Uma dissertação de mestrado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP estudou o futebol de várzea da cidade de São Paulo no início do século 20. Segundo Everton Cassimiro Apolinário, autor da pesquisa, houve um apagamento histórico dos clubes varzeanos do período. Na prática, significa que houve uma ausência de registros da atuação dos clubes, que eram formados por jogadores negros e periféricos, e não recebiam grande cobertura midiática.
A pesquisa mapeou a atuação de clubes criados por e para negros na capital paulista, e buscou entender como o futebol foi uma importante ferramenta de apropriação da cidade. Para além do esporte, a prática foi uma iniciativa de enfrentamento ao racismo e à segregação da época.
Everton explica que a ausência de uma documentação formal dos clubes formados principalmente na década de 1930 dificultou a pesquisa. No Museu do Futebol — que abriga a primeira biblioteca pública especializada em futebol no Brasil —, ele encontrou pouco ou quase nada sobre o futebol de várzea, e precisou recorrer a outras fontes. “Como contar uma história que não foi pensada antes?”, questiona.
Na ausência de documentos, o pesquisador se baseou no acervo de periódicos da Hemeroteca Digital; principalmente nos jornais da imprensa negra e da Gazeta Esportiva, que cobriam as competições. Assim, foi possível descobrir quais eram os times formados, quando, onde e com quem jogavam. No período, os jogos da várzea eram formados apenas pela comunidade negra.
O pesquisador localizou as áreas de atuação dos times na cidade: as sedes esportivas e sociais dos clubes, e os campos onde eles jogavam. A região de Pinheiros, por exemplo, hoje considerada um bairro nobre de São Paulo, já foi um território negro, segundo Everton. Os times eram formados, em sua maioria, nas margens dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, principais fluxos da cidade.
Para Everton, o apagamento desses clubes aconteceu não somente pela ausência de uma cobertura midiática mais abrangente, mas também por um racismo acadêmico. Ele cita um caso de um campeonato formado por clubes da várzea, organizado com o intuito de arrecadar fundos para a construção de um hospital para pessoas negras. O episódio foi noticiado no jornal, mas nunca se tornou objeto de estudo. Everton explica que durante muito tempo, a academia enxergava o futebol como uma prática corriqueira, e não como uma ferramenta para redescobrir e contar histórias.
“Tem uma questão de banalidade do futebol. É algo banal, lúdico, uma brincadeira. Nem sempre tem alguém registrando, tirando foto, porque é uma prática corriqueira”
Everton Apolinário
Futebol de várzea e de elite
Originalmente, o futebol chegou ao Brasil em 1894, trazido por Charles Miller, paulista filho de um escocês e uma brasileira. Nos primeiros anos, a prática se restringia à elite brasileira, praticado em clubes fechados por imigrantes e jovens da alta sociedade. Em contrapartida, nas várzeas dos rios, onde se concentrava a população negra e periférica, uma nova forma de praticar ganhava força. A popularização do esporte oficial só começa a acontecer na década de 1920 e 1930, quando o futebol deixa de ser amador e passa a se profissionalizar.
Para Everton, houve uma dupla espacialização da cidade, onde dois tipos de futebol diferentes se desenvolveram. Desse encontro, nasceu uma forma de jogar, característica da população negra no período: criatividade, ousadia, dribles, jogadas imprevisíveis e a fluidez frequentemente comparada à leveza do samba. “A população negra se apropria daquele futebol sem negar o futebol [da elite], mas colocando a sua cara dentro do esporte”, explica.
Além do estilo de jogo, Everton aponta diferenças nas regras e comportamentos das torcidas de clubes oficiais e de várzea. Os times elitizados, por exemplo, seguiam o rigor dos uniformes padronizados, e das torcidas organizadas e silenciosas — sinônimo de elegância. Já os times varzeanos, contavam com torcedores mais calorosos e barulhentos, postura que se relaciona, segundo ele, ao modo “mais solto” de jogar.
Com a elitização do esporte, o pesquisador conta que partidas entre seleções brancas e negras eram comuns, já que jogadores negros não eram permitidos em times da elite. A questão racial, ele explica, sempre esteve presente de maneira complexa no futebol. No fim da década de 1910 e início dos anos 1920, Arthur Friedenreich, homem pardo, filho de um imigrante alemão e uma brasileira, tornava-se um dos grandes destaques no esporte.
