Aula Magna da FFLCH aborda mudanças rápidas e novos desafios das metrópoles

Ana Fani Alessandri Carlos, Professora Ttitular do Departamento de Geografia, ministrou a aula “A cidade amnésica e a relação espaço-tempo na contemporaneidade”, que marcou o início das atividades acadêmicas de 2026
Por
Juliana Morais
Data de Publicação
Editoria
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Imagem: Maria Fernanda Friano / Serviço de Comunicação Social 

A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP recebeu no dia 5 de março, a professora Ana Fani Alessandri Carlos para uma conferência que marcou o início das atividades acadêmicas de 2026. Intitulada “A cidade amnésica e a relação espaço-tempo na contemporaneidade”, a aula reuniu estudantes, docentes e pesquisadores para discutir as transformações da vida urbana e os desafios de compreender a cidade no mundo atual.
Participaram da abertura do evento o diretor da FFLCH, professor Adrián Fanjul, e o professor César Ricardo Simoni Santos, do Departamento de Geografia, responsável pela apresentação.
Em sua fala inicial o professor Adrián Fanjul destacou o papel de Ana Fani na vida acadêmica e nas discussões sobre a Universidade. Segundo ele, a professora se caracteriza pelo engajamento em debates institucionais que envolvem a organização da Universidade, os currículos dos cursos e o funcionamento da pós-graduação. 
Para o diretor, sua atuação reflete uma preocupação constante com o papel da universidade na sociedade. Ele ressaltou que a professora participa frequentemente de espaços de discussão sobre políticas acadêmicas e sobre os rumos da formação universitária, defendendo uma instituição comprometida com a construção de uma sociedade mais democrática e menos desigual. 
Na sequência, o professor César Ricardo Simoni apresentou a trajetória intelectual da geógrafa. Ele observou que a presença de Ana Fani na Aula Magna também dialoga com a tradição do Departamento de Geografia da FFLCH, que teve papel relevante no movimento de renovação crítica do pensamento geográfico nas décadas de 1970 e 1980.
Esse processo marcou uma mudança importante na área, com pesquisadores passando a análise crítica das relações entre espaço, sociedade e economia. Segundo Simoni Santos, Ana Fani participou ativamente desse movimento e contribuiu para consolidar uma perspectiva crítica na geografia brasileira. 
 

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Imagem: Maria Fernanda Friano / Serviço de Comunicação Social

O professor também destacou que a trajetória da pesquisadora se confunde em diversos momentos com a própria história da geografia no país e com a consolidação do Departamento de Geografia na Universidade. Ao longo de sua carreira, Ana Fani tem desenvolvido pesquisas voltadas à compreensão da dimensão espacial da vida social e das transformações do mundo contemporâneo.
Outro aspecto mencionado foi a postura crítica da professora em relação ao chamado produtivismo acadêmico, modelo que mede o desempenho universitário principalmente por indicadores quantitativos de produção científica.

Cidade amnésica

Ao iniciar sua conferência, Ana Fani explicou a origem da reflexão que deu título à aula. Segundo ela, a ideia da “cidade amnésica” surgiu em um debate realizado anos atrás em um simpósio de geografia urbana, quando mencionou a possibilidade de que a sociedade contemporânea estivesse vivendo uma nova relação entre espaço e tempo. 
 

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Imagem: Maria Fernanda Friano / Serviço de Comunicação Social

Na ocasião, afirmou que o tempo torna-se cada vez mais efêmero, enquanto o espaço concentrava as marcas da memória social. A ideia permaneceu como provocação teórica até que, posteriormente, foi incentivada a desenvolvê-la de forma mais sistemática. 
Ao ser convidada para a conferência na FFLCH, decidiu retomar essa reflexão e aprofundar o debate. 
Durante a exposição, a geógrafa destacou que o conceito de cidade amnésica não pretende oferecer uma definição fixa de cidade. Para ela, a expressão funciona como um ponto de partida para pensar as transformações da vida urbana contemporânea.
A professora argumentou que a cidade deve ser compreendida como parte do processo de produção da vida social. As relações sociais, afirmou, sempre se realizam em termos espaciais e temporais, o que significa que não existe sociedade fora do espaço. 
Nesse sentido, a cidade é formada por diferentes lugares onde se desenvolvem as práticas cotidianas. É nesse espaço que se constroem experiências, relações e referências que sustentam a memória coletiva. 
Ao mesmo tempo, Ana Fani observou que a modernidade urbana é marcada por mudanças cada vez mais rápidas. A cidade, produzida historicamente como uma obra coletiva da sociedade, passa por transformações aceleradas que podem romper vínculos com o passado. 
Esse processo, segundo ela, está relacionado à dinâmica econômica das metrópoles contemporâneas. A expansão do mercado imobiliário, a circulação de capitais e as intervenções urbanas promovidas pelo poder público reorganizam continuamente o espaço urbano. Esse movimento cria novas centralidades e redefine o acesso a diferentes áreas da cidade, mas também pode intensificar processos de segregação social e deslocamento de populações. 

Cidade como mercadoria

A professora destacou que, no contexto do capitalismo, a cidade tende a assumir a forma de mercadoria. Embora seja produzida coletivamente pela sociedade, seu acesso é frequentemente condicionado pela propriedade privada do solo urbano. 
Essa contradição ajuda a explicar desigualdades no acesso à moradia, ao transporte e aos serviços urbanos, além de influenciar a forma como diferentes grupos sociais ocupam o espaço da cidade.
Ao longo da conferência, Ana Fani também recorreu a referências literárias para discutir a relação entre espaço, memória e experiência urbana. Entre os exemplos mencionados estão obras como Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, e Becos da memória, de Conceição Evaristo.
 

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Imagem: Maria Fernanda Friano / Serviço de Comunicação Social

Para a geógrafa, essas narrativas ajudam a mostrar como a memória se constrói a partir das experiências vividas nos lugares e das relações estabelecidas no cotidiano.
Na parte final da aula, a professora destacou que a ideia de amnésia urbana não significa uma perda total da memória coletiva. Mesmo em um cenário de rápidas transformações, afirmou, ainda existem práticas sociais e experiências cotidianas capazes de preservar ou reconstruir vínculos com a cidade.
Esses espaços de sociabilidade e de convivência, segundo ela, revelam que a memória urbana permanece presente, ainda que em constante disputa com as dinâmicas econômicas e espaciais que reorganizam as metrópoles contemporâneas.