Podemos dizer que foi num boteco que tudo começou. Franco Galvão, músico, pesquisador e personagem decisivo aqui, estava lá, no local onde ele afirma que se resolvem as principais questões deste País. Seu amigo, o jornalista Itamar Dantas, contou:
– Estou fazendo uma pesquisa e me deparei com um disco com três choros do Vadico.
O disco era Voyage au Brésil, com músicas da companhia de dança da bailarina e professora universitária Katherine Dunham (1909-2006), lançado em 1953. Aí, Franco Galvão perguntou:
– Que Vadico? O Vadico do Noel Rosa?
Essa pergunta, “que Vadico?”, foi o pontapé inicial. O projeto do qual tratamos nesta matéria é, em grande medida, um conjunto de respostas para essa interrogação. Porque o Vadico (Oswaldo Gogliano, 1910-1962) parceiro do Noel Rosa é razoavelmente bem conhecido. Canções como Feitiço da Vila, Conversa de Botequim e Feitio de Oração falam por si. Mas um outro Vadico foi se revelando.
O disco Voyage au Brésil motivou o envio de e-mail ao Katherine Dunham Museum. De lá, indicaram o contato da filha da bailarina. Para surpresa de Galvão, no instante em que ele abria a mensagem para pegar o contato de Marie-Christine Dunham Pratt, ela mesma ligou. “Ela falou um inglês meio francês, eu falei um ‘inglo-portunhol’ e nos entendemos”, brinca o pesquisador. “E ela indicou que os documentos da mãe estavam num arquivo dedicado a Katherine Dunham na Universidade do Sul de Illinois”, completa.
Ao contatar a universidade, Galvão recebeu uma mensagem com PDF de cerca de 900 páginas, com tudo o que eles tinham catalogado da bailarina e antiga professora da instituição. Daí, passou a cruzar palavras do catálogo com termos presentes no texto que Vinicius de Moraes escreveu para o encarte do disco Dançando com Vadico, de 1956. Nesse encarte, o poeta menciona peças de Vadico que circularam em apresentações específicas na década de 1950, em outros países, provavelmente já desconhecidas no Brasil de então. Ou seja, o arquivo da Universidade do Sul de Illinois contava com materiais praticamente inéditos.
– “O que é ‘inédito’?”, questiona Franco Galvão quando conversamos para esta matéria.
O fato de que as músicas tenham sido apresentadas em algum momento faz com que sejam não uma descoberta, mas uma redescoberta ou recuperação. Certo? Isso é o que defende Franco Galvão. Em sentido semelhante, comenta esse percurso de investigação a violonista e pesquisadora do Laboratório de História da Cultura Sonora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP Flávia Prando, também coordenadora da equipe de Programação do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo. Ela destaca a dimensão transnacional desse trabalho, que envolveu arquivos no Brasil e nos Estados Unidos e, ao referir-se aos documentos encontrados, sublinha que eles “representam um dos mais expressivos conjuntos documentais recentemente incorporados ao estudo da música popular brasileira. Mais do que ampliar o catálogo conhecido de um compositor, trata-se da recuperação de um acervo capaz de suscitar novas perguntas sobre repertórios, circulação internacional, práticas de composição e trabalho musical ao longo do século 20”.
Juntando os pedaços
Os documentos de Vadico estavam todos com o nome dele, cada música com suas devidas partituras, tudo compondo um quadro perfeito e acabado, certo? Longe disso.
Franco Galvão teve que reconstruir parte por parte. Havia partituras sem o nome de Vadico, que costumava assinar “Vadico Gogliano” – seu nome era Oswaldo Gogliano. Foi preciso comparar peças que se sabia serem de Vadico com as não assinadas, a fim de se certificar de sua autoria, por exemplo. Para saber se um dos arranjos encontrados era indicado para Big Band, Galvão se baseou na cor do papel. O tipo de papel e sua cor amarelada se encaixavam nas partituras de mesmo padrão e, assim, os papéis de destino incerto encontraram sua posição no meio do arranjo para Big Band.
Havia grades – partitura que o regente usa com todos os instrumentos – faltando um dos instrumentos. E então o pesquisador precisava encaixar partituras soltas naquele conjunto. Por exemplo, na grade havia flauta, oboé, clarinete, mas faltavam as páginas do trombone. Galvão pegava o trombone em outra parte do arquivo e completava o material. “Imagina uma ossada de dinossauro e você ali, pegando osso por osso: esse é daqui, esse é aqui, outro pedaço encaixa ali”, compara o pesquisador.
Mais do que quebra-cabeça
Deu para notar que o trabalho não envolveu apenas descobrir os materiais – como se isso já não fosse muito. Era preciso também digitalizar, organizar, catalogar, editar. E mais. Para dar vida aos documentos, essas músicas teriam que voltar a circular. Por isso, junto às partituras, Galvão também recuperou fonogramas como referências para dar corpo a um projeto amplo e que tivesse, lá na ponta, as músicas tocadas novamente e gravadas.
