
A professora Maria Célia Lima-Hernandes, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, lança o livro Macau: Lótus do Oriente, publicado pela Estige Editorial. A obra apresenta uma investigação sobre a formação histórica, cultural e linguística de Macau, região chinesa marcada pelo encontro entre tradições orientais e ocidentais e pelas transformações sociais decorrentes de seu passado colonial.
Dividido em duas partes principais, o livro aborda a construção histórica e simbólica do território macaense, considerando as relações entre espaço, cultura, pertencimento e identidade. A publicação também avalia as dinâmicas interétnicas que caracterizam a região, com destaque para a formação da população euroasiática, conhecida como macaense, e para os processos de hibridização presentes nos costumes, nas relações familiares, na língua e nas manifestações culturais.
A pesquisa que deu origem à obra começou em 2010, quando a professora realizou suas primeiras viagens a Macau para entrevistar moradores e conhecer suas experiências. O trabalho de campo foi retomado em 2012, 2015 e 2016, períodos em que também consultou documentos do Arquivo Histórico de Macau. Para reconstruir parte da história da população local, Maria Célia analisou registros manuscritos de nascimento, casamento, óbito e testamentos referentes à primeira década do século 20, entre 1900 e 1910.
Entre os documentos encontrados, um conjunto de registros chamou especialmente sua atenção, os relacionados às crianças abandonadas e acolhidas pelo Asilo da Santa Infância, instituição administrada por religiosas italianas da congregação das Canossianas. Muitas dessas crianças eram meninas de origem chinesa, entregues à instituição em contextos de pobreza, doenças e dificuldades familiares. No local, recebiam educação, aprendiam a falar português e inglês e eram preparadas para integrar outros círculos da sociedade macaense.
A trajetória dessas meninas também revelou aspectos das relações sociais e dos preconceitos existentes naquele período. Segundo a professora, algumas delas eram posteriormente encaminhadas para casamentos com homens portugueses ou macaenses pertencentes às camadas mais privilegiadas da sociedade. Com o casamento, muitas recebiam novos sobrenomes e, em alguns casos, tinham seus nomes alterados nos registros oficiais, o que dificultava o rastreamento de suas histórias familiares.
“Eu comecei a perseguir essas histórias. Fui vendo que essas meninas eram preparadas para a sociedade: aprendiam a costurar, a cozinhar, a se comportar, a falar português e inglês. Algumas eram encaminhadas para se casar com homens muito mais velhos, portugueses ou macaenses que já faziam parte da elite da cidade”, relata a pesquisadora.
Além da documentação histórica, o livro inclui relatos de moradores e descendentes dessas famílias, reunidos durante as entrevistas realizadas em diferentes períodos. A partir dessas narrativas e da construção de árvores genealógicas, Maria Célia investigou como as identidades se constituíram ao longo das gerações. A pesquisa identificou, por exemplo, famílias que se reconheciam como portuguesas, embora tivessem uma origem predominantemente chinesa e mantivessem o cantonês como primeira língua, seguido do português.
A autora também relaciona essas experiências à própria configuração cultural de Macau, na qual elementos chineses e portugueses se combinam em diferentes dimensões da vida cotidiana. Essa mistura pode ser observada na alimentação, nas tradições religiosas, nas relações familiares e nas manifestações simbólicas da região. “Eu comecei a identificar essas questões híbridas na sociedade. O fato de ser China ou não ser China também é uma hibridização e uma fluidez interessante, porque você nunca sabe se está na China ou em um espaço que não é China”, explica.
O próprio título da obra nasceu de uma observação da professora durante uma de suas estadias em Macau. Ao contemplar uma flor de lótus em um jardim, ela se interessou pelas características da planta, que nasce em águas lodosas e, apesar das condições em que se desenvolve, produz flores. A imagem passou a representar, simbolicamente, a trajetória da população macaense e sua relação com as diferentes raízes culturais e políticas que constituem a região.
A flor de lótus também está presente na bandeira de Macau, adotada em 1999, ano em que o território foi transferido da administração portuguesa para a soberania chinesa. Para a professora, a simbologia da planta expressa a permanência e a transformação das identidades locais ao longo da história. “Eu vi que isso era a história dos macaenses em Macau. Tinha uma raiz muito forte chinesa que, a depender dos movimentos políticos e geopolíticos, desaparecia e, de repente, no momento em que precisava mostrar essa raiz chinesa, ela voltava a aparecer”, afirma.
Ao reunir documentos históricos, entrevistas, imagens, poemas e relatos de moradores, Macau: Lótus do Oriente busca aproximar o leitor das experiências de quem viveu as transformações da região. Para a professora, uma das contribuições da obra é ampliar o conhecimento sobre uma história ainda pouco conhecida tanto pela população local mais jovem quanto pelos leitores brasileiros.
“Quando a gente conhece o passado, sabe melhor para onde está indo. Acho que essa pode ser uma contribuição interessante do livro”, destaca. Ela também ressalta as possibilidades de aproximação entre a história de Macau e a brasileira, especialmente no que diz respeito às relações coloniais, às desigualdades sociais e aos processos de formação cultural.
Lançamentos
O livro foi lançado na City University of Macau, na China, durante um congresso dedicado às questões coloniais e pós-coloniais da região. A publicação também foi apresentada na Casa de Macau, em Lisboa, Portugal, em um encontro com integrantes da comunidade macaense que vivem no país.
Segundo a autora, os dois lançamentos proporcionaram experiências distintas, enquanto o primeiro reuniu principalmente integrantes da comunidade acadêmica, o segundo permitiu o encontro com pessoas que vivenciaram ou descendem das famílias cujas histórias são abordadas na pesquisa. Na ocasião, os participantes compartilharam lembranças e experiências relacionadas aos relatos apresentados na obra.
Macau: Lótus do Oriente, de Maria Célia Lima-Hernandes, está disponível para compra pela Amazon.