Nascimento de Nicolau Maquiavel

Quais ideias levaram Maquiavel a ser o grande pensador da política da era moderna?
Por
Lara Tannus
Data de Publicação
Editoria
Hoje na História

 

Nascimento de Nicolau Maquiavel (Arte: Davi Morais)
“Maquiavel identifica em toda sociedade política, pelo menos, dois desejos ou humores opostos: o desejo dos grandes de mandar e oprimir; e o desejo do povo de não ser comandado e oprimido” explica o professor Alberto Ribeiro. (Arte: Davi Morais)


Em 3 e maio de 1469, nascia na Itália um dos pensadores mais influentes da política do século XVI. Famoso pelo livro O Príncipe, Nicolau Maquiavel foi um grande difusor de ideias sobre o comportamento do governante perante a nação, que são estudadas até hoje.

O professor Alberto Ribeiro Gonçalves de Barros, do Departamento de Filosofia da FFLCH USP, destaca duas ideias que se perpetuaram no pensamento político: A primeira seria que a política segue uma regra própria em relação a moral do comportamento humano, e a segunda a de que os conflitos são inseparáveis ao corpo político.

Para entender melhor essas ideias de Maquiavel, confira a explicação do professor abaixo:

Servico de Comunicacao Social: Como as ideias de Maquiavel influenciaram a posterioridade na política ocidental? Em sua análise, você acha que elas repercutem nos dias de hoje na forma de se fazer política?

Alberto Ribeiro: As ideias de Maquiavel influenciaram decisivamente o pensamento político moderno e ainda influenciam na contemporaneidade.

Entre essas ideias, eu destacaria duas. A primeira é a independência da política em relação aos ditames de sistemas morais que não consideram a especificidade da ação política.

Ao demonstrar que a política possui uma lógica própria e razões que nem sempre são compatíveis com princípios que norteiam a ação humana em outros domínios, Maquiavel aponta para a necessidade de uma moral apropriada à política, enfatizando que os valores que regulam a ação dos indivíduos em outros domínios – familiar, profissional etc. – nem sempre coincidem com aqueles que regulam a ação política.

Ao lado de uma moral privada, de foro íntimo, haveria uma moral pública, mais apropriada às relações políticas. Nesse sentido, a ação política não estaria isenta de deveres, mas os critérios para estipulá-los não poderiam ser estranhos a sua finalidade, que é a preservação do bem comum e da ordem pública.

Para alcançar tal fim, o agente político não dispõe de um anteparo moral absoluto. Ao se defrontar constantemente com a incerteza, a instabilidade e a mutação, inerentes aos acontecimentos políticos, não pode recorrer a um conjunto de regras fixas, a priori e atemporais. A necessidade vai orientar sua ação e justificar os meios escolhidos para alcançar seus objetivos.

Não se trata, portanto, de retirar a moralidade da política, mas de reconhecer que a política tem sua própria lógica, seu próprio sistema normativo fundado em valores diferentes daqueles que regulam as ações dos indivíduos em suas relações particulares. Não há uma oposição entre a moral e a política, apenas o reconhecimento da impossibilidade daquela unicidade, encontrada e enaltecida na tradição clássica, entre fins públicos e privados.

A segunda ideia é a constatação de que os conflitos são inerentes a todo corpo político. Até para Maquiavel, os conflitos eram considerados sempre danosos e deviam ser evitados, uma vez que a finalidade da vida política era freqüentemente relacionada com a busca da harmonia e da concórdia,.

De Dante aos humanistas do Renascimento italiano, havia um consenso sobre o papel negativo das dissensões internas na vida de uma cidade, pois o ideal era a instauração da paz, inspirada na ideia unificadora que representava a harmonia necessária de toda ordem: cósmica ou social. Maquiavel, ao contrário, as reconhece como inerentes ao corpo político. O seu ponto de partida é a constatação da existência em toda sociedade política de desejos opostos, que se chocam devido à diversidade de seus objetos.

A esfera política é assim um espaço inevitável de confronto de desejos opostos, que podem ser mediados pelo poder, mas sempre como uma solução provisória, diante da impossibilidade de ultrapassar a dessemelhança dos desejos. Maquiavel identifica em toda sociedade política, pelo menos, dois desejos ou humores opostos: o desejo dos grandes de mandar e oprimir; e o desejo do povo de não ser comandado e oprimido . O desejo do povo lhe parece ser mais nobre, porque quer apenas garantir-se contra o domínio dos grandes. Dificilmente o seu interesse se opõe à liberdade. Na verdade, parece estar mais próximo da liberdade, pois, não sendo um desejo de mando, mostra uma face importante de sua manifestação: a não-opressão. Além disso, a sua realização só é possível por meio de instituições que protejam o povo contra o domínio dos grandes, garantindo assim a liberdade para toda sociedade.

Como o desejo do povo é manter a liberdade, a sua guarda deve ser dada a ele, argumenta Maquiavel, uma vez que o povo teria uma propensão menor de violá-la. Na medida em que os confrontos não podem ser totalmente extintos, confiar a liberdade ao povo significa dar os meios necessários para que as forças em conflito possam se exprimir institucionalmente.

O papel determinante das dissensões romanas na produção de suas boas leis é justificado pela prevalência das ações necessárias sobre aquelas que dependem da escolha.

Os homens agem, segundo Maquiavel, por escolha ou por necessidade; e só esta última é capaz de conduzi-los a fazer o bem. As dissensões impõem um estado de necessidade, pois representam um risco real à existência da sociedade, podendo levá-la à destruição.

Não apenas são diretamente indicadoras dessa necessidade, mas pela sua urgência impõem uma decisão, suprimindo todo recurso à escolha e às indecisões que dela resultam. As dissensões forçam assim as boas decisões, pois apontam para o que é verdadeiramente necessário imposto pelos acontecimentos.

Ambas ideias ainda repercutem na maneira de pensar e fazer política na atualidade.