Produção de vacina sem desmatamento

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Estadão
Resumo

“Tragédia do desenvolvimento”, chamou Marshall Berman, em Tudo o que é sólido desmancha no ar, a uma sequência de cenas no final do Fausto II de Goethe. Nelas, o colonizador Fausto e seu capataz Mefistófeles eliminam pela raiz o pequeno mundo de Filemon e Baucis, com suas duas tílias ancestrais, cujo destino o dramaturgo octogenário erige em símbolo das destruições que intuía nos desdobramentos da Revolução Industrial. Essas cenas podem ser atualizadas, em escala reduzida, à luz do desmatamento que vem se processando dentro do Instituto Butantan desde 2021. Traços fundamentais do enredo dramático delineiam-se no aniquilamento de uma reserva de Mata Atlântica (“patrimônio histórico do Estado de São Paulo”), que até poucos anos atrás o próprio instituto apresentava como “santuário verde”. Também os anciãos Filemon e Baucis veem suas tílias e horto como patrimonium, e não como dominium, que pela norma de propriedade da lei romana pode ser usado e abusado como bem se entender (jus utendi et abutendi). Caindo nas mãos de Fausto, esse patrimônio é arrasado, mas não sem que o colonizador prometa “compensação”, no sofisma em voga no Brasil de hoje.

Nome do(a) professor(a) e/ou pesquisador(a)
Marcus Mazzari
Departamento do(a) professor(a) e/ou pesquisador(a)
Teoria Literária