Boris Schnaiderman é homenageado com evento na USP

A trajetória do professor, tradutor e crítico literário que introduziu os estudos de língua e literatura russa no Brasil será relembrada nesta quinta-feira, dia 28, no Centro MariAntonia
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Redação
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Primeiro no Brasil a traduzir autores russos diretamente do original, Boris Schnaiderman (1917-2016) foi o criador do curso de Língua e Literatura Russa da USP - Foto: Léo Ramos/FAPESP
Primeiro no Brasil a traduzir autores russos diretamente do original, Boris Schnaiderman (1917-2016) foi o criador do curso de Língua e Literatura Russa da USP - Foto: Léo Ramos/FAPESP

Um dos pioneiros e maiores nomes da tradução, da crítica e dos estudos da literatura russa no Brasil terá sua trajetória lembrada nesta semana. O professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Boris Schnaiderman (1917-2016) será tema de um dia inteiro de conversas e intervenções artísticas nesta quinta-feira, dia 28, no Centro MariAntonia da USP.

Trata-se da Jornada Boris Schnaiderman, que vai homenagear o responsável por trazer rigor às traduções do russo para a língua portuguesa e fundar o curso de Língua e Literatura Russa da USP. Quem organiza a programação é Bruno Gomide, professor do Departamento de Letras Orientais da FFLCH.

O evento contará com a presença da tradutora e professora da FFLCH Aurora Bernardini, responsável pela palestra de abertura das atividades. A programação segue com a escritora contemporânea russa de origem azerbaijana Egana Djabbarova, em uma conversa mediada por Elena Vassina e Arlete Cavaliere, ambas também professoras da FFLCH. “Egana não conheceu Boris e nem ele a obra dela, mas acho que o agradaria muito ter uma voz poética. Ele era um grande leitor de poesia, não só russa”, comenta Gomide.

Em seguida, a jornada oferece um panorama das várias frentes em que Schnaiderman atuou. Em primeiro lugar, como tradutor. Para falar desse aspecto, estarão reunidos o tradutor e poeta Nelson Ascher, o professor aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Walter Costa e a professora da FFLCH Fátima Bianchi.

Schnaiderman foi um divisor de águas na tradução da literatura russa para o português. Antes dele, as traduções feitas diretamente dos originais eram raras e a maior parte do que aparecia em português chegava de traduções francesas. “É sempre importante enfatizar a novidade que Boris trouxe, de traduzir sistematicamente a partir do texto russo, em um nível de exigência, de dedicação e de qualidade bastante alto”, aponta Gomide.

Para o professor, além da novidade do método de tradução, Schnaiderman também contribuiu muito na seleção do que trouxe para o Brasil com seu trabalho. Ele não traduziu apenas autores fundamentais como Dostoiévski e Tolstói, mas apresentou para o País também escritores da União Soviética do século 20, autores desconhecidos ou que circulavam apenas de um ponto de vista ideológico, indica Gomide. “Boris foi o primeiro a apresentar, traduzir e escrever sobre esses autores de um modo muito mais substancial.”

Outra novidade introduzida pelas contribuições de Schnaiderman foi a tradução da poesia russa, que não existia antes dele no Brasil. Nesse campo, no qual nunca atuou sozinho, contou com colaboradores como os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e o próprio Nelson Archer, que vai participar do evento no Centro MariAntonia. “Ele foi realmente um pioneiro, uma figura divisora de águas”, atesta Gomide. “O Brasil conheceu a literatura russa através de Boris Schnaiderman.”

Comentando a faceta de Schnaiderman como educador, o evento traz Rubens Pereira dos Santos, professor aposentado da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), Maria Augusta da Fonseca, professora da FFLCH, e Irene Machado, professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Schnaiderman foi responsável pela criação do primeiro curso universitário de Língua e Literatura Russa no País, na USP. A princípio como curso livre, mas depois inserido na grade das habilitações da graduação em Letras. “O começo dos anos 1960 era um período adequado para isso”, explica Gomide. “A União Soviética vivia um processo de ‘desestalinização’ e estava muito mais aberta, com muitos viajantes e estudantes, havia muita troca cultural. Ela estava na ‘crista da onda’ porque estava à frente da corrida espacial e havia todo um interesse mundial pela Rússia. Na América Latina, havia acontecido a Revolução Cubana e estávamos em um período democrático no Brasil.”

