Orgulho LGBTQIAPN+ mobiliza memória, pesquisa e luta por direitos na FFLCH

No Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, estudantes e pesquisadores da Faculdade refletem sobre a trajetória do movimento, os desafios atuais e a importância da Universidade na promoção de diversidade e cidadania
Por
Ana Julia Oliveira, Gabriela César, Juliana Morais e Maria Fernanda Friano
Data de Publicação
Editoria

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No dia 28 de junho é celebrado o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+. A data faz referência à Revolta de Stonewall, ocorrida nesta data em 1969, onde o bar Stonewall inn, localizado em Manhattan, Nova York, foi invadido violentamente por policiais como forma de repressão à comunidade LGBTQIAPN+. O bar era frequentado principalmente por gays, pessoas trans, lésbicas e drag queens — além de abrigar uma parte marginalizada da própria comunidade, como pessoas periféricas, negras e latinas.

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Para Júlio Simões, a ligação da Revolta de Stonewall com o movimento LGBTQIAPN+ brasileiro não foi direta e rápida, pois o Brasil passava por uma ditadura militar que não permitia liberdade política / Imagem: Reprodução/Press Media

A Revolta de Stonewall se destacou principalmente pela sua proporção. Naquela madrugada, os frequentadores do bar reagiram à frequente repressão policial ao bar e ocuparam o Stonewall inn por horas. Eles arriscaram suas vidas em combates físicos contra os policiais, liderados especialmente pelas pessoas mais pobres e discriminadas.

 

O episódio representou “um marco internacional para a comunidade e uma atitude de saída da vergonha e do confinamento para uma atitude de orgulho e de ocupação do espaço público", segundo Júlio Simões, especialista em sexualidade e gênero e professor do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

 

No Brasil

O movimento LGBTQIAPN+ organizado começou a se desenvolver no país a partir da década de 1970, em meio a ditadura civil-militar, segundo Simões. “O movimento brasileiro tem sua história e sua própria trajetória, que está ligada ao enfrentamento à ditadura e a uma reorganização dos movimentos sociais nesse período”. Ele explica que a criação do “Somos: Grupo de Afirmação Homossexual”, em 1978, foi um marco da militância homossexual no país. O Somos foi formado por homens gays, lésbicas e travestis.  Ao decorrer dos anos, o grupo se dividiu em outros com lutas mais específicas. “Quando eu frequentei o Somos, em 1979, ele se separou e as mulheres lésbicas que faziam parte do grupo criaram um outro separado [o Grupo de Ação Lésbico-Feminista (GALF)]”, afirma Simões. 

 

O grupo foi desfeito em 1984, mas teve um papel fundamental na construção de uma face mais política e no estabelecimento de conquistas nas áreas de saúde, liberdades civis e sociais, psicologia e aceitação social, de acordo com Simões. Ele explica que a criação de grupos como o Somos gerou um sentimento de pertencimento à comunidade, ainda que as pessoas LGBTQIAPN+ fossem muito diferentes entre si. “O que pôde juntá-las foi a experiência de discriminação e violência que todos passam”.

 

O Lampião da Esquina encerrou suas atividades em 1981 / Imagem: Reprodução/Wikipedia
O Lampião da Esquina encerrou suas atividades em 1981 / Imagem: Reprodução/Wikipedia

As publicações alternativas LGBTQIAPN+ foram um marco para a conquista de direitos e de maior visibilidade à comunidade, segundo Simões. Entre elas, duas se destacaram: os  jornais O Lampião da Esquina e ChanacomChana. O Lampião da Esquina foi fundado em 1978 pelo Somos e, de acordo com Simões, se propôs a ser porta-voz não só da diversidade sexual e de gênero, mas dos vários movimentos de emancipação que estavam aparecendo naquele momento.

 

Em 1981, o GALF fundou o jornal ChanacomChana, que era distribuído no Ferro’s Bar. Segundo Simões, o bar era frequentado pela comunidade LGBTQIAPN+ da época, mas a distribuição do jornal não era aprovada pelos donos do local, que, em 1983, expulsaram as mulheres do bar.

