Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, o Brasil parece ter sido engolido por uma onda de violência de gênero. Em meio a notícias diárias de violências cometidas contra mulheres e meninas de diferentes estados, também conhecemos os dados mais atualizados sobre feminicídios no Brasil, compilados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. No estado de São Paulo, o mais populoso do País, os feminicídios cresceram 96,4% em quatro anos, entre 2021 e 2025. Afinal, o que está acontecendo? Para a professora Heloisa Buarque de Almeida, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, embora a violência contra a mulher de fato esteja em alta, as notícias têm maior visibilidade que no passado porque hoje temos uma gramática para nomear e denunciar os crimes.
Antropóloga e pesquisadora do tema da violência de gênero, Heloisa é autora do livro Entre segredos, posts e notícias: A construção pública de categorias de violência sexual, publicado em 2025 e disponibilizado gratuitamente para download no site da editora Papéis Selvagens. O livro é resultado da tese de livre docência apresentada por Heloisa à USP em 2023 e oferece uma reflexão sobre o percurso trilhado pelo ativismo feminista para dar nome aos bois e denunciar nas redes sociais, na mídia tradicional e nos espaços acadêmicos a profusão de situações de importunação sexual e outras violências que permeiam o cotidiano das mulheres brasileiras.
Medir o tamanho da violência contra as mulheres não é tarefa fácil. Se os números de feminicídios são mais evidentes – em 2025, eles cresceram 4,7% em relação a 2024 e 14,5% em relação a 2021 –, os da violência doméstica são mais difíceis de contar, já que os casos geralmente acontecem no ambiente privado, frequentemente atingem crianças e adolescentes e nem sempre levam a boletins de ocorrência policial.
“Uma coisa que a gente sabe do aumento de violência é que, quando a gente começa a ter leis novas, quando a gente começa a ter mais políticas protetivas, ou seja, quando as mulheres começam a ganhar mais direitos, o primeiro impacto é o aumento da violência. Isso acontece tanto no nível macro, estatístico, quanto no nível micro, pessoal. Por exemplo, quando a esposa começa a ganhar mais do que o marido, ele começa a ficar violento. Então, a gente sabe que tem uma correlação entre os homens se sentirem diminuídos ou se sentirem ameaçados e aumentar a violência contra as mulheres. Logo que vem uma lei, a primeira tendência é piorar”, diz a docente.
Heloisa destaca que, nos últimos 25 anos, o Brasil aprovou uma série de leis para coibir e punir a violência contra a mulher. A lei do assédio sexual é de 2001, a Lei Maria da Penha é de 2006, a mudança na categoria do crime de estupro é de 2009, a tipificação do feminicídio aconteceu em 2015 e a da importunação sexual, em 2018. Ela diz, no entanto, que a efetividade das leis depende da atualização do Judiciário, que ainda é um ambiente muito machista, e também da construção de uma rede de proteção dedicada às mulheres.
“Por isso que, além da lei, a gente precisa ter um sistema de proteção. Assistência social, assistência psicológica, assistência médica”, ressalta. A professora diz que, entre os pesquisadores do tema da violência de gênero, há a percepção de que o desmonte de algumas políticas públicas pelo governo passado ainda está na raiz da atual onda de violência contra as mulheres. “O 180 praticamente foi desmantelado na época do governo Bolsonaro”, afirma a docente, referindo-se ao serviço telefônico da Central de Atendimento à Mulher.
É nesse contexto que inundam o noticiário casos como o da adolescente de 17 anos emboscada e estuprada pelo ex-namorado e outros quatro homens no Rio de Janeiro. O de Cibelle Monteiro Alves, esfaqueada e morta por um ex que não aceitava o fim do relacionamento, em um crime ocorrido dentro do local de trabalho da vítima, em São Bernardo do Campo. O de Tainara Souza Santos, que perdeu as pernas após ser arrastada até a Marginal Pinheiros em um ataque brutal, e o de sua amiga Priscila Ribeiro Verson, que dois meses depois também foi vítima de feminicídio na zona norte de São Paulo. Ou, ainda, o da freira Nadia Gavanski, 82 anos, estuprada e morta dentro do convento onde vivia em Ivaí, no Paraná.
A lista de crimes cometidos contra mulheres e meninas é extensa e revoltante. Para além de despertar raiva e comoção, ao noticiá-los, a mídia pode cumprir um papel importante para o sistema de proteção: “divulgar as possibilidades de saídas, os caminhos, os lugares de atendimento. E de mostrar, também, que algumas dessas violências, que eram muito naturalizadas, agora são categorizadas como crimes. Eu acho que o caso exemplar, que eu exploro um pouco no meu livro, é a questão da importunação sexual”, diz Heloisa.
A importunação sexual foi definida pela Lei nº 13.718/2018 como “praticar contra alguém e sem a sua anuência ato libidinoso com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiro”. Foi aprovada pelo Congresso Nacional na esteira de casos de violência sexual no transporte coletivo, que também viraram notícia.
