Crime organizado usa violência para determinar cotidiano de cidades no interior

Estudo realizado na cidade de Timon, no Maranhão, demonstrou que o uso da violência pelas facções criminosas funciona como mecanismo de comunicação, afirmação de poder e produção de pertencimento
Por
Ana Julia Oliveira
Data de Publicação
Ao fundo, cidade de Timon. Mais à frente, Teresina, no Maranhão
Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons

Uma tese de doutorado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP demonstrou que a atuação do crime organizado em Timon, no Maranhão, transformou as dinâmicas de poder, sociabilidade e controle territorial, e resultou em formas específicas de ordenamento social na cidade. Segundo Carlos Daniel da Silva Santos, autor da pesquisa, práticas violentas, como execuções, circulação de imagens e exposição de corpos, atuam como mecanismos de comunicação, poder e pertencimento, em uma dinâmica marcada por rituais e símbolos.

Nascido e criado em Timon, Daniel conta que durante sua juventude, nunca tinha ouvido falar de crime organizado na cidade. Nos últimos anos, porém, ele afirma que se tornou quase impossível sair de casa sem se deparar com pichações e mensagens dos grupos nas ruas, e que a falta de estudos na região chamou sua atenção.

Para realizar a pesquisa, Daniel utilizou o método da etnografia de fragmentos, uma técnica comum na área da antropologia, em que o trabalho é construído a partir de recortes de cenas cotidianas, observações de campo, relatos e anotações. Ao longo de quase dois anos, o pesquisador andou pelas ruas de Timon para entender como os grupos se organizavam nos bairros; entrevistou moradores; e analisou estatísticas de crime e aprisionamento de pessoas e apreensão de drogas na cidade. 

A partir dos relatos e do cruzamento dos dados obtidos, a pesquisa mostra que houve um processo de normalização do crime organizado na cidade, que transformou o comportamento e as relações entre os moradores. Ao entrevistar uma proprietária de um mercado, por exemplo, Daniel conta que as facções controlam a distribuição dos produtos, além do consumo nos estabelecimentos. “Se não tiver algo no supermercado do meu bairro, não posso atravessar para o bairro vizinho porque é pertencente à outra facção”, foi um dos relatos ouvidos pelo pesquisador. Ele constatou que a presença do crime também modificou horários de saída.

Para Daniel, esse processo se deu a partir de uma “renovação das formas de fazer criminalidade na cidade”, isto é, quando o autor do crime deixa de ser um criminoso comum e passa a ser um criminoso profissional. A partir daí, ele passa a pertencer e trabalhar dentro de uma lógica empresarial, com uma organização em grupo, funções específicas e ordens a serem cumpridas. 

A pesquisa também revelou que a organização dos grupos permite que as facções atuem dentro das estruturas do Estado, como nas Câmaras e secretariado da prefeitura. “Eles percebem que entrar em confronto com o Estado é muito difícil, então é melhor se adequar. Então, eles não estão, de fato, lutando contra uma estrutura que não funciona, mas tentando se adequar, e quando se adequam, eles criam formas de modificar por dentro”, afirma Daniel. 


Por que o crime organizado se sustenta na cidade?

Daniel explica que o crescimento da atuação do crime organizado em Timon teve como estopim a crise no Complexo Penitenciário de Pedrinhas, no Maranhão, entre 2013 e 2014. Considerado um dos casos mais graves da história do sistema prisional brasileiro, a crise foi marcada pela superlotação das celas, controle de facções e massacres, que resultaram em denúncias contra o Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos. Imagens de decapitações, torturas e esquartejamentos viraram notícia internacional e levantaram debates sobre direitos humanos e a perda de controle do Estado. 

O pesquisador conta que estudou dois grupos específicos: o Bonde dos 40 Ladrões (B40), que surgiu em São Luís, mas já possui ramificações no estado inteiro, e o Primeiro Comando da Capital (PCC), que atua em confronto com o B40 desde 2020 na cidade. 

Entre 2013 e 2014, o Complexo Penitenciário de Pedrinhas registrou mais de 60 mortes  Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons
Entre 2013 e 2014, o Complexo Penitenciário de Pedrinhas registrou mais de 60 mortes 
Imagem: Reprodução/ Wikimedia Commons

A tese, que faz parte do Programa de Pós-Graduação em Sociologia, teve como base a noção de “efervescência coletiva” de Émile Durkheim para desenvolver o conceito de “efervescência criminal”. Segundo Daniel, o sociólogo entende a efervescência como “momentos onde há uma grande comoção social, principalmente nos fenômenos religiosos, que faz com que os indivíduos fiquem mais unidos”. 

O conceito faz parte de um processo, mas se inicia com um episódio isolado. Para Carlos, esse episódio se deu com a crise do presídio de Pedrinhas, que ampliou a área de atuação do B40, antes restrita à penitenciária. O caso resultou na reestruturação do sistema prisional do Maranhão, com unidades prisionais em quase todas as cidades do estado. Segundo o pesquisador, “é um processo que faz com que os coletivos criminais criem estruturas capazes de se ramificar, e a partir dessa junção de criminosos, eles começam a criar outras estruturas de funcionamento”. 

Daniel também explica que um dos elementos essenciais da efervescência é o ritual, segundo Durkheim. No universo criminal, esse ritual pode ser observado, principalmente, no uso da violência como linguagem e forma de estruturação das relações. “Quando um membro de uma facção executa um membro de outra, não é a morte pela morte, é uma morte com significado”, ele explica. 

Em um dos casos estudados pelo pesquisador, o corpo de jovem julgado pelo chamado Tribunal do Crime foi deixado na frente da casa da sua mãe, com o nome da facção escrito à faca no seu peito. Segundo Daniel, as ações funcionam como um mecanismo de controle e normas, isto é, “quem mora na cidade já sabe como funciona”. 

Em sua pesquisa, ele também define a “violência como dimensão performativa que estrutura pertencimentos e hierarquias”. Segundo Daniel, o uso da violência, principalmente entre homens, é um discurso de autoridade: “É algo como ‘eu utilizo a violência dessa forma porque eu tenho uma força necessária para utilizá-la’”, afirma ele. Por esse motivo, assassinatos são exibidos e não ocultados — um recado para a comunidade e uma estratégia de manutenção das estruturas sociais. 

“A ideia de legitimação do crime e de um discurso da violência para além da violência, como parte de um processo ritual de uma forma de linguagem.”
Carlos Daniel da Silva Santos

Os estudos na área já apontam para questões estruturais que sustentam a atuação e o fortalecimento do crime organizado no Brasil. A expansão do sistema prisional, a interiorização das facções e a persistência das desigualdades sociais são fatores apontados na pesquisa de Daniel. Segundo o autor, a partir dos resultados, é possível “pensar em políticas de reversão, novas políticas públicas para a cidade pensar o enfrentamento à desigualdade social e novas formas de ressocialização do sistema prisional”. 

A pesquisa sobre o crime organizado em cidades pequenas e médias, como Timon, ainda é pioneira. Para Daniel, a ideia é entender como os grupos se organizam longe dos grandes centros urbanos, além de incentivar o interesse de novos pesquisadores em fenômenos criminais. Ele conta que ainda há muito para explorar, como o papel das mulheres dentro das organizações e o recrutamento de novos membros.

 


A tese de doutorado ‘Efervescência criminal e organização da violência: um estudo sobre a atuação do crime organizado em Timon (MA)’ de Carlos Daniel da Silva Santos, e orientada por Sergio Adorno, do Departamento de Sociologia da FFLCH, foi defendida em maio de 2026 no Programa de Pós-Graduação em Sociologia.