O professor Bruno Gomide, organizador do evento - Foto: Divulgação/Edusp
O professor Bruno Gomide, organizador do evento - Foto: Divulgação/Edusp

A atuação de Schnaiderman como crítico, por sua vez, será revista pelo próprio Gomide e Mário Ramos, também professor da FFLCH, além de Beth Brait, professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, e Maria Aparecida Fernandes, autora de uma tese defendida na PUC sobre o homenageado, sob orientação de Beth. “Schnaiderman tem um papel fundamental na crítica, no ensaísmo e no jornalismo cultural”, afirma Gomide.

O professor conta que a atividade crítica de Schnaiderman começou já no final dos anos 1960, no Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo. Ele publicou principalmente em jornais, mas também contribuiu em revistas, orelhas de livro e anais de congressos, escrevendo de maneira contínua praticamente até sua morte. “Certamente, ele foi um dos críticos mais longevos da nossa imprensa”, diz Gomide. “E muita gente conheceu a literatura russa por essa atividade jornalística.”

O professor lembra que Schnaiderman se destacou também por introduzir os próprios críticos russos nos debates brasileiros, como os formalistas e Mikhail Bakhtin. Chegou mesmo a trazê-los pessoalmente ao País, como foi com Roman Jakobson. “Boris foi uma figura de mediação do universo crítico russo, além de escrever uma crítica muito importante e original sobre boa parte da literatura russa dos séculos 19 e 20”, indica Gomide.

Finalmente, para falar das publicações do homenageado, o Centro MariAntonia convida o escritor e poeta Alberto Martins e o tradutor e poeta Cide Piquet. Ambos têm atuação como editores na coleção de literatura russa da Editora 34, responsável por publicar a maior parte das traduções de Schnaiderman a partir do final dos anos 1990. “Eles falarão sobre como foi trabalhar com Boris Schnaiderman sob o ponto de vista dos editores”, explica Gomide. “Sempre a partir de impressões pessoais e depoimentos, nada muito técnico. O tom que predominará no evento é o do relato humano, da convivência com o professor.”

Com as comunicações, a jornada terá ainda apresentações de produções audiovisuais, depoimentos de familiares e amigos e intervenções musicais, contando com a presença de estudantes do curso de Língua e Literatura Russa da FFLCH, que farão leituras de trechos das traduções de Schnaiderman.

Guerra, tradução e docência

Boris Schnaiderman nasceu em 1917 em Uman, na Ucrânia. Passou parte da infância em Odessa e, em 1925, aos 8 anos, veio com a família para o Brasil. Naturalizado brasileiro em 1941, participou da Segunda Guerra Mundial integrando a Força Expedicionária Brasileira (FEB), vivência que serviu de base para o romance Guerra em Surdina (1964).

Pioneiro na tradução direta do russo para o português, iniciou o ofício nos anos 1940 com uma tradução de Os Irmãos Karamazov. Além de Fiodor Dostoiévski, possui em seu currículo a tradução de outros grandes nomes da literatura do país, como Lev Tolstói, Anton Tchekhov, Máximo Gorki, Isaac Babel, Boris Pasternak, Aleksandr Pushkin e Vladimir Maiakovski. Apesar de ser graduado em Engenharia Agronômica, atuou na USP como fundador e primeiro professor do curso de Língua e Literatura Russa, lecionando do início dos anos 1960 até 1979. Mesmo aposentado, não se afastou da Universidade, continuando suas atividades na pós-graduação.

Tornou-se Professor Emérito da FFLCH em 2001. Dois anos depois, em 2003, recebu o prêmio de Tradução da Academia Brasileira de Letras e, em 2007, a Medalha Pushkin do governo russo, por seu trabalho na divulgação da cultura russa.

Além de Guerra em Surdina, publicou, entre outras obras, A Poética de Maiakovski (1971), Dostoiévski: Prosa e Poesia (1982), Os Escombros e o Mito: a Cultura e o Fim da União Soviética (1997) e Tradução, Ato Desmedido (2015).

A Jornada Boris Schnaiderman acontece nesta quinta-feira, dia 28, das 9 horas às 19 horas, no Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, região central de São Paulo, próximo às estações Santa Cecília e Higienópolis-Mackenzie do metrô). Entrada grátis. Não é preciso fazer inscrição. Mais informações estão disponíveis no site do Centro MariAntonia.

Texto de Luiz Prado publicado no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/cultura/boris-schnaiderman-e-homenageado-com-evento-na-usp/