Em 1588, um jovem Galileu Galilei (1564-1642) esteve por dois dias diante dos membros da Academia Florentina, interessado em discutir a arquitetura do Inferno. Aquele descrito por Dante Alighieri na Divina Comédia, para ser mais específico. Em um esforço matemático que reunia conhecimentos de Euclides e Arquimedes, Galileu comparava dois modelos propostos para a arquitetura infernal, um de Antonio Manetti e outro de Alessandro Vellutello, defendendo o acerto do primeiro.
Matemática, literatura e artes se misturam nas exposições de Galileu, que chegaram até nós em formato textual, batizado como Duas Lições à Academia Florentina Acerca da Figura, Lugar e Tamanho do Inferno de Dante. Agora, esse texto ganha tradução para o português com o lançamento do livro Galileu e a Arquitetura do Inferno de Dante, do professor Pablo Rubén Mariconda, do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Bilíngue (italiano-português), a obra é publicada pela Editora da USP (Edusp) e pela Scientia Studia.
O livro de Mariconda – que morreu em 2025, logo após concluir a obra – vai muito além da tradução, contudo. Trata-se de um amplo estudo que parte dos escritos de Galileu para abordar a literatura, a ciência e a arte do Renascimento. Como Leticia Mariconda, filha do autor, afirma na nota introdutória ao volume, o diálogo de Galileu com a obra de Dante revela “um momento decisivo da cultura ocidental, situado entre a visão poética e medieval do cosmo e o espírito investigativo do Renascimento”.
Conforme Mariconda explica no prefácio, a ideia de traduzir os textos de Galileu surgiu a partir de um convite feito em 2021 pela professora Maria Cecilia Casini, do Departamento de Letras Modernas da FFLCH. Na época, Maria Cecília solicitou a participação do colega na coletânea Meu Dante, que comemorava os 700 anos da Divina Comédia. Inspirado pelo convite, Mariconda decidiu traduzir também Duas Lições.
Logo a empreitada se mostrou complexa e demorada, mas também instigante. Além de registrar o momento da formação da língua italiana, as lições de Galileu abriam possibilidades para a investigação das raízes da concepção de ciência de seu autor. E também ofereciam o desafio da reconstituição de dois desenhos perdidos de Galileu, citados nos trabalhos e centrais para sua plena compreensão.
“Desde muito cedo os intérpretes consideraram que, para seguir o relato que Dante faz de sua viagem”, escreve Mariconda, “é preciso ter bem presente uma espécie de mapa cosmográfico com o qual podemos situar-nos tanto espacial como temporalmente nesse mundo do final da Idade Média e início do Renascimento”.
Após quatro anos de dedicação, Mariconda saiu não só com a tradução e a reconstituição dos desenhos, para os quais foi necessário mobilizar noções de simetria, razão, analogia e semelhança. Produziu ainda um estudo que classificou como “uma espécie de arqueologia da formação artística, literária e científica de Galileu, bem como de seu vínculo com o Renascimento florentino dos séculos 14 e 15”.
Duas Lições são textos que receberam pouca atenção da crítica histórica especializada, escreve Mariconda. Foram considerados pouco significativos para a trajetória científica de Galileu e parte das críticas afirma que isso tem a ver com o fato de serem anteriores à conversão de Galileu ao sistema heliocêntrico de Nicolau Copérnico, no qual a Terra gira ao redor do Sol.
Mariconda, entretanto, diz que é um equívoco considerar Duas Lições irrelevante. A obra são documentos preciosos que revelam a formação científica, sobretudo em matemática, de Galileu. E apontam que, “desde o início de sua trajetória científica, Galileu adota uma dupla estratégia, experimental e dedutiva, que será constitutiva da prática científica do início da ciência moderna”, escreve o autor. Além disso, os textos ainda são interessantes por mostrar o uso feito por Galileu de conhecimentos geométricos recém-adquiridos, mobilizados para intervir em uma polêmica artística e técnica da arquitetura da época.
Dante descreve, portanto, o Inferno, mas o deixa tão ofuscado nas trevas, que a outros depois dele deu razão de afadigarem-se por grande tempo para explicar essa sua arquitetura, entre os quais estão dois que mais prolixamente escreveram sobre isso: um é Antonio Manetti, o outro Alessandro Vellutello, mas este de modo bastante diferente daquele, e um e outro muito obscuramente, não tanto por suas deficiências, mas pela dificuldade do assunto, que não se presta a ser facilmente explicado com a pena. De modo que nós, para obedecer à convocação feita por quem a pode fazer, hoje viemos aqui para tentar se, de viva voz, acompanhando o desenho, se pudesse, àqueles que não o compreenderam, declarar a intenção de uma e da outra opinião e, além disso, se houver tempo, acrescentar aquelas razões para uma e para a outra parte que pudessem persuadir serem as diversas descrições conformes ao entendimento do Poeta, engenhando-nos ao final, com algumas outras nossas [razões], para demonstrar qual delas mais se aproxima à verdade, ou seja, à mente de Dante, no que talvez deixaremos evidente quão erroneamente o virtuoso Manetti, juntamente com toda a doutíssima e nobilíssima Academia Florentina, foi caluniado por Vellutello.
Trecho de Duas Lições à Academia Florentina Acerca da Figura, Lugar e Tamanho do Inferno de Dante, de Galileu Galilei, em tradução de Pablo Rubén Mariconda
Galileu, continuador de Dante
Antes de virar livro, a tradução e partes do estudo de Mariconda foram tema de um curso de pós-graduação de Filosofia da Ciência na FFLCH, intitulado De Dante Alighieri a Galileu Galilei: Sobre a Formação Literária e Científica de Galileu, no segundo semestre de 2024. A versão finalizada em 2025, com mais de 160 páginas consideradas pelo professor uma introdução a Duas Lições, é organizada em quatro partes, caderno de imagens e tradução acompanhada do texto italiano.
