Perdemos! Nosso futebol não foi competente para chegarmos às fases finais desta Copa do Mundo 2026. Os milhões de técnicos brasileiros têm, cada um, o seu olhar sobre as causas de mais este insucesso. “Mas há outras formas de ver o futebol, para além dos espetáculos, das vitórias, derrotas, enfim!”, como descreve o fotógrafo e cientista social Evandro Lima dos Santos, mestrando em Antropologia na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Ele é um dos artistas visuais que expõe parte de seus trabalhos na exposição coletiva 3 na Linha, que está em cartaz na Sala Acima da Casa Bradesco, na área central de São Paulo, e que pode ser visitada até o próximo dia 21 de julho, gratuitamente.
Além de Evandro, outros dois artistas expõem seus trabalhos na mostra: Diego Crux e Marina Ceglie da Silva. Com seus trabalhos, os três buscam incentivar novas leituras do esporte. Nascido no bairro de Parada de Taipas, na periferia paulistana, Diego tem sua formação em Artes Visuais e traz referências de sua origem em sua arte. Evandro também traz em seus trabalhos retratos de origem periférica, com registros fotográficos do futebol de várzea da região de Taboão da Serra, na Grande São Paulo.
Já Maria Ceglie da Silva, é integrante do programa de mestrado do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP. Juntos, os artistas propõem, por intermédio de suas obras, uma discussão sobre a memória, território, identidade e cultura popular a partir do futebol. A mostra parte de imagens muito populares sobre o esporte para discuti-lo enquanto território de afeto, tensões e campo de disputas que também atravessam a arte contemporânea.
Como explica Isadora Matias, uma das curadoras da mostra, “no futebol, a linha organiza o campo separando o ataque e a defesa, o dentro e o fora, a regra e o desvio. Na exposição, essa mesma linha é o ponto de partida para três olhares distintos que se encontram: a arte aproxima-se da antropologia e da documentação social para pensar o futebol para além da indústria do espetáculo”. Além de Isadora, a curadoria da mostra conta ainda com Rodrigo Muniz, graduando em Filosofia e pesquisador em Estética Contemporânea e História da Arte, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
Um símbolo cultural
O pontapé inicial para 3 na Linha surgiu do videocast A Camisa que Conta, que foi elaborado dentro do Vozes da Arte, um projeto de extensão vinculado à Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte da USP (que envolve a ECA, MAC, FAU e FFLCH).
A proposta do videocast foi um bate-papo, que aconteceu no dia 8 de junho deste ano no mesmo espaço da exposição. “Tivemos a oportunidade de debater e explorar a interseção entre arte, antropologia e futebol, analisando a camisa de jogo como um símbolo cultural profundo”, descreve Isadora Matias. Ela foi a mediadora do encontro que teve a participação de Evandro, Diego e Marina.
“Tenho contato com o futebol de várzea há tempos. Sou da periferia da zona sul de São Paulo e no meu trabalho busco evidenciar a importância das camisas dos times, que na verdade formam a identidade periférica”, conta Evandro. Na mostra, há uma coleção de camisas de equipes da várzea de São Paulo, que é parte de seu acervo particular. Há também imagens que registram arquibancadas em Taboão da Serra, torcidas da Copa da Paz e celebrações do Tudo Nosso FC, revelando formas de sociabilidade e memória coletiva produzidas fora da lógica dominante do futebol profissional.
Diego Crux, por sua vez, vem explorando o campo afrodiaspórico do futebol e também usa a camisa como suporte de linguagem e pertencimento. A obra Calado 1 Poeta, inspirada na célebre frase de Romário dirigida a Pelé, revisita imaginários ligados à autoridade, ao futebol e à construção da identidade nacional. Seu trabalho explora vivências periféricas, masculinidades negras e a elaboração de imaginários, utilizando fotografia, vídeo, design e apropriação.
A artista Marina Ceglie leva o campo para além de seus limites e o faz invadir o espaço urbano. Em Outro campo para jogar, a escala opera como afirmação de existência, enquanto a presença da camisa sobre o corpo evidencia tensões de gênero, desejo, vigilância e pertencimento associadas à masculinidade popular e às vivências periféricas. Ela investiga como o campo de futebol tensiona gênero, desejo e presença urbana. Ela leva o campo para além de seus limites e o faz invadir o espaço urbano elaborando análises visuais do futebol.
Serviço:
Exposição 3 na Linha
Local:
Casa Bradesco (Sala Acima); Até 21 de julho, sempre das 12 às 17 horas com entrada gratuita; ingressos pelo MATTA app
Artistas:
Diego Crux, Marina Ceglie da Silva e Evandro Lima
Curadoria:
Isadora Matias (@p3squisadora); Rodrigo Muniz (@rodrigo.mcmuniz)
Reportagem de Antonio Carlos Quinto publicada no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/diversidade/mostra-em-sao-paulo-propoe-novas-formas-de-se-olhar-o-futebol/