Ciclo traz debates sobre o teatro político no Brasil e no mundo

Evento acontece a partir desta quarta-feira, dia 8, e se estende até 21 de maio na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP
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Redação
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O Teatro Campesino peruano (1970-1987), fundado e dirigido por Victor Zavala Cataño, constitui “um significativo capítulo da história do teatro latino-americano politizado”, segundo pesquisadora – Foto: Reprodução/Teatro Campesino
O Teatro Campesino peruano (1970-1987), fundado e dirigido por Victor Zavala Cataño, constitui “um significativo capítulo da história do teatro latino-americano politizado”, segundo pesquisadora – Foto: Reprodução/Teatro Campesino

O teatro politicamente engajado, que aborda criticamente valores e práticas da sociedade, será discutido a partir desta quarta-feira, dia 8, às 17 horas, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, quando terá início o Ciclo de Encontros sobre Teatro Político. O evento vai oferecer 13 palestras presenciais e on-line sobre diferentes aspectos ligados a esse gênero teatral, como o teatro político na República de Weimar e no Brasil antes de 1964, a dramaturgia negra, a moderna dramaturgia dos Estados Unidos e a obra de autores como Gianfrancesco Guarnieri, Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, e Berthold Brecht, entre outros temas. O ciclo vai se estender até 21 de maio, sempre das 17h às 18h30 (leia a programação completa neste link). A entrada é grátis.

A palestra de abertura do ciclo, nesta quarta-feira, dia 8, é intitulada Sobre o Teatro Político na República de Weimar a partir de “Hoppla, Estamos Vivos!”, dos alemães Ernst Toller (1893-1939) e Erwin Piscator (1893-1966), e será proferida pelo professor Alexandre Villibor Flory, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), no Paraná. Nela, Flory vai fazer uma “revisitação histórica” da peça de Toller e Piscator, que estreou em 1927 e constitui uma espécie de “balanço crítico” estético e político da Alemanha entre 1919 e aquela data. “O ‘protagonista’ Karl Thomas, embora no centro das ações, não age e mal compreende a situação em que está inserido, o que explicita a situação travada em que se encontram”, segundo Flory. “O princípio que organiza seus materiais explicita a falsidade da euforia que tomava conta da Alemanha nos anos 20 dourados, país que não havia enfrentado seu passado recente e permitia que se vislumbrassem as forças que logo mais retornariam à superfície com a paulatina ascensão do nazismo a partir da crise de 1929.”

Cena da peça Hoppla, Estamos Vivos!, de Ernst Toller e Erwin Piscator – Foto: Wikimedia Commons
Cena da peça Hoppla, Estamos Vivos!, de Ernst Toller e Erwin Piscator – Foto: Wikimedia Commons

No dia seguinte, quinta-feira, dia 9, o professor Fernando Bustamente, doutor em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês pela FFLCH, vai falar sobre Teatro Épico nos Estados Unidos. “Esta fala propõe discutir o que está em jogo na noção de teatro épico a partir de suas tensões históricas no contexto dos Estados Unidos nos anos 1930. Parte-se das contradições do chamado teatro operário, que, embora tenha alcançado certo vigor, viu-se progressivamente institucionalizado no interior do Federal Theatre Project – programa estabelecido durante a Grande Depressão para apoiar espetáculos ao vivo nos Estados Unidos –, ao mesmo tempo em que enfrentava impasses quanto a seus objetivos políticos e aos meios estéticos capazes de realizá-los”, de acordo com a sinopse da palestra. “Como estudo de caso, a apresentação se detém na montagem de The Case of Clyde Griffiths, peça de Erwin Piscator encenada em 1936 pelo Group Theatre sob direção de Harold Clurman, explorando os desencontros entre uma dramaturgia orientada por mediações sociais e uma encenação centrada na interioridade psicológica.”

O dramaturgo alemão Berthold Brecht – Foto: Wikimedia Commons
O dramaturgo alemão Berthold Brecht – Foto: Wikimedia Commons

O teatro estadunidense será tema de outra palestra, no dia 21 de maio, que será proferida pela professora Maria Sílvia Betti, da FFLCH. “Desde as primeiras décadas do século 20, autores, como Elmer Rice, Eugene O’Neill, Thornton Wilder, Arthur Miller, Tennessee Williams e outros, foram responsáveis pela criação de peças que flagraram aspectos até então inéditos da sociedade capitalista em acelerada transformação, expondo contradições e conflitos nos quais aparecia com ênfase a estrutura opressiva e alienante de vida, convívio e pensamento na sociedade de seu tempo”, falará a professora. “Alguns desses dramaturgos haviam chegado a ter contato com os teatros de trabalhadores do final do século 19 e começo do 20. Outros, em seus anos de formação, haviam chegado a participar de iniciativas ligadas à efervescente cultura de esquerda da década de 1930 nos Estados Unidos. Nem todos haviam tido algum tipo de ligação com entidades ligadas ao debate político, mas de inúmeras e inequívocas formas todos tinham tido diante de si o desafio de tratar da matéria histórica que compunha os processos subjetivos, sociais e econômicos decorrentes da exploração da classe trabalhadora na América capitalista, do isolamento do indivíduo e do fechamento de perspectivas de transformação da sociedade no momento histórico em que viviam.”

Brecht e o Cabaré é a palestra que será dada no dia 16 de abril pelo professor e tradutor Vinícius Marques Pastorelli. Primeiro, o professor vai caracterizar o teatro de Brecht de 1925 a 1932, com destaque para o seu chamado “teatro de atualidades” (Zeittheater). Depois de abordar a trajetória do cabaré como gênero – com sua origem na França de Napoleão III –, ele fará referências às experiências anteriores a Brecht com o cabaré, tendo como principal exemplo a peça Marquês de Keith, de Frank Wedekind. Por fim, Pastorelli vai indicar em peças como A Ópera dos Três Vinténs os momentos em que traços típicos do cabaré foram incorporados por Brecht.

O tema do teatro negro estará presente em pelo menos duas palestras a serem apresentadas no Ciclo de Encontros sobre Teatro Político. Uma delas é intitulada Aimé Césaire: Embates nos Processos de Colonização e Descolonização e será proferida no dia 20 de abril pela professora Eurídice Figueiredo, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Figueiredo vai tratar da obra teatral do poeta da Ilha da Martinica Aimé Césaire (1913-2008). Essa obra inclui quatro peças, todas já traduzidas e publicadas no Brasil: E os Cães se Calavam, poema trágico publicado no livro Les Armes Miraculeuses (As Armas Milagrosas), em 1946, e adaptado para o teatro em 1956; A Tragédia do Rei Christophe, publicada em 1963; Uma Temporada no Congo, que teve três versões (em 1966, 1967 e 1973); e Uma Tempestade, publicada e representada em 1969. Como a professora vai explicar, em E os Cães se Calavam, Césaire encena a luta visionária do Rebelde, personagem alegórico que representa qualquer luta contra a opressão, mas que pode ser vista como o combate de negros escravizados contra o sistema; A Tragédia do Rei Christophe e Uma Temporada no Congo tematizam as dificuldades encontradas pelos novos dirigentes após o processo de independência no Haiti no século 19 e no Congo no século 20; e, em Uma Tempestade – releitura e reescrita da peça de Shakespeare –, é encenado o confronto entre Próspero e Calibã, colonizador e colonizado.

O dramaturgo Aimé Césaire – Foto: Wikimedia Commons
O dramaturgo Aimé Césaire – Foto: Wikimedia Commons

A outra palestra em que a temática negra estará presente é Teatralidades e Dramaturgias Negras: Prismas Estético-Políticos para Repensar o Brasil. Ela será proferida no dia 23 de abril pelo pesquisador Guilherme Diniz, crítico de teatro e doutorando pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em sua fala, Diniz vai mostrar como a teatralidade e a dramaturgia negra ampliam as noções de teatro político no Brasil. Nos séculos 20 e 21, peças, festivais e debates produzidos por artistas e coletivos negros elaboraram reflexões críticas sobre raça, colonialidade, memória e história, segundo o pesquisador. “Ao situar essas práticas no campo do teatro político, a comunicação vai evidenciar como os teatros negros produzem formas de inteligibilidade histórica e imaginação crítica sobre a sociedade brasileira.”

No dia 30 de abril, o professor Gustavo Assano dará a palestra O Impasse e a Ocasião: o Teatro de Guarnieri em 1970 e a Pré-História do Teatro na Ordem Neoliberal. “Entre os anos de 1968 e 1976, a trajetória de Gianfrancesco Guarnieri como dramaturgo percorre o momento de derrocada do que Décio de Almeida Prado alcunhou 30 anos antes de ‘deslanche do moderno teatro brasileiro’. Trata-se da era do fim das grandes companhias profissionais como TBC e Maria Della Costa, mas também de grupos como Oficina e Arena, que buscavam rupturas na lógica de produção teatral moderna”, destaca a sinopse da palestra. “À luz do percurso de Guarnieri, Assano propõe discorrer sobre os sentidos dessa derrocada do ponto de vista da continuidade do circuito comercial do teatro engajado. Presos entre a modernização agora balizada pelos projetos desenvolvimentistas e de engenharia social consolidados pelo regime militar e a inércia de crises sucessivas definindo as situações de normalidade de produção teatral, o professor pretende situar a atividade teatral engajada em circuito comercial num novo tipo de crise no teatro brasileiro, inaugurada com os anos de chumbo.”

Por um Teatro Épico Quéchua: a Prática Revolucionária do Teatro Campesino no Peru é o nome da palestra que a pós-doutoranda pela USP Patrícia Freitas vai fazer no dia 5 de maio. Conforme ela falará em sua apresentação, a trajetória do Teatro Campesino peruano (1970-1987), fundado e dirigido por Victor Zavala Cataño, constitui um significativo capítulo da história do teatro latino-americano politizado. “Baseado em uma perspectiva coletiva e horizontal de trabalho, o grupo lançou mão de expedientes cênicos revolucionários à época, aliando o estudo sistemático do teatro épico-dialético de Bertolt Brecht à preocupação ética com a realidade social circundante, estimulada pela observação crítica da desigualdade étnico-social e pelo constante diálogo com profícuos autores da época, como o indigenista José María Arguedas e o sociólogo Mariátegui.” De acordo com Patrícia Freitas, “os parcos registros ainda existentes desse riquíssimo trabalho – concentrados em materiais audiovisuais e uma compilação de peças em um ato – ainda têm pouca disseminação e alcance, sobretudo fora da América Hispânica”. A palestra, continua Freitas, visa proporcionar “uma leitura histórico-crítica das obras curtas escritas e encenadas pelo Teatro Campesino, bem como propor um redirecionamento metodológico frente a historiografias teatrais que, via de regra, vilipendiam ou apagam atos revolucionários praticados dentro e fora dos palcos”.

A Companhia do Latão é o tema da palestra Teatro Político, Questões de Forma e Trabalho: a Experiência da Companhia do Latão, que será proferida no dia 13 de maio pelo professor Sérgio de Carvalho, docente da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e fundador daquele grupo de teatro. Em sua apresentação, Carvalho vai discutir aspectos formais de dramaturgia e encenação no campo do teatro político e politizado em São Paulo. “Possibilidades de uma cena épico-dialética brasileira serão examinadas a partir de algumas de suas modalidades praticadas no teatro moderno. A experiência e a trajetória da Companhia do Latão – com espetáculos e experimentos produzidos em interação com movimentos sociais – será examinada como caso exemplar.”

A Companhia do Latão – Foto: Reprodução/Instagram
A Companhia do Latão – Foto: Reprodução/Instagram

Outras palestras a serem apresentadas no Ciclo de Encontros sobre Teatro Político são Breve História do Teatro Político na França (1900-1936), dia 15 de abril; Teatro Político no Brasil Antes de 1964: o Caso do Teatro de Arena (SP) e do Movimento de Cultura Popular (PE), dia 22 de abril; Pré-História do CPC: Forma e Política na Montagem de “A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar” (1960), de Vianinha, dia 29 de abril; e Brecht e o Agitprop da República de Weimar, dia 14 de maio. A docente responsável pelo evento é a professora Maria Sílvia Betti, do Departamento de Letras Modernas da FFLCH, e a organização é de Philippe Curimbaba Freitas e Gustavo Assano.

O Ciclo de Encontros sobre Teatro Político acontece desta quarta-feira, dia 8, até 21 de maio, sempre das 17h às 18h30, com palestras presenciais, on-line e híbridas (presenciais com transmissão pela internet). As palestras presenciais vão ocorrer na sala 204 do Prédio de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP (Avenida Professor Luciano Gualberto, 403, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis. Não é preciso fazer inscrição. A programação completa do evento, mais informações e o acesso à sala on-line estão disponíveis neste link

Texto publicado no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/cultura/ciclo-traz-debates-sobre-o-teatro-politico-no-brasil-e-no-mundo/