Jean Cocteau e Raymond Radiguet: O que falam para o Século XXI? - Dados e Programa (em anexo ou a seguir)
Oradores: João Amadeu (FFLCH, Teatro Buraco) e Victor Tayon (FFLCH, Teatro Buraco)
Data: 24/09/26 - quinta-feira
Horário: 17h-18h30
Sala: 212. no prédio da Letras-FFLCH/USP
Integração: Semana Franco-Uspiana 2026
Programa
Jean Cocteau e Raymond Radiguet estenderam a experiência do romance e do amor para além das fronteiras entre o literário e o biográfico, a arte e a vida, tornando a criação entre eles um verdadeiro mutualismo humano. É difícil, ou quase impossível, falar sobre a vida ou sobre a obra de cada um dos dois, sem mencionar o outro. Ambos se marcaram profundamente em termos de desenvolvimento estético e de inserção ao meio cultural. Enquanto Jean se posicionou enquanto figura iniciática na vida de Radiguet - na literatura, no amor, no meio artístico - introduzindo o jovem poeta a cada um destes séquitos, o rapaz francês por sua vez se fez ser nerval na influência estética à já estebelcida carreira de Cocteau - fortalecendo a importante consideração e basilação dos conteúdos e modelos clássicos ao contexto vanguardista.
Nosso trabalho se desenvolve a partir de duas Conferências complementares acerca da vida e obra de ambos poetas. A primeira, na investigação sobre as confluências entre Radiguet e Cocteau; a segunda é uma recriação tetral do curta-metragem "Jean Cocteau s'adresse... à l'an 2000", de 1962. A seguir, apresentamos cada uma delas.
Conferência 01 - Fragmentos do Diabo No Corpo: uma deglutição estética de Raymond Radiguet no Século XXI: O diabo no corpo ou o corpo do diabo? Entre a palavra e o corpo de Radiguet, onde estão as aparições de Cocteau? A presente conferência nasce das duas simples interrogações: quais são os vestígios do corpo de Jean Cocteau na obra literária de Raymond Radiguet? E quais são os vestígios do corpo de Raymond Radiguet na obra pictórica de Jean Cocteau? Assinalamos que há uma certa intensidade e velocidade de interação física e diálogo poético e filosófico entre ambos que se constrói sem permitir isenção de influência no material artístico de cada um dos dois. Ou seja: Cocteau brota inevitável no corpo da prosa de Radiguet; assim como Raymond aparece como espectro nas criações de Jean. Mas: de que maneira essas confluências podem ter a sua percepção potencializadas a partir de novas imagens? Por mais que seja impossível acessar a experiência dos autores, é possível confabular que a experiência iniciática de Raymond com Cocteau o fez sentir-se com o "diabo no corpo", desta maneira o corpo é o corpo do próprio autor profundamente marcado por esse encontro. Nesse sentido, nossa investigação se norteia a partir do seguinte paradoxo: quais as implicações artísticas da encruzilhada pela qual Cocteau afeta Radiguet principalmente em vida e Raymond afeta Jean principalmente em morte. Tudo isso apresentando uma comparação entre a prosa do livro "Com o Diabo no Corpo" (Raymond Radiguet, 1923) e desenhos do livro "Ópio: Diário de uma desintoxicação" (Jean Cocteau, 1930), entre outros esboços do teatrólogo.
Raymond Radiguet em "Com o diabo no corpo"':
"É preciso admitir que, se o coração tem razões que a razão desconhece, é porque a razão é menos razoável que o nosso coração. Sem dúvida somos todos Narcisos, amando e detestando a própria imagem, e a quem qualquer outra é indiferente. É esse instinto de semelhança que nos conduz na vida, exclamando “alto!” diante de uma paisagem, uma mulher, um poema. Podemos admirar outras paisagens e mulheres e outros poemas, sem sentir o mesmo abalo. O instinto de semelhança é a única linha de conduta não artificial. Mas na sociedade só os espíritos grosseiros parecerão não pecar contra a moral, ao perseguir sempre o mesmo tipo. Assim, certos homens desejam obstinadamente as louras, ignorando que com frequência as semelhanças mais profundas são as mais secretas." (Radiguet, Trad. Paulo César de Souza, 2013)
Conferência 2 - Jean Cocteau Fala Para O Século XXI No Século XXI: Em 1962, o poeta e multiartista Jean Cocteau lança uma comunicação, em túnel do tempo, viajando pelo espaço, atravessando os tempos programando-a para o século seguinte. O mundo está perdido. O humano se entrega para a guerra, se entrega para a tecnologia do caos e cai no próprio abismo que inventou, sem saber que está caindo, acreditando que está no paraíso, no céu, acreditando que está vivendo a maior pureza e alegria da existência humana, imerso em todas as ilusões do conforto e da conveniência dos materiais tecnológicos. Iludida por moralidades carcomidas e pela noção enferrujada de progresso, os propósitos e valores libertários e prósperos da humanidade se esvaziam sem que ela mesma se perceba. Jean Cocteau se depara de frente com a queda completa de um mundo e uma realidade que conheceu e ajudou a construiu naquela Paris do início do Século XX. E ele oferece ao mundo o seu pranto, a sua lágrima e a sua desolação visceral. Na vontade de invocar para o próximo século um renascimento, invocando o eterno retorno do teatro, da vontade de viver, da defesa dos direitos da humanidade, da paz mundial, da criação de circuitos artísticos e poéticos e de tantos outros valores e experiências que completam a vida com saúde e amor. Porque o desejo do poeta nunca é o fim. É, sim, a permanência e a volição. E assim como espectro o poeta aparece e quer dançar. Jean Cocteau quer dançar. Mas ele não dança, porque seu compromisso é com a palavra lançada para o futuro. Cirurgião. Para um futuro que mal pode prever ou confabular, mas que pode esperar a escuta e o respeito a um homem de teatro que algum dia falou para o seu arruinado mundo. É a palavra contra a palavra que botou o planeta no caos, a palavra contra a palavra "apocalipse". É uma mensagem contra o apocalipse e os seus apóstolos. Aqui seremos. Aqui viveremos. Aqui desejaremos. Aqui jaz: Miss Brasil 2000.
Jean Cocteau, em "Jean Cocteau s'adresse... à l'an 2000":
"Eu não sei se esta casa ainda existe. Eu deveria ter ficado com a Sra. Weisweiller durante 8 dias, mas fiquei 12 anos. Decorei todas as paredes. É possível que a casa já tenha se ido. E que até os meios de transmissão se tenham ido, e que minha imagem não possa ser projetada. Em todo caso, espero estar diante de vocês como um fantasma, embora eu não acredite na morte. Eu acredito que a morte seja apenas uma das formas da vida, e considero que Santo Agostinho não estava errado quando disse que um homem que acreditava em antípodas era um completo idiota. Ele foi um grande santo, então não poderia estar completamente errado. Está bastante claro que estamos vivendo de acordo com as normas convencionais do calendário, ou do relógio, e estamos errados. E talvez vocês também ainda estejam errados. O que chamamos de progresso pode de fato ser o desenvolvimento de um erro." (Cocteau, Trad. Nossa, 2026).
A conferência dupla "Jean Cocteau e Raymond Radiguet: O que falam para o Século XXI?" faz parte de uma das atividades de lançamento da Companhia de Teatro Buraco, fundada por Victor Tayon e João Paulo Amadeu Martins em 2026. Acompanhem o grupo teatral pelas redes nomeadas TV Buraco.
São Paulo, Confabulosa Lálálá, 2026.