Pesquisa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP mapeou a expansão global das editoras cartoneras, revelando como esse movimento — nascido na América Latina — criou redes de colaboração na Europa e Estados Unidos para produção e circulação desses livros. Com confecção fora da indústria editorial tradicional, os livros produzidos artesanalmente com capas de papelão reciclado, pintados e costurados à mão, reúnem literatura, artes visuais e práticas comunitárias que dão voz a autores de diferentes trajetórias: desde escritores consagrados a poetas estreantes.
Como parte da pesquisa, a autora Ariadne Catarine dos Santos doará à Biblioteca Florestan Fernandes, da FFLCH, um conjunto de livros cartoneros coletados durante a pesquisa, contribuindo para a formação de um primeiro acervo especializado em publicações cartoneras em uma biblioteca acadêmica no Brasil.
A tese Cartonear: ações, produções e tramas comunitárias foi feita em regime de dupla titulação entre a USP e a Sapienza Università di Roma, sob orientação da professora Andrea Saad Hossne, da USP, e da professora Lucy Bell, do Departamento de Estudos Europeus, Americanos e Interculturais (Sapienza).
Início do movimento na Argentina
O termo “cartonero” vem de cartón, palavra em espanhol para papelão. Nos coletivos em que funcionam as editoras cartoneras, o material que seria descartado é transformado em capas de livros. Uma das primeiras experiências do movimento cartonero surgiu na Argentina, em 2003, com a criação da Editora Eloísa Cartonera, em Buenos Aires. O projeto estabeleceu uma relação com os cartoneros, trabalhadores que coletavam papel e papelão nas ruas das cidades argentinas. A compra do material desses trabalhadores integrava a proposta de geração de renda e, ao mesmo tempo, fornecia matéria-prima para a produção dos livros.
A iniciativa ganhou força em um contexto de crise econômica na Argentina, especialmente após a crise de 2001, quando aumentou o número de pessoas que passaram a depender da coleta e da venda de materiais recicláveis. A experiência se espalhou por toda a América Latina e posteriormente para os Estados Unidos, Europa, África e Ásia como uma forma de democratizar o acesso à leitura e responder a crises socioeconômicas. Hoje o movimento é global; mas, segundo a pesquisadora, “ao longo desse processo, diferentes grupos adaptaram as práticas cartoneras às condições sociais, culturais e econômicas de seus territórios”.
Dulcinéia Catadora, a editora brasileira
No Brasil, a iniciativa pioneira foi a Dulcinéia Catadora, criada em 2007. Formado por mulheres catadoras de materiais recicláveis, o coletivo tem sede na Cooperativa de Catadores da Baixada do Glicério (CooperGlicério), na região central de São Paulo. O grupo produz livros de poesia, prosa e artes visuais com capas de papelão reaproveitado e pintadas à mão. Já foram lançados mais de 150 títulos.
A confecção das obras é quase inteiramente manual. As integrantes selecionam, cortam e pintam o papelão descartado para transformá-lo em capas únicas, sendo a impressão do miolo a única etapa industrial. Nesse sentido, a pesquisa mostra que o livro cartonero é visto não apenas como um objeto produzido artesanalmente, mas também como resultado de redes de colaboração que articulam literatura, arte, trabalho e organização comunitária. De acordo com a tradutora e artista plástica Lúcia Rosa, integrante do coletivo desde a sua fundação, o foco do projeto está na construção coletiva: “Mais importante do que o livro pronto é o processo comunitário de criá-lo e produzi-lo”, relata.
Os livros são comercializados a preços acessíveis em feiras de publicações independentes — como a da Praça Benedito Calixto e na Galeria Vermelho — e também por encomendas. O público-alvo é composto majoritariamente de jovens escritores e entusiastas do mercado editorial independente. Toda a verba arrecadada com as vendas, após o desconto dos custos operacionais, é revertida diretamente para as catadoras que participam da produção.
Segundo a artista plástica, o coletivo Dulcinéia Catadora nasceu durante a 27ª Bienal de São Paulo, que trazia o tema Como Viver Junto. Na ocasião, uma oficina de três meses comandada pela editora argentina Eloísa Cartonera reuniu filhos de catadores locais, com o apoio do Movimento Nacional de Catadores. O nome “Dulcinéia” foi escolhido em homenagem a uma catadora da Coopamare, tradicional cooperativa de reciclagem paulistana.
Movimento de resistência e decolonial
A pesquisadora da USP compreende o movimento cartonero como uma experiência de resistência, contrafluxo e de perspectiva decolonial, conceito que busca questionar posturas de dominação deixadas pela colonização. As editoras cartoneras criam outras formas de produzir, editar e fazer circular livros, muitas vezes fora dos circuitos tradicionais do mercado editorial. “Cartonear não significa apenas confeccionar livros com papelão: é também uma prática cultural que questiona modelos convencionais de produção e circulação do conhecimento e abre espaço para vozes, territórios e experiências historicamente pouco representados”, diz Ariadne.
A dimensão de contrafluxo está na criação de caminhos alternativos aos sistemas editoriais e culturais hegemônicos. Já a perspectiva decolonial aparece na valorização de saberes, práticas e formas de organização construídas a partir das próprias comunidades, deslocando a ideia de que apenas instituições e modelos legitimados pelo centro cultural podem definir o que merece ser publicado, preservado e lido.
Doação de livros cartoneros
Para Ariadne, a doação de livros cartoneros para a biblioteca Florestan Fernandes representa mais do que a incorporação de um novo conjunto de publicações ao acervo universitário. Depois de mais de duas décadas de atuação marcada por publicações, encontros, iniciativas coletivas e redes de colaboração, as editoras cartoneras construíram uma produção cultural cuja memória permanece, em grande parte, espalhada entre diferentes territórios, comunidades e agentes. “Reunir parte desses livros na biblioteca significa reconhecer essa produção como fonte de pesquisa, documento de memória e registro de outras formas de produzir e compartilhar conhecimento”, afirma.
Segundo a pesquisadora, a iniciativa também amplia o entendimento sobre aquilo que pode ser preservado por uma instituição acadêmica. Muitas publicações cartoneras surgiram fora dos circuitos editoriais tradicionais e foram produzidas de maneira artesanal e coletiva, envolvendo diferentes comunidades e contextos locais. Ao receber esse material, a Biblioteca Florestan Fernandes contribui para preservar histórias, vozes, práticas e saberes que poderiam permanecer dispersos. O acervo passa, assim, a oferecer aos leitores e pesquisadores acesso a uma produção que ajuda a compreender outras experiências de edição, circulação de livros e construção de conhecimento.
A Biblioteca Florestan Fernandes é uma das principais bibliotecas da USP dedicadas às áreas de Humanidades e Ciências Sociais. Seu acervo reúne cerca de 600 mil itens, entre livros, teses, periódicos, mapas e materiais multimídia, e contempla também a produção científica de professores da Universidade. A biblioteca leva o nome do sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995), um dos principais intelectuais brasileiros do século 20.
Em breve a tese Cartonear: ações, produções e tramas comunitárias estará disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP.
Mais informações: Ariadne Catarine dos Santos, e-mail ariadne. catarine@gmail.com, e Lucia Rosa (Dulcineia Catadora), e-mail dulcineia.catadora@gmail.com
Texto de Ivanir Ferreira publicado no Jornal da USP: Do papelão ao acervo da USP: pesquisa acompanha a trajetória das editoras cartoneras – Jornal da USP