Na primeira parte da Introdução, Mariconda apresenta a cosmografia anunciada na Divina Comédia, com suas noções de ordem, medida, harmonia, simetria, proporcionalidade e semelhança. Em seguida, o professor descreve o cenário vibrante das artes e das ciências da República de Florença nos séculos 14 e 15, momento em que tais noções passaram a ditar as concepções do belo. Mariconda concentra-se sobretudo nas contribuições de Dante e do pintor e arquiteto Giotto di Bondone, do arquiteto Filippo Brunelleschi e do escultor Donato di Niccolò Bardi, o Donatello.
A terceira parte investiga a Florença dos Medicis no século 16. Mariconda discute, entre outros temas, a concepção de projeto arquitetônico de Raffaello Sanzio, expressão da visão geométrica renascentista da arquitetura, que embasa os projetos para o Inferno. Por fim, a quarta parte trata de Duas Lições como um exercício matemático, no qual Galileu mobiliza seus conhecimentos de Euclides e Arquimedes para escolher entre as diferentes propostas arquitetônicas para o Inferno de Dante.
“Galileu revela-se, nas duas lições, um continuador do impulso humanista de Dante, de fazer filosofia na língua vulgar, discorrendo sobre matemática, arquitetura e engenharia no vulgar toscano falado em sua época”, escreve Mariconda. “A expertise circula, por assim dizer, entre a concepção arquitetônica do desenho (projeto) e a questão de engenharia da estabilidade e sustentação da obra.”
Galileu e a Arquitetura do Inferno de Dante, de Pablo Rubén Mariconda, 320 páginas, Editora da USP (Edusp) e Scientiae Studia, R$ 54,00
Professor dedicou mais de 50 anos ao ensino e à pesquisa na USP
Pablo Rubén Mariconda (1949-2025) nasceu na Argentina e veio para o Brasil ainda criança, aos cinco anos. Teve toda a sua carreira acadêmica vinculada à USP. Graduou-se em Filosofia em 1971 e logo em seguida passou a integrar o corpo docente da Universidade como auxiliar de ensino. Concluiu o mestrado em 1979 e o doutorado em 1986, tornando-se professor titular em 2005.
Permaneceu por mais de 50 anos no Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, atuando na área de filosofia, história e sociologia da ciência e da tecnologia. Referência em teoria do conhecimento, traduziu obras de Galileu Galilei, René Descartes, Bertrand Russell, Karl Popper, Rudolf Carnap, William James e John Stuart Mill. Dedicou-se ao tema das revoluções científicas dos séculos 16 e 17, sobretudo a autores como Galileu, Descartes, Nicolau Copérnico, Giordano Bruno, Johannes Kepler, Christiaan Huygens e Isaac Newton.
Em 2003, Mariconda criou a Scientiae Studia – Revista Latino-Americana de Filosofia e História da Ciência, da qual era editor-chefe. Em 2004, fundou a Associação Filosófica Scientiae Studia e, em 2008, no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, criou o Grupo de Pesquisa Filosofia, História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia, levado também para a Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (Anpof).
Mariconda morreu em 15 de maio de 2025, aos 75 anos. Na ocasião, os professores Caetano Ernesto Plastino e José Raymundo Novaes Chiappin prestaram homenagem ao colega, em texto publicado no site do Departamento de Filosofia da FFLCH. “Além de grande e leal amigo, o professor Pablo Rubén Mariconda foi nossa principal referência em teoria do conhecimento e filosofia da ciência no Departamento de Filosofia da USP e, com todos os méritos, tornou-se em 2005 o primeiro professor titular dessa área. Nós o conhecemos por volta de 1974, ocasião em que nos impressionou sua extraordinária vocação para o ensino de filosofia”, escreveram os professores.
“Sua presença em sala de aula era marcante, com barba e cabelos longos, voz firme e segura, impecável uso da lousa, profundo domínio dos temas tratados e extrema seriedade”, continuam os colegas. “Nas conversas após as aulas havia, contudo, um clima de descontração. Os alunos deparavam-se com um professor gentil, generoso, sorridente, com entusiasmo contagiante e sempre disposto a auxiliar quem demonstrasse interesse.”
Em depoimento para o Jornal da USP, o professor Osvaldo Frota Pessoa Junior, do Departamento de Filosofia da FFLCH, destacou o legado do amigo. “Pablo Mariconda teve muita importância para a história e a filosofia da ciência do Brasil e também para os estudos sociais da ciência e da tecnologia”, comenta. “Foi um destacado estudioso de Galileu, tendo traduzido e analisado várias de suas obras, além de estudar filósofos como Duhem e Popper. Era um grande líder, de temperamento napolitano, e formou várias gerações de alunos de pós-graduação. Fez um trabalho inovador sobre valores na ciência.”
Para Maurício de Carvalho Ramos, também professor do Departamento de Filosofia da USP, a influência intelectual de Mariconda se concentra, pelo menos, em dois domínios do conhecimento: a filosofia e a história da ciência moderna, centrada na figura de Galileu, e o papel dos valores na atividade científica, centrado na obra de Hugh Lacey. “As conversas e discussões que tive o privilégio de fazer com o professor Pablo deixaram uma marca permanente em minha formação”, recorda.
Texto de Luiz Prado publicado no Jornal da USP: Ensaio sobre o “Inferno” de Dante revela a formação de Galileu Galilei – Jornal da USP