Conhecido como “O Tigre”, Friedenreich jogava tanto em times de brancos quanto de negros, mas sofreu preconceito ao longo de sua carreira. Apesar de seu desempenho nos jogos, ficou de fora do Campeonato Sul-Americano de 1921, um dos maiores torneios disputados pela seleção brasileira. Segundo o presidente da época, Epitácio Pessoa, apenas brancos deveriam representar o país no exterior. O Brasil perdeu a competição neste ano.
Negritude Futebol Clube
Em sua pesquisa, Everton abordou a trajetória do Negritude Futebol Clube, time da Zona Leste da capital, que surgiu na década de 1980, mas possui uma relação estreita com times da década de 30. Segundo o pesquisador, de certa forma, o clube conseguiu reproduzir ideias parecidas com os movimentos das décadas anteriores.
O time foi formado no Conjunto Habitacional Padre José de Anchieta, no distrito de Artur Alvim. Nesse período, a população da região começou a aumentar de maneira significativa, com a construção de novos conjuntos habitacionais. O crescimento, porém, não trouxe infraestrutura na mesma proporção. Os momentos de lazer, por exemplo, restringiam-se aos campos de futebol, que promoviam a união e confraternização da comunidade.
A criação do Negritude foi inspirada no Grêmio Esportivo Black Power, do bairro do Ipiranga, com uma ideologia marcada pelos protestos por direitos civis nos Estados Unidos. Em sua tese, Everton concluiu que as referências do time estão relacionadas com “um processo de identidade e valorização do negro brasileiro que se vê envolvido em questões que ultrapassavam os limites da nação”. O pesquisador explica que, apesar da ausência de registros dos times de várzea no início do século 20, o Negritude teve uma atuação muito parecida. Resgatando o conceito da historiadora e ativista Beatriz Nascimento, ele afirma que o corpo carrega memórias, mesmo sem ter vivido naquele período.
Futebol de várzea no passado e hoje
Quando o futebol varzeano começou a se desenvolver na cidade, era praticado, principalmente, nas margens dos rios Tietê, Pinheiros e Tamanduateí. Porém, quando o território de várzea passou a ser visto como possibilidade de negócio, os clubes foram sendo expulsos para a construção de prédios, galpões e marginais.
Everton explica que com a valorização do espaço, as populações que ali residiam passaram a migrar para as periferias de São Paulo, onde o futebol de várzea encontra um lugar fixo. Segundo o autor da pesquisa, muitos desses bairros periféricos já tinham campos de futebol antes mesmo de terem hospitais e escolas, por exemplo. “Aí acontece algo interessante, porque o varzeano periférico se identifica com o futebol de várzea. Ele pega para ele e traz uma maneira muito positiva de ser varzeano”, afirma.
Com a modernização da cidade, as formas de garantir a manutenção e a permanência dos campos também mudaram. Segundo Everton, hoje, esses campos são Clubes da Comunidade (CDCs), isto é, espaços públicos cedidos pela prefeitura para a prática de esportes, lazer e convivência. “É o lugar onde acontecem as festas de Dia das Crianças, onde os idosos fazem suas caminhadas. É muito mais do que um lugar só para a prática do futebol.” Ele conta que com a regulamentação do governo, é mais difícil desocupar esses espaços.
Everton acredita que atualmente, o futebol de várzea não corre tanto risco de sofrer apagamento como no passado. “Os clubes atuais têm essa coisa do Instagram, das redes sociais. E eles gostam de se mostrar na cidade, de mostrar serviço”, afirma. No entanto, ele chama atenção para a insegurança ainda presente no meio digital: “Esse material não está livre de desaparecer, mas de certa forma, é mais fácil de registrar e encontrar registros”.
A dissertação de mestrado Do oficial ao invisível: futebol varzeano e protagonismo negro na cidade de São Paulo, de Everton Cassimiro Apolinário, e orientada por Simone Scifoni, do Departamento de Geografia da FFLCH, foi defendida em maio de 2026 no Programa de Pós-graduação em Geografia Humana.