
Nos Estados Unidos dos anos 1960, em meio aos movimentos pelos direitos civis, uma vertente musical do jazz representou uma forma de músicos negros se organizarem e resistirem ao racismo. Uma dissertação de mestrado, defendida em novembro na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, mostrou como a relação entre música, política e questões socioeconômicas ajudou a promover mais emancipação e senso de identidade entre a população negra naquele contexto histórico.
O Free Jazz é uma vertente do jazz tradicional que explora a improvisação livre e a quebra de estruturas musicais, buscando fugir dos padrões estabelecidos no mercado musical da época. O rótulo começou a ser utilizado pela DownBeat Magazine, principal revista de jazz norte-americana, após o lançamento do disco "Free Jazz: A Collective Improvisation", de Ornette Coleman, em 1961.
Naquele momento, as grandes lideranças negras dos anos 1960, como Martin Luther King, Malcolm X, os Panteras Negras, a Nação do Islã, entre outros, estavam engajadas nos movimentos pelos direitos civis nos Estados Unidos. Com isso, a realidade social, econômica e política da população negra também era retratada em álbuns de Free Jazz. "É um termo que surge para catalogar e definir essa música que apresenta uma certa violência, uma disrupção sonora e uma mudança de atitude”, explica Caio Francisco Azevedo Souza, autor da dissertação.
Mas qual a diferença dessa nova vertente para o jazz tradicional, surgido no século 19? O pesquisador conta que o questionamento e a quebra de padrões estão presentes no jazz desde seu início, quando os Estados Unidos viveram um período de efervescência cultural durante a reconstrução do país após a Guerra de Secessão (1861-1865). Instrumentos militares como trompete, trombone e tuba foram repassados a ex-escravizados que lutaram na guerra, e passaram a utilizá-los em marchas fúnebres, carnavais e cabarés. "Os primeiros músicos de jazz vêm de uma tradição de tocar esses instrumentos não necessariamente como eles foram concebidos para serem tocados".
Essa tradição de ressignificar a música foi retomada pelo Free Jazz nos anos 1960. Por exemplo, o próprio Ornette Coleman, saxofonista de formação, gravou alguns álbuns tocando violino.
A pesquisa também abordou os dramas sociais vividos pelos músicos de jazz, que são os mesmos da população negra norte-americana. Caio buscou analisar como a produção cultural dessa população, que foi espoliada e escravizada, é em si uma forma de emancipação.
Por exemplo, o primeiro álbum de jazz foi gravado por uma banda de músicos brancos. Assim como Hollywood, que exibia em cena músicos e cantores brancos dublando músicas gravadas em estúdio por artistas negros. "Há essa usurpação, essa transfiguração da cultura negra. Eles impedem que a cultura negra se expresse a partir dos seus próprios termos", afirma o pesquisador.
Resistência pela música
Nesse sentido, o Free Jazz representa um dos principais sinais de tomada de consciência e de busca por emancipação entre músicos e pessoas negras. Isso é observado com o surgimento de cooperativas, gravadoras e distribuidoras, além de músicos se organizando como agentes uns dos outros, em uma tentativa de romper com a lógica capitalista da indústria musical.
No decorrer dos anos 1960 e 1970, o Free Jazz influenciou outras áreas da cultura. Poetas negros recitavam seus versos em músicas e discos, e também houve colaborações entre escritores e músicos de jazz na literatura. A influência do Free Jazz inspirou também movimentos na Alemanha, Inglaterra e França, com a criação de cooperativas, associações, ensaios e workshops abertos ao público. “Há uma conexão muito forte, uma unidade a nível cultural que reflete a transformação da sociedade e da consciência negra”, explica o pesquisador.
Exemplos dessas iniciativas é a revista The Crickets, na qual músicos falam de sua própria música (ao invés de críticos distantes da realidade social negra), e a Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM), que disponibiliza espaços para músicos de Chicago se apresentarem, além de promover cursos gratuitos para crianças e arrecadação de fundos para causas sociais. “É uma ideia do músico não limitado à figura de músico, mas como um agente social transformador da realidade”.
Caio acredita que o Free Jazz, assim como outros fenômenos culturais, podem nos apresentar outras perspectivas dos conflitos e das dinâmicas raciais do século 20, assim como de outros grandes eventos históricos. "O Free Jazz nos dá esse exemplo, que é factível, de possibilidades de auto-organização, de cooperação e de fortalecimento dos laços comunitários".