
Os estereótipos raciais atribuídos às mulheres negras no Brasil não afetam apenas a forma como elas são vistas socialmente, mas também influenciam diretamente a construção de suas identidades. Essa é uma das principais conclusões da dissertação de mestrado O que em nós se vê: estereótipos raciais e a construção da subjetividade das mulheres negras brasileiras, defendida em fevereiro na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, pela pesquisadora Valerya Elizabeth Borges da Silva.
A pesquisa elabora uma análise sobre os rótulos que representam mulheres negras na cultura. Valerya relaciona a construção da identidade dessas mulheres com autoras fundamentais do pensamento negro e feminista, como Neusa Santos Souza, Sueli Carneiro, bell hooks, Grada Kilomba e Lélia Gonzalez.
A dissertação mostra que o racismo não atua apenas em episódios explícitos de discriminação, mas também de maneira cotidiana e estrutural, visto que esses rótulos reduzem experiências complexas, dificultando o reconhecimento da individualidade dessas mulheres. Imagens historicamente associadas às mulheres negras atravessam gerações e permanecem presentes no imaginário social, em figuras como a mucama, a mãe preta, a empregada doméstica e a negra guerreira.
O estudo avaliou que desde a infância, meninas negras são apresentadas a essas imagens que limitam suas oportunidades e ditam o modo como elas reagem a diferentes acontecimentos ao longo da vida, distorcendo a visão de si mesmas, além de afetarem sua autoestima e relações afetivas e profissionais.
Registro das experiências
A pesquisa foi feita a partir da elaboração de um formulário com mais de 40 respostas, voltado a mulheres negras de diferentes idades e trajetórias sociais. Segundo Valerya, os relatos indicaram que não há diferenças expressivas entre faixas etárias no que diz respeito à insegurança e às distorções na identidade. “A nossa autoestima começa boa normalmente; ela começa em casa, começamos sendo amadas e protegidas e deixa de estar boa quando colocamos o pé na rua”, reitera.
Os estereótipos que incidem contra esse grupo minoritário são uma ferramenta do racismo estrutural, servindo como mecanismo de controle e descredibilização da imagem, segundo Valerya. “A força dessa imagem reside em revelar que o racismo opera antes mesmo de qualquer ação: ele se manifesta no modo como o corpo é lido, interpretado e situado”.
As percepções falhas da individualidade de mulheres negras tem como base o padrão colonial e eurocêntrico de beleza e personalidade. A construção desse padrão contribuiu para estratégias de embranquecimento da noção de beleza e da superioridade branca. A pesquisadora faz um diálogo entre o tema e as formulações da ativista e filósofa Lélia Gonzalez, que explica que o padrão proposto internaliza nas mulheres negras o desejo de embranquecer e a rejeição da própria raça e cultura.
Valerya também explica que redes de apoio de mulheres são de extrema importância na criação de sua identidade. Estar em contato com outras mulheres que sofrem com o mesmo fenômeno de desconexão as ajuda a procurar o autoconhecimento e cria um ambiente seguro e confortável para construir a autoestima. Ela usa as ideias de bell hooks, autora e teórica feminista, para explicar a importância da socialização no amor próprio, além de ressaltar que nesse contexto a coletividade e a autoaceitação são mecanismos éticos e políticos.
Imaginação como luta política
Para a autora da tese, a parte mais essencial do trabalho é, além de documentar o problema social, entender como as mulheres negras sobrevivem a partir dele. Para nomear esse movimento, Valerya utiliza o termo “reexistência”: a capacidade de resistir e, ao mesmo tempo, reinventar a própria existência diante dos estigmas históricos.
Para a pesquisadora, a resistência de mulheres negras diante dos estereótipos a que são submetidas é idealizar outros futuros possíveis e fortalecer redes de apoio, além de reafirmar suas trajetórias para além das imagens impostas. “Imaginar não é luxo nem exercício especulativo. É gesto político fundamental, condição de possibilidade da própria vida”.
A tese de mestrado O que em nós se vê: estereótipos raciais e a construção da subjetividade das mulheres negras brasileiras, de Valerya Elizabeth Borges da Silva, e orientada por Maria Angelica Souza Ribeiro do Programa de Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades, foi defendida em fevereiro de 2026.