Acaba de ser lançado, bem nesta época de disputas eleitorais, radicalizações e polarizações políticas, o livro Conheço meu lugar: paulistanidade e estigmatização nordestina nas eleições presidenciais (Editora Machado), da socióloga Marina Chaves de Macedo Rego, fruto de sua tese de doutorado defendida em dezembro de 2025 no Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A autora trata do preconceito sofrido pelos habitantes dos Estados do Nordeste, inclusive por parte da imprensa tradicional paulista, que associa a região com o atraso e a irracionalidade política, sentimento exacerbado quando da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva como presidente do País em 2022. Para chegar a essa constatação, a autora valeu-se de dados colhidos de 1989 a 2022 em jornais como Diário de Pernambuco, Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo, totalizando mais de mil notícias publicadas durante esse período.
“O que se percebe na imprensa tradicional brasileira é a tentativa de associar o PT, em particular, e as esquerdas, de modo geral, unicamente ao Nordeste”, observa ela. “Isso já acontecia quando a maior parte das cidades nordestinas não votava majoritariamente no PT, mas sim as cidades do Rio Grande do Sul e polos urbanos como Rio de Janeiro e São Paulo.” Marina diz que o motivo para essa associação está no fato de que, desde o fim do século 19, o Nordeste é estigmatizado política, econômica e racialmente. “Desse modo, mostrar uma conexão do progressismo unicamente à região é uma tentativa de estigmatizar tanto as populações nordestinas quanto as mobilizações populares. Mais do que isso: mostrar as esquerdas emparedadas no Nordeste é uma estratégia para afastar o Centro-Sul de pautas progressistas, o que tem sido tão eficaz que nos faz esquecer que o MST foi fundado no Paraná, por exemplo, e que tantos Estados do Centro-Sul já foram importantes para muitas formas de resistência. Ou seja, mobiliza-se o lamentável ódio aos nordestinos para disciplinar o comportamento político no Centro-Sul”, avalia.
Na opinião da socióloga, o Nordeste não está imune à expansão da extrema-direita global, “mas seu padrão de voto nas últimas eleições tem sido uma importante barreira ao projeto reacionário. É possível que a onda de ódio que as populações da região sofrem após cada apuração tenha ajudado a sedimentar um comportamento eleitoral que respeita valores democráticos”.
Analfabetos políticos?
Marina vai além e acrescenta que “a família Bolsonaro atacou verbalmente nordestinos em diferentes situações, chamando-os de analfabetos políticos e usando expressões como ‘cabeça chata’, além do fato de que os governos petistas trouxeram avanços incontestáveis para as populações pobres do Nordeste e de todo o País. As demais regiões do Brasil, no entanto, não podem ver o voto nordestino de forma simplista – ele é complexo e heterogêneo. Do mesmo modo, é preciso lembrar que todo e qualquer Estado brasileiro tem potencial (e histórico) para mobilizações populares e para barrar projetos antidemocráticos”.
No livro que acaba de lançar, Marina mostra que, entre 1989 e 2022, a imprensa tradicional paulista mencionou o Nordeste de forma estereotipada em uma a cada cinco vezes que abordou a região em contextos eleitorais, sendo que 69% das vezes associou-se Nordeste e PT. “Fica nítida a tentativa de emparedar o partido, e o progressismo de modo geral, a uma região que é alvo de elitismo e racismo desde o final do século 19. Décadas desse preconceito regional têm sido eficientes a ponto de limitar fronteiras ao comportamento político no Centro-Sul”, observa, antes de concluir: “Diante desse contexto grave, é preciso relembrar que não há regiões naturalmente progressistas ou reacionárias. O que está em disputa nas eleições atuais diz respeito à população não só de todo o Brasil, mas do mundo, em especial da América Latina”.
Texto de Paulo Capuzzo publicado no Jornal da USP: Estigmatização política no Nordeste não é caso isolado, mas projeto de limitação eleitoral – Jornal da USP