ORIGENS

CENTRO ÁNGEL RAMA

ORIGENS*

O grupo Ángel Rama, que também se denominou Centro, pois desde o princípio tínhamos a intenção de criar um Centro Interdepartamental na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, tem uma antiga história.

Concretamente, essa história tem a ver com a greve de docentes e funcionários (a primeira na história da Universidade), que paralisou a USP durante 30 dias entre abril e maio de 1979. Nas sucessivas assembléias, além do debate sobre nossos salários, foram surgindo discussões sobre a Universidade que queríamos.

Desenvolvia-se a idéia de uma universidade com maior espaço para a interdisciplinaridade, através da integração do trabalho docente com a investigação em diversas áreas.

Uma vez terminada a paralisação, estimulados pelo significado e força da greve, declarada em plena ditadura militar, começamos a nos reunir em seminários informais para conversar sobre os trabalhos que estávamos elaborando. 1

Outra motivação inicial, além da simpatia que unia e une os participantes, foi a semelhança de pontos de vista que sentíamos (o verbo é bom porque era uma relação mais intuitiva que analítica, no começo) haver entre nossas diferentes investigações. Trabalhando com temas muito variados, desde o inicio notamos que a interdisciplinaridade buscada não se dava necessariamente a nível de temas, mas de perspectivas afins, que passava pelo esforço de pensar produzindo no contexto de um Brasil dependente, inserido no conjunto não homogêneo, mas não por isso inexistente - como conjunto -, que sofreu e sofre determinantes históricos comuns da Latinoamérica.

Tínhamos em comum, portanto, essa intenção de incorporar explicitamente as contingências históricas dos objetos simbólicos sobre os quais nos voltamos e de nosso próprio trabalho.

 "Produções simbólicas e processo social na América Latina" foi, por isso, o tema comum, bastante amplo, mas que mais tarde veio a ser o lema sob o qual alguns integrantes do antigo grupo (que havia interrompido suas reuniões durante algum tempo) voltaram a encontrar-se em 1988, ao requerer uma cláusula do "Projeto BID/USP", que estabelecia justamente esse tema como um dos prioritários na área de Humanidades.

Desde então, retomamos nossos seminários mensais mais sistematicamente, dividindo-nos entre a discussão dos caminhos burocráticos do projeto e de seus rumos teóricos. Assim, definimos uma política de viagens tanto para nossas práticas no exterior como para receber professores estrangeiros, dentro das normas que o programa BID/USP estabeleceu 2. Mas ao lado disso, continuamos com os seminários de leitura e discussão dos nossos textos.

No projeto que enviamos ao BID já tínhamos claro que a compreensão da história passa também pelo estudo do imaginário, assim como a compreensão da literatura passa pelo estudo do processo histórico. E o eixo em torno do qual gravitam nossos trabalhos individuais (que vão do barroco mexicano à novela brasileira contemporânea), era definido assim:

"O conjunto de temas que temos investigado tem como ponto em comum buscar compreender como se formou aquilo que a condição colonial negava a seus próprios núcleos: a constituição do espaço público. No começo da colonização este espaço pôde subsistir como espaço religioso; mas desde que se definiu como político, foi reprimido, cercado e virtualmente negado. As elites dos novos países latino-americanos carregam esta marca de nascimento, como uma maldição: ao mesmo tempo que renegam-na, se mostram incapazes de aceitar uma abertura democrática do espaço público que constituíram.

Como ponte de passagem entre o religioso e o civil, a arte desempenhou um papel importante na constituição desse espaço público que, apesar das deficiências de origem e das marcas e resistências que se perpetuam, existe com amplo vigor na Latinoamérica. No teatro, na literatura, na pintura (inicialmente) e depois no cinema, nos meios de comunicação de massa, viajaram e viajam os impulsos de "apesar da história passada" constituir-se nações, no sentido moderno da palavra, isto é, "dotadas" de povos soberanos.

Uma das funções que a arte vem exercendo constantemente em nossos países é a de rescrever a história, nossa história. Esta, primeiro se concebeu como história da conquista, acompanhada da conversão cristã. Depois, freqüentemente se transformou em história escrita do ponto de vista de elites culturais que se propõem herdeiras dessa conquista. É sabido que as histórias "oficiais" dos países da América Latina não narram nem sequer a metade dessa mesma história. E, em grande parte, coube à arte a "função" ou tarefa de explicar a constituição desses povos como algo ligeiramente ou muito diferente de uma simples conseqüência da aventura colonial. A arte se faz, assim, ela mesma, um espaço público - um espaço do público - numa época dominada por sua apropriação privada.

A arte, território de intervenção, abre seu espaço para uma concepção da Latinoamérica como projeto para uma maior participação popular nos desenhos e destinos de nossas nações. O "Latino" e o "América" desse expressão deixam de referir-se unicamente a uma condição geográfica, geopolítica ou a um passado lingüístico e cristão (católico), passando a designar um desejo comum de resolver as contradições de nossa história, abrindo-se de fato o espaço público para os povos que o compõem".

Este trecho em que, em 1988, Flávio Wolf de Aguiar resumia, explicando, a perspectiva comum que parecia dar coerência à nossa prática interdisciplinar seria rescrito quanto entramos numa nova etapa da investigação.

Até esse momento, cada um dos dez elementos do grupo apresentou seus trabalhos em elaboração na época, por escrito, para ser discutido pelos demais. Foi uma fase em que tentamos beneficiarmo-nos dos diferentes enfoques com que investigadores de distintas especialidades leriam esses textos, ao mesmo tempo em que procuramos conciliar os elementos comuns, intuídos no princípio, que relacionam esses textos entre si, apesar da diversidade temática.

Também com este objetivo, parte significativa do grupo efetuou suas práticas no exterior, mais concretamente na Espanha, durante um mês, em janeiro de 1990, rescrevendo os textos discutidos com anterioridade para apresentá-los no "Seminário sobre relações entre história e literatura", realizado na Universidade Complutense de Madrid e patrocinado pelo Instituto de Cooperação Iberoamericano. Ali, apresentando e discutindo seus textos, como um grupo, na discussão com os colegas espanhóis, os eixos comuns em torno dos quais giram essas investigações específicas se fizeram mais visíveis. A viagem permitiu também a riquíssima experiência da investigação bibliográfica em conjunto, com os membros do grupo trabalhando juntos nas livrarias e bibliotecas, o que possibilitou um constante intercâmbio de informações muito proveitoso. 


*Texto escrito e lido por Lígia Chiappini no Encontro de Campos do Jordão em 1997.

NOTAS

1 .Vários professores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP participaram desses seminários, entre os quais destacamos por sua ativa participação: Elizabeth Souza Lobo, Irene Cardoso, José Carlos Bruni, Luiz Roberto Salinas Fortes, Milton Meira de Nascimento, Nicolau Sevcenko, Olgária Matos, Walnice Nogueira Galvão, Janice Theodoro da Silva, José Carlos Sebe Bom Meihy, Maria Helena Oliva Augusto, Jorge Schwartz, Valéria de Marco, Flávio Aguiar, Mário Miguel González, Maria Augusta Vieira Helene, Sandra G. T. Vasconcelos e Lígia Chiappini. 

  
2. Fez parte dessa política concentrar economicamente a presença desses convidados estrangeiros num Seminário Internacional sobre Literatura e História na Latinoamérica, seminário que se realizou de 9 a 13 de setembro de 1991, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, com o apoio da "Pró-Reitoria de Extensão" e do "Instituto de Estudos Avançados".