Constatando esse esforço, a pesquisadora Flávia Prando explica que “entre localizar um manuscrito e torná-lo novamente executável existe um longo percurso de identificação, catalogação, edição, interpretação e reconstrução musical, um trabalho tão decisivo quanto o próprio achado, uma vez que o documento não fala sozinho”.
Aí, entra o Sesc no projeto. Entre as gravações do material antes desconhecido e a releitura de músicas famosas, são 37 faixas que compõem um box lançado dia 31 de julho passado, tanto nas plataformas digitais quanto em versão física. O box é acompanhado por um livreto bilíngue (português e inglês), com 136 páginas, textos assinados por Nei Lopes e Franco Galvão, além de fotografias históricas. No projeto musical, Galvão reuniu peças que dessem conta de três dimensões principais da carreira de Vadico: como diretor musical, como pianista e como cancioneiro.
No encarte do material, o pesquisador explica a divisão: “O primeiro grupo são as peças instrumentais de grandes formações, popular e de concerto, em que Vadico atuou na posição de diretor e que demonstram sua maturidade musical. O segundo são as obras instrumentais para pequenas formações, como regional de choro e trio de jazz, que apresentam o músico na sua faceta pianista ‘do baile’. E o terceiro são as canções, que evidenciam sua habilidade de melodista e letrista, e que narram tanto um Vadico carnavalesco, autor de marchinhas e maxixes, quanto um compositor cheio de bossa nova, recém-retornado dos Estados Unidos”. Vadico morou por 15 anos nos Estados Unidos, de 1940 a 1955, tendo trabalhado com Carmen Miranda, na Universal Pictures e para os Estúdios Disney.
Quanto aos intérpretes, o projeto procurou dar conta da diversidade em vários eixos: idade, gênero, cor de pele, região de procedência, posição na carreira e estilo.
Música como teia de relações
Investigar trajetória e obra de Vadico traz à tona suas várias dimensões. Para quem é lembrado, usualmente, apenas por suas parcerias com Noel Rosa, aqui, suas outras atuações revelam uma carreira muito mais ampla.
“A tentação é apresentar Vadico como mais um ‘gênio esquecido’, finalmente reabilitado pela pesquisa histórica. Essa narrativa é sedutora, mas simplifica um problema muito mais profundo. Vadico nunca foi exatamente desconhecido. Seu nome permaneceu associado a clássicos como Feitio de Oração, Feitiço da Vila e Conversa de Botequim, compostos em parceria com Noel Rosa. O que permaneceu relativamente invisível foi a dimensão de sua atuação profissional. Ao longo de mais de três décadas, Vadico trabalhou como pianista, arranjador, diretor musical, regente, compositor, músico de estúdio e colaborador de rádios, gravadoras, companhias de dança, cinema e televisão”, reflete Flávia Prando.
E mais, ao recuperar outros aspectos de Vadico, esses fios puxam mais do que um percurso individual. Eles trazem um tempo, um contexto e outros atores à cena. “Ao seguir os rastros de Vadico, a investigação acaba revelando um universo muito mais amplo do que a trajetória de um único compositor. Surgem redes que conectam teatro de revista, rádio, indústria fonográfica, Hollywood, Carmen Miranda, Katherine Dunham, Vinicius de Moraes, Baden Powell, Cartola, direitos autorais, arquivos, colecionadores e instituições culturais, um mapa dos circuitos profissionais que estruturaram a música popular brasileira entre as décadas de 1930 e 1960”, afirma Prando.
O reconhecimento de que reconstituir a obra de Vadico significaria reinterpretar parte da história da música brasileira fez com que o projeto priorizasse o perfil coletivo. Não poderia ser imputado a uma única pessoa. Por isso, entre músicos, equipe técnica e promotores do projeto em vários níveis, está uma rede de pessoas que, na perspectiva de Franco Galvão, incorporam Vadico em sua formação musical, até mesmo sem saber. E agora, com o projeto, o fazem de maneira consciente. “Quando digo que esse projeto é coletivo, não o faço apenas por nele haver a atuação de muitas pessoas. Contar a contra-história é uma tarefa que afirma a coletividade. Foi curioso notar como em certos casos o convite para integrar o projeto foi tratado com desinteresse. Quando o foco está em promover a própria carreira, o entusiasmo somente ocorre quando se é vinculado ao sucesso. Este projeto fez o oposto, atuou em favor do desconhecido. Quem topou participar, foi por acreditar num fazer musical enquanto significado maior”, escreve Galvão no encarte.
Por isso, o recado que Galvão deu aos músicos antes de começarem as gravações foi: “Vamos tocar como se fosse a gravação mais importante da nossa vida, porque certamente é a mais importante da vida do Vadico”.
Por isso, o recado que Galvão deu aos músicos antes de começarem as gravações foi: “Vamos tocar como se fosse a gravação mais importante da nossa vida, porque certamente é a mais importante da vida do Vadico”.
Clique aqui para acessar o site do projeto. Para ouvir os músicas do projeto:
Texto de Gustavo Xavier publicado no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/cultura/projeto-recupera-vadico-muito-alem-de-noel-rosa/