Conhecido por tratar o material linguístico como objeto próprio e de comunicar também pela disposição gráfica, o Concretismo na literatura tem em Haroldo de Campos (1929-2003) um de seus maiores expoentes. Campos foi coautor, com Décio Pignatari e Augusto de Campos, do emblemático texto Plano-Piloto para Poesia Concreta, de 1958, que se tornou fonte de referência para o desenvolvimento do movimento concretista. Suas contribuições para a cultura serão abordadas no 1º Seminário Haroldo de Campos na USP, que ocorrerá entre os dias 25 e 28 deste mês, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A entrada é grátis.
“Os concretistas deram uma visão mais internacional para a literatura brasileira, indo além da poesia mais centrada no regionalismo de então”, afirma o professor do Departamento de Linguística da FFLCH Antônio Vicente Seraphim Pietroforte, que organiza o seminário em parceria com o poeta e escritor Claudio Daniel, doutor em Literatura Portuguesa pela USP. Assim como foi com o homenageado, ambos os organizadores circulam por diversas atividades do mundo acadêmico e literário. E enfatizam essa conexão entre as várias dimensões da obra de Haroldo de Campos, que foi poeta, tradutor, crítico literário, ensaísta, professor e pensador da cultura. Nome reconhecido internacionalmente, um dos criadores do Concretismo na década de 1950, ele participou de importantes guinadas no fazer literário e na maneira de analisar as produções desse campo.
Haroldo de Campos foi autor de livros de poesia como Galáxias – “uma obra autoral incomparável e de radical modernidade”, como destaca Claudio Daniel –, Xadrez de Estrelas e Crisântempo: No Espaço Curvo Nasce Um. Além de autor, sua influência poética se faz sentir em escritores contemporâneos como Frederico Barbosa, Horácio Costa e Nelson Ascher, entre outros.
Experimentações poéticas
Outra dimensão de Haroldo de Campos, profundamente ligada à sua visão de poesia, é a atividade de tradução, que será objeto de discussão nas duas primeiras mesas-redondas do seminário, no dia 25, a partir das 14 horas. “A tradução literária, muitas vezes, está preocupada em verter para o português o ‘conteúdo’ de um poema, romance ou peça de teatro, ignorando ou deixando em segundo plano os aspectos estéticos e estruturais dos textos originais”, pondera Daniel. “Haroldo e seu irmão Augusto de Campos passaram a traduzir textos densos e inventivos, como os de Maiakovski e James Joyce, mas também da tradição literária – Dante, os trovadores, Goethe, Mallarmé, Lord Byron, entre outros –, enfatizando a elaboração formal, as aliterações, assonâncias, paronomásias, neologismos e outros recursos formais dos textos originais, o que Haroldo de Campos chamava de ‘transcriação’ e Augusto de Campos, de ‘recriação’.”
O impacto dessa maneira diferente de pensar a tradução é tamanha que, para o professor Antônio Pietroforte, “ela abriu um caminho” para a tradução em língua portuguesa. “Nós podemos dividir a tradução feita antes dos irmãos Campos e depois. Eles trouxeram a ideia de que o tradutor interfere na tradução e essa interferência é benéfica”, acrescenta o professor.
No dia 26, a partir das 16h20, duas mesas-redondas abordarão o tema Da Crítica Poética à Poesia Crítica. Nesse caso, as atividades de crítico e poeta se interpenetram. Pietroforte conta como os concretistas trouxeram outro olhar sobre a literatura brasileira. Em vez de procurarem uma literatura genuinamente brasileira, eles entenderam as mútuas influências entre culturas. Além disso, buscaram superar uma divisão básica entre uma poesia lírica e uma social, não apenas percorrendo outros temas como colocando a própria linguagem no centro do fazer poético. “E, falando da própria linguagem, ela acaba falando de política, de religião, de poesia sentimental. Nós encontramos tudo isso neles, mas com uma qualidade que vai além de uma coisa chorosa, lamuriosa, que geralmente é o que identificamos com uma noção ingênua do que é poesia”, detalha o professor. Com essa concepção, Haroldo e os demais concretistas faziam da poesia tanto objeto como recurso da crítica.
Já no dia 27, a partir das 14 horas, duas mesas-redondas terão como tema Poesia, Despoesia, Antipoesia, que traz, em sua própria formulação, uma carga provocativa muito afinada com o espírito de Haroldo. “‘Despoesia’ e ‘Antipoesia’ são termos usados por Augusto de Campos para se referir aos trabalhos poéticos que fogem ao lugar-comum, apontando para outras direções, outras possibilidades de experimentação poética”, explica Claudio Daniel. Pietroforte atenta para quanto esses termos provocativos ajudam a discutir o alcance dos poemas, indo além da poesia social ou sentimental.
A última atividade do seminário, no dia 28, a partir das 14h30, será o Recital Multivozes, com vários participantes.
Poeta se formou em Direito pela USP
Haroldo de Campos também teve intensa atividade universitária. Formado pela Faculdade de Direito da USP em 1952, ele lecionou na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) entre 1973 e 1989, com passagem pela Universidade de Yale, nos Estados Unidos, em 1978.
O seminário em sua homenagem nasceu da preocupação com o aparente sumiço dos mais de 20 mil livros que pertenceram a Haroldo de Campos e que estavam guardados até o ano passado na Casa das Rosas – Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, administrada pelo governo do Estado de São Paulo. Os livros não haviam “sumido” – como se pensou –, mas sim transferidos, em janeiro de 2025, para uma reserva técnica em Barueri, na Grande São Paulo. Ao levarem esse “susto”, um grupo de poetas e admiradores do artista resolveu lançar uma antologia de poemas dedicados a Haroldo. A iniciativa se encadeou na ideia do seminário, como parte da preocupação em valorizar a obra do poeta.
“No Brasil, sempre houve resistência ao seu trabalho, sobretudo no meio universitário, uma vez que o método crítico e a concepção de literatura de Haroldo de Campos iam muito além do reducionismo sociológico, privilegiando aspectos estéticos e estruturais do texto poético”, destaca Claudio Daniel. “Na própria Universidade de São Paulo, por exemplo, nunca houve uma homenagem a Haroldo de Campos como este seminário.”
O 1º Seminário Haroldo de Campos na USP será realizado entre os dias 25 e 28 deste mês, na sala 266 do Prédio de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP (Avenida Professor Luciano Gualberto, 403, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis. Não é preciso fazer inscrição.
Texto de Gustavo Xavier publicado no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/cultura/seminario-vai-trazer-provocacoes-a-partir-de-haroldo-de-campos/