Do “fiu-fiu” ao assédio: nasce uma gramática do inaceitável
O livro Entre segredos, posts e notícias desperta a angústia da leitora logo na introdução, quando Heloisa recorre à narrativa do escritor sul-africano J. M. Coetzee em Desonra para abordar a violência sexual a partir do ponto de vista do agressor. Na escrita de Coetzee, esse agressor era um professor afastado de uma universidade devido a um processo de assédio sexual motivado pela denúncia de uma aluna. A narrativa emprestada do autor sul-africano tem uma função muito importante no livro de Heloisa, na medida em que o personagem de Coetzee não se reconhece como um agressor. Ela demonstra que o ativismo feminista tem sido pedagógico para que a sociedade compreenda que o que já foi chamado de “paquera” é, na experiência das mulheres, sinal de risco e situação de violência.
A autora ampara sua reflexão a partir de três estudos de caso: a cobertura da imprensa no caso Roger Abdelmassih, médico condenado na Justiça por estuprar suas pacientes; as campanhas hashtag da década passada, como Chega de Fiu-Fiu e Meu Primeiro Assédio, que espalharam pelas redes sociais uma profusão de relatos de constrangimento e violência vivenciados por mulheres brasileiras; e a construção da Rede Não Cala USP, coletivo de professoras que acolhe denúncias de assédio moral e violência sexual dentro da Universidade. Heloisa foi uma das fundadoras da rede em 2015 e tem acompanhado mesas de mediação, sindicâncias e processos administrativos desde então.
A professora da USP conta que começou a estudar as campanhas do ativismo feminista brasileiro a partir dos anos 2010, época em que houve uma proliferação de coletivos feministas na USP e em outras universidades. Esses coletivos foram os primeiros canais de acolhimento de denúncias de violência sexual nos ambientes universitários e tiveram um impacto grande do lado de fora da academia nos anos seguintes, ao levar campanhas massivas às redes sociais.
“Se você olhar as campanhas Chega de Fiu-Fiu, Meu Primeiro Assédio, Meu Professor Abusador, Meu Amigo Secreto, que são anteriores, inclusive, ao Me Too, elas não são uma coisa que vem dos Estados Unidos para o Brasil, elas já são uma coisa nossa mesmo. Quando elas começam, elas começam a nomear alguma coisa como inaceitável. Então, Chega de Fiu-Fiu vai desembocar no Primeiro Assédio, que vai desembocar, no meu ponto de vista, no meu argumento do livro, na construção pública dessa categoria assédio sexual, que existia na letra da lei desde 2001, para falar de trabalho, mas que a sociedade brasileira não sabia muito bem o que queria dizer”, diz Heloisa.
Ela destaca o protagonismo desse feminismo mais jovem dos anos 2010, que começou a problematizar o que era assédio e violência e levar essas questões às redes sociais. A campanha Chega de Fiu-Fiu foi importante para enquadrar a antiga “cantada de rua” como assédio. Campanhas posteriores trataram de expor como a violência de gênero é uma experiência que acompanha as meninas desde muito cedo ou como professores que, no passado, seriam qualificados como “paqueradores” estavam, na verdade, abusando de uma relação de poder entre docente e discentes – muitas vezes chegando a expulsar mulheres da carreira acadêmica.
Porém, para que esse discurso chegasse também à imprensa, houve muito esforço de jornalistas feministas. “No começo, as mídias convencionais não querem divulgar. Eu mostro isso bastante com o caso do Think Olga, que era uma ONG feminista, formada basicamente por jornalistas mulheres. Elas estavam vivendo essa situação de tentar pautar a mídia hegemônica, e a mídia (respondia com) ‘não, esse tema é chato, esse tema é desagradável’,” conta a professora.
Violência contra a mulher: saiba onde procurar ajuda
Na USP
- Câmaras de direitos humanos, Comissões de Inclusão e Pertencimento e Comissões de acolhimento das unidades
- Programa ECOS, para atendimento psicológico
- Sistema USP de Acolhimento
- Coletivos feministas
Em outras universidades
Muitas universidades estão implementando equipamentos semelhantes aos da USP. A Unesp está atualmente em processo de montagem de um órgão semelhantes à Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP) da USP. A Unicamp tem uma comissão própria de direitos humanos. Nas universidades federais, o encaminhamento acontece por meio dos escritórios de assuntos comunitários ou estudantis.
Fora do ambiente universitário
- Delegacias de Defesa da Mulher
- Coletivos e grupos feministas que realizam trabalho de acolhimento
- Na cidade de São Paulo: Casa da Mulher Brasileira, localizada no bairro do Cambuci – Rua Vieira Ravasco, 26. Funciona 24 horas. Contato: cmb@prefeitura.sp.gov.br ou (11) 3275-8000.
Reportagem de Silvana Salles para o Jornal da USP: https://jornal.usp.br/diversidade/ativismo-feminista-deu-nome-a-violenc…