
Outro pico acontece em 1970, ligado ao ambientalismo. “Em 1973 tivemos a crise do petróleo. Os países árabes quadruplicaram os preços, e o mundo se deu conta de que aquele modelo econômico não era sustentável. Foi nesse momento que os povos indígenas passaram a ter uma nova valorização”, relata Navarro.
Raoni Mẽtyktire é uma das vozes indígenas na defesa dos territórios, dos povos originários e da Amazônia. A presença do nome Raoni entre os registros de nomes próprios a partir desse período é citada por Navarro como exemplo dessa valorização. “Surgiram nomes como Raoni, de um cacique que acompanhou o cantor Sting em suas viagens pelo mundo. Mas isso não chegou a suplantar nomes de origem inglesa, como Michael, Jefferson, Diane. Tiveram, sim, uma valorização relativa a partir dessa época.”
No entanto, nem todo nome de “sonoridade indígena” tem origem ameríndia real. Endy e Raíra usam morfemas (a menor unidade de uma palavra que possui significado ou função gramatical) tupis de forma gramaticalmente incorreta; Jurandir e Lindoia parecem ser invenções literárias de Alencar e Basílio da Gama; e Janaína (de origem africana) e Iberê (de origem basca) sequer são indígenas.
“Veja como a onomástica pode revelar aspectos importantes da história de um país, de uma sociedade. É um conhecimento útil para o estudo sociológico”, resume Navarro. Por trás de nomes como Tainá, Cauã ou Raoni, ficam camadas sucessivas da história brasileira, do indianismo literário à consciência ambiental que, apesar de tudo, nunca superaram a força dos nomes bíblicos e, mais recentemente, dos de origem inglesa.
O artigo Os nomes de origem indígena dos brasileiros no século XX foi publicado na Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, número 92, de dezembro de 2025.
Texto de Mariana Gaia, estagiária sob supervisão de Antonio Carlos Quinto e Silvana Salles publicado no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/diversidade/etnico-racial/quais-sao-os-nomes-de-origem-indigena-mais-comuns-entre-os-brasileiros/