 O Ferro’s Bar ficava na região da Bela Vista, no centro de São Paulo / Imagem: Reprodução/Acervo Um outro olhar
O Ferro’s Bar ficava na região da Bela Vista, no centro de São Paulo / Imagem: Reprodução/Acervo Um outro olhar

O antropólogo afirma que no dia 19 de agosto daquele ano houve um confronto entre as lideranças do movimento lésbico e a direção do bar. Lésbicas, feministas e ativistas LGBTQIAPN+ se reuniram no Ferro’s, onde fizeram um ato político que resultou no fim da proibição da venda. Este episódio ficou conhecido como o “Stonewall brasileiro” e, por causa dele, no dia 19 de agosto comemora-se o Dia do Orgulho Lésbico.                

              

Ainda na década de 1980, a epidemia da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids) chegou ao Brasil. De acordo com o professor, a epidemia do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) foi um grande marco na história do movimento LGBTQIAPN+, pois afetou diretamente a comunidade e impulsionou a luta pelos direitos da população. Segundo Simões, o momento afetou especialmente homens gays e travestis. 

 

Nessa época, começaram a surgir grupos paralelos ao movimento LGBTQIAPN+ na luta contra a epidemia de Aids, como o Grupo de Apoio à Prevenção à Aids, conhecido como GAPA, de acordo com Simões. “A Aids mostra que, na verdade, as questões relacionadas à diversidade sexual, elas não estavam restritas apenas às pessoas que se diziam e se apresentavam publicamente como gays ou travestis. Isso era entranhado nas práticas sexuais, sobretudo nas masculinas”.

 

O aumento de casos de Aids no Brasil fez com que pessoas próximas aos portadores da doença também passassem a lidar com ela, o que, para Simões, mudou um pouco o comportamento social existente na época. “Do ponto de vista do movimento muda porque, de fato, começa a existir apoio institucional e governamental, sobretudo de organizações internacionais”.

 

Estudos no Brasil

Os estudos sobre a comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil começaram nos anos 1950, com a publicação do estudo Aspectos Sociológicos do homossexualismo em São Paulo, pelo sociólogo José Fábio Barbosa da Silva. Já em 1977, a atropóloga Carmen Dora Guimarães publicou a dissertação de mestrado O homossexual visto por entendidos, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). E, em 1986, o antropólogo Edward MacRae publicou a tese de doutorado O Militante Homossexual no Brasil da Abertura, uma etnografia dos chamados “movimentos sociais GLS” na década de 1970, no Departamento de Antropologia da FFLCH.

 

De acordo com Simões, quando ingressou no curso de Ciências Sociais da FFLCH, na década de 1970, os assuntos de gênero e identidade não eram discutidos em sala de aula na Universidade e os assuntos pesquisados. “Não havia disciplina sobre isso. Aparecia eventualmente nas discussões do movimento estudantil, mas muito pouco e de forma caricata”. Para o antropólogo, demorou para que os pesquisadores entendessem que, estudar questões relacionadas à diversidade sexual, é também estudar questões sobre a produção de desigualdades, direitos e subjetividades.

 

Imagem: Reprodução/Lattes Júlio Simões
Imagem: Reprodução/Lattes Júlio Simões

O antropólogo destaca que ainda não há produção científica quantitativa em relação à comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil. Simões explica que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) tentou realizar um censo de diversidade sexual, mas apareceram algumas dificuldades: o respeito à sexualidade no entorno da pessoa entrevistada para que ela se sinta confortável em falar e a própria fluidez de sexualidades e gêneros dentro da comunidade LGBTQIAPN+, o que dificulta delimitações. “As pessoas são diversas, então é mais difícil você fazer esse mapeamento de uma identidade que tende a ser fluida — quando você compara, por exemplo, a questões mais objetivas como sexo e raça. E  que não são também objetivas porque você tem uma afinidade de classificações para isso”, destaca Simões. 

