Desde o “jogo do bicho” até as bets, qual o impacto da evolução dos jogos de azar no Brasil? Uma pesquisa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP observou que a modernização dos meios de apostas esportivas e loterias criou mecanismos que agravam os vícios de seus jogadores.
A tese intitulada “Evolução e modernização recente dos jogos de azar e apostas: difusão das bets e usos do território brasileiro” de Leonardo Sena do Carmo, defendida em Abril de 2026, procurou destrinchar a trajetória desses jogos no país e a relação que os brasileiros mantêm com eles.
O pesquisador começou suas pesquisas estudando as loterias e o chamado “jogo do bicho”, e acompanhou a modernização digital do setor de apostas. O trabalho de campo de Leonardo foi feito em Arapiraca, cidade do interior do Amazonas. Ele observou que a relação entre os moradores e o jogo do bicho é baseada em confiança, socialização e familiaridade, visto que a maioria desses comércios é realizada por pessoas conhecidas, principalmente em cidades pequenas.
Segundo o geógrafo, diferentemente das modalidades tradicionais, a digitalização das apostas digitais oferecem facilidade no pagamento, reclusão social e acesso rápido. Além disso, oferecem intensa propaganda e estímulos, como cores, mascotes, ícones e sons, que neurologicamente intensificam a sensação de recompensa e contribuem para o vício.
Em dezembro de 2018, durante o governo do ex-presidente Michel Temer, alterou a legislação sobre as apostas (bets), e instituiu as chamadas apostas de quota fixa por meio da Lei 13.756, que retirava a exclusividade da União em relação às apostas. Em dezembro de 2023, o atual governo, de Luiz Inácio Lula da Silva, regulamentou o mercado de apostas online, Lei 14.790, com o argumento de maior controle e de maior arrecadação. O crescimento exponencial do mercado é evidente: hoje o Brasil se consolidou como o quinto maior país do mundo em apostas online.
O geógrafo aponta que a evolução acelerada das bets tem colocado em decadência os comércios físicos de jogos de aposta, como lotéricas e jogos regionais. A pesquisa observa que há uma diferença na faixa etária de quem consome jogos online e jogos físicos. O público mais velho costumava participar das loterias, por exemplo, enquanto os mais jovens tinham a tendência de jogar em plataformas digitais.
O pesquisador explica que a expansão do mercado online de apostas se deu principalmente por um investimento massivo das empresas de jogos em publicidade. Contratos com influenciadores digitais, celebridades e grandes veículos de comunicação aumentaram a credibilidade dos jogos para o público, gerando uma lucratividade multimilionária para as plataformas. As bets também se tornaram grandes patrocinadoras de eventos e empresas, principalmente no meio do futebol.
O geógrafo explica que o uso de personalidades famosas em propagandas e a associação a grandes marcas com empresas de apostas online é um empréstimo do capital simbólico - que se refere ao prestígio e legitimidade atribuídos a um indivíduo ou grupo. Para Leonardo, esse capital aumenta a confiabilidade das casas de apostas e auxilia na popularidade dos jogos com o público.
Vício em apostas
Em sua pesquisa, Leonardo também explica que o vício em jogos pode ser mais presente em populações com maior insegurança econômica porque, muitas vezes, essas plataformas são vendidas como uma forma de investimento financeiro. “É importante que a gente entenda que o comportamento é influenciado por fatores sociais” , reitera.
A ludopatia é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma compulsão por jogos de azar, que pode causar sérios danos à saúde mental e endividamento. Leonardo afirma que existe uma invisibilização da doença: “As pessoas, por muitas vezes, não se reconhecem como doentes e ninguém consegue perceber até que danos financeiros ou psicológicos comecem a aparecer”.
Após a regulamentação dos jogos de azar online, as casas de apostas atualmente pagam 12% de impostos sobre o montante que é arrecadado menos os prêmios pagos aos jogadores. “Eu acho que o retorno é muito pouco em contraponto ao que as corporações lucram e, sobretudo, pelo mal social que causam, como as doenças e os endividamentos, principalmente nas classes menos abastadas”, argumenta o pesquisador.