A convite das ministras Gleisi Hoffmann, da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República, e Macaé Evaristo, dos Direitos Humanos e da Cidadania, o Centro de Estudos Judaicos (CEJ) da USP esteve em um encontro que reuniu representantes do governo federal com rabinos, dirigentes de instituições judaicas e pesquisadores judeus. O encontro aconteceu em Brasília no dia 28 de janeiro e teve como tema o enfrentamento ao antissemitismo no Brasil.
Com duração de três horas e meia, o encontro realizado no Palácio do Planalto constituiu uma iniciativa inédita para discutir ações conjuntas no combate ao antissemitismo no País, cujo crescimento exponencial é alarmante e tem sido objeto de denúncias de diversas organizações judaicas. Suzana Chwarts, professora do curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e diretora do CEJ, participou da reunião em Brasília. Ela relatou que o recrudescimento do antissemitismo, em particular no ambiente universitário, tem afetado até mesmo estudantes que não são judeus.
“Para mim foi um privilégio representar os alunos da USP que estudam Hebraico e Estudos Judaicos na graduação e na pós-graduação, e poder narrar como a sua vivência no campus tem sido marcada por flagrante hostilidade e agressões antissemitas ao longo dos últimos dois anos. Foi importante trazer ao conhecimento público o fato de que 80% dos alunos da Habilitação de Hebraico na USP não são judeus e não obstante são alvo de antissemitismo”, afirma a docente.
Suzana, que define o antissemitismo como uma “enfermidade social que corrói os laços de solidariedade e respeito vital entre as pessoas e ameaça os valores fundamentais da sociedade democrática”, ressalta a importância de trazer a público os dados sobre casos de hostilidade e agressões. “Esse dado da vida real é significativo para o desenvolvimento de estratégias de letramento aptas a confrontar o antissemitismo em seu âmago e a desmantelar a lógica que normaliza tal patologia como ‘antagonismo aos judeus’,” diz a professora.
Educação para combater o ódio
A questão do letramento esteve no centro da discussão em Brasília, já que o encontro teve ênfase no papel da educação como instrumento fundamental para a prevenção dos crimes de ódio, bem como para o fortalecimento da democracia. A escritora, antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz, professora da USP e da Universidade Princeton, foi uma das que ressaltaram a importância da educação como uma das formas mais eficazes de combate ao antissemitismo.
“O antissemitismo é crime e precisa ser tipificado. Nós sabemos o quanto o antissemitismo tem crescido nesses últimos momentos. E sabemos também que a denúncia e a judicialização são muito importantes, mas é preciso outros tipos de atuação”, defendeu Lilia, que participou de forma remota da reunião. “A educação é uma força poderosa no sentido de produzir letramento. O antissemitismo só aparece rapidamente, não nomeado, no 9º ano, a partir do estudo do totalitarismo, dos conflitos mundiais e do Holocausto. Me parece que esse não é só um tema para o 9º ano do ensino fundamental”, questionou ela.
Além de Suzana e Lilia, participaram da reunião pesquisadores de universidades de cinco estados brasileiros. Estiveram presentes, ainda, religiosos, representantes de instituições como o Museu do Holocausto de Curitiba e de movimentos sociais como o Judeus pela Democracia e a Casa do Povo, entre outros. Também participaram dirigentes da Confederação Israelita do Brasil (Conib), instituição de representação e coordenação da comunidade judaica no País, e do Instituto Brasil-Israel, que distribuiu no evento cópias de um guia contra o antissemitismo e um estudo sobre as percepções e narrativas da população brasileira sobre os judeus, o Estado de Israel e o conflito entre Hamas e Israel.
Pelo lado do governo, participaram o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, as ministras Gleisi Hoffmann, Macaé Evaristo e Esther Dweck (da pasta de Gestão e Inovação em Serviços Públicos), a ministra substituta das Relações Exteriores, Maria Laura, e a assessora da Presidência, Clara Ant.
Tentativa de aproximação
Segundo o relato oficial do governo, o encontro serviu também para desmistificar a ideia de que possa haver qualquer motivação antissemita dentro do Executivo federal. A reunião aconteceu dois dias após uma agenda da ministra Macaé Evaristo em São Paulo com representantes da comunidade judaica, que marcou o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Essas atividades tiveram como objetivo melhorar as relações do governo com a comunidade judaica, que ficaram bastante tensas após duras críticas do presidente Lula ao primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, no contexto do conflito em Gaza. Em 2024, uma fala na qual Lula comparou o genocídio em Gaza com o Holocausto promovido pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial causou particular mal-estar e levou o presidente a ser declarado persona non grata em Israel.
A última campanha militar de Israel em Gaza teve início em outubro de 2023, após uma série de ataques coordenados do Hamas contra Israel, e deixou mais de 75 mil mortos no território palestino em menos de dois anos, segundo uma estimativa publicada nesta quarta-feira (18) na revista científica The Lancet Global Health. Ao mesmo tempo, o conflito foi o estopim para uma explosão de casos de antissemitismo. De acordo com um monitoramento da Conib divulgado no ano passado, as denúncias de antissemitismo registradas no Brasil cresceram de 397 em 2022 para 1.788 em 2024. Os dados foram coletados por meio de canais institucionais ligados à Conib e às federações israelitas estaduais, além de e-mails e relatos presenciais de colaboradores dessas entidades.
O encontro de janeiro no Palácio do Planalto evitou o espinhoso debate entre os diferentes posicionamentos dos participantes sobre a guerra no Oriente Médio e manteve o foco no compromisso brasileiro com o repúdio ao antissemitismo e a todas as formas de discriminação étnica, racial e religiosa. Esse posicionamento está amparado na Constituição Federal de 1988, que garante a liberdade religiosa, e na Lei nº 7.716/1989, que criminaliza práticas de discriminação e preconceito.
O Brasil também é signatário de tratados internacionais que reforçam o arcabouço jurídico de combate ao antissemitismo e outras formas de discriminação, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) e a Convenção Internacional contra a Discriminação Racial (1965).
*Com informações do CEJ, da Agência Gov e da Agência Brasil
Texto publicado no Jornal da USP: Centro de Estudos Judaicos da USP participa de reunião em Brasília sobre combate ao antissemitismo – Jornal da USP