 

Ao comparar o período de início de sua pesquisa sobre identidade, Simões afirma que houve um crescimento da relevância do tema para a sociedade e para a Universidade. Hoje, os estudos estão presentes não só no Departamento de Antropologia, mas no de Ciência Política, no Instituto de Psicologia (IP), entre outros. “Eu acho que os estudos deixaram de ser tabu. No início, não era assunto das Ciências Sociais, era um assunto de médico, de psicólogo ou de ciências biológicas. Era visto como um problema orgânico ou um problema psicológico”, afirma.

Na FFLCH

Embora o movimento LGBTQIAPN+ tenha conquistado avanços importantes nas últimas décadas, estudantes da FFLCH dizem que a luta por direitos e reconhecimento ainda continua. Para integrantes do coletivo LGBTQIAPN+ Madame Satã, as demandas da comunidade também envolvem questões como permanência estudantil, acesso à Universidade e o combate às desigualdades. 

 

Imagem: Rhian Santos/Acervo pessoal

Imagem: Rhian Santos/Acervo pessoal

“Entendemos que a comunidade LGBT não está dissociada da realidade. Nós somos pessoas LGBT, mas também somos pessoas negras, periféricas, estudantes, trabalhadores. Então, essas pautas precisam estar interligadas”, afirma Rhian Silva, estudante do curso de História na FFLCH. 

 

Segundo os integrantes do coletivo, a Universidade ainda enfrenta desafios relacionados à inclusão e ao acolhimento da diversidade sexual e de gênero. Apesar de a USP ser reconhecida como um espaço de reflexão crítica, os entrevistados avaliam que ainda existem barreiras como a permanência estudantil e a implementação de políticas de cotas, que afetam a vivência de estudantes LGBTQIAPN+. 
                                                                          

Imagem: Yuri Krividozoff / Acervo pessoal

Imagem: Yuri Krividozoff / Acervo pessoal

Para Yuri Krividozoff, aluna do curso de História da FFLCH, o Mês do Orgulho continua sendo um momento fundamental para dar visibilidade às pautas da comunidade LGBTQIAPN+. “Todo mês é importante, mas, de maneira indiscutível, muitas organizações dependem deste período para conseguir captar recursos e fazer um chamamento para a pauta”, afirma.

Lutas atuais

Mais de cinco décadas após a Revolta de Stonewall, os desafios enfrentados pela comunidade continuam presentes. Para o professor Julio Simões, algumas questões que motivaram a organização do movimento nos anos 1970 permanecem atuais, ainda que em novos contextos. “Alguns desafios ainda persistem. A violência cotidiana é o primeiro problema. Ela atinge toda a população LGBT, mas de forma ainda mais intensa às pessoas trans, especialmente as pessoas trans negras e periféricas”, afirma.

 

O Coletivo Madame Satã foi criado em 2015 e conta com 36 integrantes, segundo Rhian Santos / Imagem: Coletivo Madame Satã

O Coletivo Madame Satã foi criado em 2015 e conta com 36 integrantes, segundo Rhian Santos / Imagem: Coletivo Madame Satã

Morgan Caetano, pesquisador nas áreas de gênero, sexualidade, teoria queer e estudos trans, explica que a comunidade trans apresenta uma necessidade de mais representatividade no meio acadêmico. “É uma demanda desses corpos que estão nesses espaços e não se veem em bibliografia, no corpo docente e discente. Apesar de hoje ter aumentado [a representatividade] em comparação ao que era, ainda existe uma sensação de solidão”, afirma Caetano.

 

O pesquisador explica que é necessário lutar por respeito e reconhecimento de pessoas trans dentro da comunidade LGBTQIAPN+. Caetano afirma que a comunidade trans, muitas vezes, está na linha de frente na luta contra a opressão à comunidade LGBTQIAPN+ e, mesmo assim, acaba sendo deslegitimada dentro do movimento. Ele explica que, após 2015, existiu uma iniciativa de criar uma marcha transmasculina no mesmo dia em que a Parada acontecia, justamente por essa falta de reconhecimento do movimento trans dentro da comunidade LGBTQIAPN+.


Com informações de Hoje na história - Revolta de Stonewall e o vídeo produzido pelo Serviço de Comunicação Social: