Já imaginou recriar uma música composta há séculos que tem letra, mas não melodia? Essa foi a proposta de um projeto de pesquisa que buscou reconstruir a música Chorus Brasilicus, uma composição em tupi antigo cuja melodia original não foi preservada. A partir de um projeto multidisciplinar entre as áreas de filologia, história e musicologia, pesquisadores compuseram três versões da obra: Solo & Chorus, Contrafactum e Basso Sostenato. As obras foram apresentadas durante o evento “Ressonâncias Coloniais”, realizado em maio de 2026, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP.
As três versões da música foram compostas pelos musicólogos portugueses Irene Brigitte e Hugo Sanches. Já o evento foi organizado por Íris Kantor, professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e por Lisa Voigt, professora de literatura e cultura da América Latina na Universidade de Yale. O projeto também contou com o apoio da Ford-LASA Special Project Grant, da Latin America Studies Association, do Departamento de Espanhol e Português da Universidade de Yale e da Cátedra Jaime Cortesão.
A música
A versão original de Chorus Brasilicus foi apresentada em agosto de 1619 como parte da peça teatral El Rey Don Manuel Conquistador de Oriente, no Colégio de Santo Antão, em Lisboa. A descrição da peça e da letra da música, entretanto, foram encontradas no livro La Relación de la real tragicomedia, do sacerdote e escritor português João Sardinha Mimoso, em 1620, mas sem a partitura. A partir da descoberta dessa composição, Lisa Voigt reuniu pesquisadores de diversas áreas e partes do mundo a fim de recriar a melodia de Chorus Brasilicus.
A apresentação da obra, à época, durou dois dias e foi representada por estudantes do Colégio durante uma visita de Filipe III, rei da Espanha, a Portugal. “O objetivo da peça teatral era mostrar as glórias das conquistas portuguesas no Oriente, mas incluiu esta cena importante sobre o Brasil especificamente”, afirma Voigt. Ela ainda explica que a peça retrata o anúncio da “descoberta” do Brasil para o rei Manuel I, de Portugal, por indígenas do então território americano, que fazem isso em tupi antigo.
Para Brigitte, a ideia do projeto não era encontrar a “verdadeira música”, mas abrir possibilidades para o que ela poderia ser. Por isso, os pesquisadores realizaram três versões possíveis de Chorus Brasilicus com base em documentos históricos musicais da época, especialmente no uso da melodia de uma música de 1640 como referência, que foi composta na cidade de Coimbra, em Portugal.
Sanches explica que, nessa versão da música, retiraram seu texto original e adicionaram o texto em tupi antigo, com a colaboração de Kian Arad Sheik, pesquisador sobre língua tupi na FFLCH, que ajudou na tradução e na pronúncia da música. “Fizemos uma primeira versão com o texto inserido nesta música original. Depois, a ideia em São Paulo foi adaptá-la para ir melhor ao encontro das características da prosódia, de tudo da língua tupi”, ressalta o musicólogo.
Embora Kantor ressalte que a cena retrate uma estereotipação dos indígenas na visão dos portugueses, ela argumenta que o documento tem importância histórica por demonstrar como o público de Lisboa, à época, estava interessado na diferença cultural entre o Brasil e Portugal, além da valorização da língua tupi, que não estava dentro do radar dos portugueses naquele momento.
Os próximos passos do projeto, para os pesquisadores, são levar a apresentação para outras partes do mundo. Os pesquisadores demonstraram interesse em realizar uma apresentação no próprio Colégio de Santo Antão, como símbolo histórico do local onde Chorus Brasilicus foi apresentado. Além disso, Voigt também pretende levar a apresentação para comunidades indígenas falantes de tupi que demonstraram interesse em conhecer o projeto.
Confira a apresentação da obra abaixo: