Inicialmente apresentada na Unibes Cultural, a exposição Mooca judaica: histórias e memórias de uma comunidade, segue em itinerância para o Museu da Imigração do Estado de São Paulo, onde deve ficar em cartaz até o dia 21 de junho. A mostra reúne fotografias, depoimentos e outros registros da trajetória da comunidade judaica no bairro da zona leste de São Paulo, e conta com a curadoria da historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. O evento de abertura no museu acontece nesse domingo (17), às 13 horas.
A mostra é resultado do trabalho das pesquisadoras Adriana Abuhab Bialski e Myriam Rosenblit Szwarcbart no projeto Comunidade Judaica da Mooca. Iniciado em 2023, o projeto recebe o apoio de representantes comunitários oriundos do bairro, que contribuíram com todo o processo de elaboração da pesquisa. Resgatando as memórias vinculadas ao material reunido, a exposição ressalta a importância de um patrimônio cultural de uma comunidade e revela isso para um público maior.
As trajetórias de integrantes da comunidade judaica se entrelaçam com a diversidade cultural da cidade de São Paulo, destacando a Mooca como um espaço de convivência entre diferentes origens e culturas. Um bairro que, desde o início do século 20, acolheu famílias vindas do Oriente Médio, da Europa e de outras partes do mundo.
“Assim, procuramos apresentar a iconografia e os textos produzidos pelas pesquisadoras Myriam Rosenblit Szwarcbart e Adriana Abuhab Bialski de maneira autêntica e equilibrada, fundamentados com o objetivo de torná-los acessíveis ao público”, diz Maria Luiza Tucci Carneiro, no texto de curadoria da exposição.
Memória e patrimônio cultural
Ambas com origem familiar na comunidade judaica e na bairro da Mooca, Adriana e Myriam se conheceram por meio do processo desse e de outros projetos que desenvolvem. Partindo inicialmente de interesses pessoais, elas entrevistaram descendentes de imigrantes, principalmente de libaneses que se estabeleceram na Mooca. Foi em conjunto com as famílias que Adriana e Myriam tomaram a decisão de transformar a pesquisa em uma exposição.
Adriana, hoje doutoranda em Letras Estrangeiras e Tradução na FFLCH, com ênfase em estudos judaicos, é economista pela Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP e mestre em Letras Estrangeiras e Tradução pela FFLCH. Também especialista em Museologia pela PUC-SP, foca seus projetos na memória dos judeus no Brasil. Já Myriam é arquiteta pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP e especialista em Gestão Cultural pelo Senac. Pesquisadora de sinagogas e comunidades judaicas paulistas, é criadora do projeto As Sinagogas em São Paulo.
O trabalho das pesquisadoras no projeto que deu origem à exposição Mooca judaica teve uma etapa de pesquisa bibliográfica que partiu, principalmente, da tese de doutorado em História Social de Rachel Mizrahi, Imigração e identidade: as primeiras comunidades judaicas do Oriente Médio em São Paulo e no Rio de Janeiro, defendida em 2000 na FFLCH. Adriana e Myriam a consideram uma base importante por seu pioneirismo e acreditam que o trabalho que estão desenvolvendo é uma atualização, com um olhar diferente.
Adriana afirma que, por não serem historiadoras, se beneficiaram do trabalho de Rachel e colocaram o viés do patrimônio cultural. “Talvez nosso foco maior seja história oral, a gente trabalha com essa metodologia em outros projetos, inclusive. A gente juntou esse interesse pela memória com as questões de museologia e patrimônio. É história, mas mais do que história”, diz a pesquisadora.
A curadora da mostra, Maria Luiza Tucci Carneiro, reflete sobre a maneira como a memória e os objetos estão costurados na exposição. “A minha principal preocupação foi de expor a um público maior a história, os valores, as tradições do judaísmo, enquanto um legado herdado das principais famílias de imigrantes judeus que optaram pela Mooca como pátria de destino”, ressalta a professora, que coordena o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) e é autora de livros sobre racismo, Holocausto, imigração judaica, arte e cultura política, como, por exemplo, Dez mitos sobre os judeus.
Um projeto em expansão
A investigação dos personagens da Mooca judaica também se afirma sempre constante, principalmente depois que a exibição da mostra na Unibes Cultural levou outras famílias à procura do projeto. A exposição ficou sediada lá de outubro de 2025 a abril deste ano e contou com apoio financeiro do Programa Municipal de Apoio a Projetos Culturais (Promac). Agora, as pesquisadoras, sentindo-se realizadas por chegarem ao Museu da Imigração, pensam nos projetos futuros.
“A gente pretende transformar em um livro catálogo, acrescentando novas entrevistas que pretendemos fazer, e também pretendemos que essa seja uma exposição itinerante, aberta para a comunidade como um todo e para outras instituições. O plano é não ficar parado e guardado”, diz Myriam ao Jornal da USP.
O Museu da Imigração fica localizado na Rua Visconde de Parnaíba, 1.316, na Mooca, e fica aberto das 9h às 18h, com bilheteria até às 17h. Aos domingos o museu funciona a partir das 10h. O valor do ingresso é R$ 16 a inteira e R$ 8 a meia. Aos sábados a entrada é gratuita.
Texto de Evelyn Rodrigues, estagiária sob supervisão de Silvana Salles, publicado no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/diversidade/exposicao-no-museu-da-imigracao-conta-historias-da-comunidade-judaica-da-mooca/