Nota de falecimento: Professor Fernando Novais

Historiador e Professor Emérito da FFLCH, Fernando Novais desenvolveu uma importante trajetória em pesquisas sobre a história do Brasil e de Portugal, além de ser um dos fundadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)
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Redação
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Foto: Arquivo/ Serviço de Comunicação Social FFLCH USP

A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP informa com pesar o falecimento de Fernando Antonio Novais, docente do Departamento de História, entre 1961 e 1986, e Professor Emérito da FFLCH. 

A direção da Faculdade manifesta imenso pesar e sentimento de solidariedade às e aos familiares e colegas.

O professor Pedro Luís Puntoni, do Departamento de História, escreveu uma homenagem ao professor Fernando Novais:

Fernando A. Novais (1933-2026)

Tal vez el pájaro cante
para las ramas del roble.
Tal vez el río murmure
para las piedras que roe.
Tal vez el viento se queje
para la cruz de la torre.
Tal vez nosotros callemos,
puesto que tú no nos oyes.
(Fernandez Moreno)


Fernando Antônio Novais nasceu em Guararema, no estado de São Paulo, em 1933. Formou-se em História pela Universidade de São Paulo em 1958, onde também concluiu seu doutorado (1973). 

Iniciou sua carreira como professor assistente na Faculdade de Economia da USP (1957) e em 1961 tornou-se professor na cadeira de História Moderna da FFLCH, onde permaneceu até sua aposentadoria em 1986. Logo em seguida, transferiu-se para o Instituto de Economia da Unicamp, onde foi professor de História Econômica. 

Nos anos 1960 participou, junto com outros destacados intelectuais paulistas, do Seminário Marx. Foi um dos sócios fundadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em 1969. 

Como professor e orientador dos cursos de pós-graduação nessas universidades, formou dezenas de mestres e doutores. Destacou-se - todos seus alunos podem o confirmar - como grande professor nos cursos de graduação. Ensinando com rigor e método, em aulas teatrais e conduzidas de forma perfeita: sua atividade como mestre vem - há décadas - despertando interesses, vocações e paixões (pela História).

Foi professor visitante na Universidade do Texas, Austin, e palestrante em Minnesota, Columbia, Yale, Lisboa, Porto, Sevilha, Louvain e Paris. Suas linhas de pesquisa tradicionalmente estiveram ligadas à História Social, Econômica e Política do Brasil colonial.

Fernando Novais publicou dezenas de artigos e livros sobre a história do Brasil e Portugal. Era coordenador da coleção Estudos Históricos, da Hucitec, responsável pela mais densa e longeva coleção de livros da historiografia brasileira.

Sua obra maior é o estudo sobre Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1877-1808), publicado pela Hucitec em 1979. Neste trabalho, originalmente sua tese de doutoramento defendida em 1973, o historiador analisa a política colonial portuguesa relativa ao Brasil nas suas últimas etapas. No segundo capítulo, realiza a análise compreensiva da dinâmica e da estrutura do Antigo Sistema Colonial, visando compreender sua gênese, evolução e crise. Este segundo capítulo foi publicado no "Cadernos Cebrap", número 17, do ano de 1974. Desde então, toda a historiografia relativa à nosso história colonial tem esse trabalho como referência obligé, por sua importância conceitual e, acima de tudo, pela problemática que induziu e ainda induz. O livro é um clássico. Como todo clássico, ele brilha pelas respostas que oferece, mas sobretudo pelo programa de pesquisa que propõe.

Nos anos 1990, coordenou a equipe de profissionais que redigiu a História da Vida Privada no Brasil, coleção impar em nosso panorama acadêmico, publicada pela Companhia das Letras. 

Em 2005, publicou uma coletânea com os seus principais artigos acadêmicos com o título Aproximações: estudos de história e historiografia (CosacNaif, 2005). Posteriormente reeditado pela 34 Letras.

Em 2011 e 2013, publicou - juntamente com Rogério Forastieri da Silva, os dois volumes da Nova História em perspectiva. Mais do que uma antologia com os textos essenciais para compreender a proposição, desdobramentos e debates sobre a chamada “nova história” (ou as “novas histórias”, com prefere Ignácio Olábarri Gortázar), o livro destaca-se pela vigorosa introdução, que propõe (e realiza) uma leitura desafiadora da historiografia moderna e de sua crise.

Sempre colaborou com a cadeira de história do Brasil colonial na USP, sua casa; preferindo a aula de encerramento sobre a crise do Sistema Colonial e os caminhos para a Independência. 

No momento, terminava um estudo sobre a relação do marxismo com a história. Discutia, com muito ânimo, seus textos com os amigos e alunos. 

Fernando ensinou para gerações. Estava sempre interessado na história como um ofício. Um “fazer" que exige um método, uma abordagem conceitualizante e preocupada com uma dimensão de totalização. Em outras palavras, para ele a história deve ser total, mas isso é sempre uma aproximação. Ela nunca “é" total, ela quer ser e procura, desta forma, articular e mediar as várias dimensões das ações (emoções e pensamentos) dos homens e das mulheres no passado. A história quer ser ciência, mas não é. Ela dialoga com as ciências humanas, mas distancia-se delas pelo seu método, estilo e forma de abordar a dimensão da memória humana.

Deixa dois filhos, netos e bisnetos. Deixa muitos amigos e amigas. Muitos alunos, muitos. Fará imensa falta. Pela sua lucidez e contribuição à historiografia, mas sobretudo pela sua gentileza e generosidade. 

Prof. Dr. Pedro Puntoni
Departamento de História FFLCH USP