As relações entre história e ficção na literatura brasileira são discutidas na edição número 23 da revista Teresa – ligada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP –, que acaba de ser lançada. A nova edição traz 11 artigos sobre esse tema, escritos por pesquisadores da USP e de outras universidades. A publicação está disponível gratuitamente no Portal de Revistas da USP.
Um dos artigos publicados na revista é A Propósito de Pagu, de autoria de Walnice Nogueira Galvão, Professora Emérita da FFLCH. Nele, Walnice desmente informações sobre a figura da jornalista, escritora e agitadora cultural Patrícia Galvão, a Pagu (1910-1962), como a afirmação de que ela foi a primeira mulher brasileira presa política. A professora cita, por exemplo, a revolucionária Bárbara de Alencar (1760-1832), encarcerada por ser líder da Revolução Pernambucana de 1817 – movimento de revolta contra o domínio de Portugal, que declarou Pernambuco independente.
Ligada ao Modernismo brasileiro, Pagu teve uma vida política agitada como militante, o que abriu espaço para criações no imaginário popular – muitas vezes sem compromisso histórico –, como nota Walnice. Uma informação desmentida por Walnice é a de que Pagu teria trazido sementes de soja como contrabando da China. Walnice afirma que, naquela época, já havia plantações de soja documentadas no País, sendo a primeira na Bahia, em 1884. Acredita-se também que Pagu teria entrevistado o médico austríaco Sigmundo Freud (1856-1939) na China, mas, ao conferir a biografia do criador da psicanálise, constata-se que ele nunca visitou aquele país do Oriente.
Walnice ressalta que há informações sobre Pagu que não podem ser verificadas, como a quantidade de vezes que ela foi presa. A própria escritora afirmava que foram 23 vezes, mas só existem registros de algumas dessas prisões. “Nada disso ensombrece seus méritos ou o lustro de sua extraordinária figura”, escreve a professora, que enfatiza a necessidade de respeitar o método histórico, a comprovação documental e as fontes.
Outro artigo publicado na nova edição de Teresa é Reescrevendo 1968 – A Ficção e a Invasão a Universidades Públicas, do escritor e crítico literário José Godoy, que trata da representação das ditaduras latino-americanas na ficção. Como mostra Godoy, entre as décadas de 1960 e 1980, vários países da América Latina – inclusive o Brasil – enfrentaram o autoritarismo. Por isso, na época, muitas universidades públicas sofreram com a constante presença de agentes do poder, de forma a ameaçar a liberdade de expressão.
O autor destaca o ano de 1968 como mais significativo. Com aproximadamente 20 dias de diferença, em agosto daquele ano, universidades nas capitais das duas maiores nações latino-americanas foram invadidas: a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). Godoy propõe recolher a reconstituição desses eventos autoritários na ficção latino-americana das últimas décadas: “Relembrar esses fatos, buscar alguma espécie de coesão narrativa para reapresentá-los em nossa contemporaneidade, evitando que se percam no esquecimento tão comum ao continente, vem sendo a tentativa de diversos relatos históricos e testemunhais nas últimas décadas”.
Godoy destaca que pelo menos duas vertentes ganham destaque na forma de representar o passado traumático na ficção. Uma é parte da tradição realista e utiliza o detalhamento espacial para recuperar um momento histórico, com base em imagens, relatos, arquivos e memória. A outra está relacionada à “estilização ficcionalizada da história oral e da literatura de testemunho”, em que, por exemplo, uma geração revê os atos de seus antepassados e embaralha a memória coletiva e a memória individual, muitas vezes sem comprovação documental.
Machado de Assis e o Hospital de Alienados
No artigo “O Alienista”, uma Paródia Jurídico-Política? – também publicado em Teresa –, o professor Jean Pierre Chauvin, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, relaciona o famoso conto de Machado de Assis com o Decreto-Lei nº82, de 1841, que determinava a criação de um Hospital de Alienados no Rio de Janeiro, na época capital do Império do Brasil. Essa seria a primeira instituição para tratamento psiquiátrico do País. O Alienista narra a história do médico Simão Bacamarte, que, sob justificativas pseudocientíficas, interna parte da população de Itaguaí na Casa Verde, uma espécie de “asilo para doentes mentais”.
Chauvin destaca que a obra começou a circular em 1881 – ainda como folhetim –, exatos 40 anos após a publicação do decreto imperial. “Nesse sentido, seria O Alienista uma celebração paródica da efeméride?”, questiona o professor. O realismo machadiano é caracterizado pela fusão entre história e ficção, de modo que Machado aproveitava o contexto da época em suas obras. A partir disso, o professor explora o intertexto entre o decreto e o conto. Ele observa que, em diversas crônicas escritas no período entre 1841 e 1881, Machado de Assis afirma que frequentava a Câmara dos Deputados do Rio de Janeiro, por exemplo.
O professor aponta analogias entre O Alienista e o contexto político brasileiro, entre elas a chamada Revolta do Vintém, ocorrida entre dezembro de 1879 e janeiro de 1880, no Rio de Janeiro, em consequência da cobrança do imposto de 20 réis sobre as passagens de bonde. O Império recuou da cobrança da taxa após protestos populares. No conto, há uma situação similar, em que Simão Bacamarte é questionado sobre seu enriquecimento, paralelo ao surgimento de um novo imposto, supostamente criado para subsidiar o tratamento dos doentes.
Em Poemas da Colonização: a Escrita Poética da História em “Pau Brasil” (Oswald de Andrade, 1925), também presente na revista, o pesquisador Luiz Octávio Ancona, doutor em História Social pela USP, analisa as referências históricas ao período imperial do Brasil nos poemas do escritor modernista Oswald de Andrade (1890-1954). Poemas da Colonização integra o livro Pau Brasil, com 15 poemas de apenas uma estrofe, com quantidade de versos variada, sem pontuação e em verso livre. Nele, o escritor revisita o passado criticamente ao revelar e destacar injustiças, como a vida dos escravizados, traumas e horrores.
O título da obra de Oswald indica que os poemas se referem ao período colonial, mas esse não é o caso. O recuo histórico de Oswald é referente ao período imperial. De acordo com Ancona, esse desalinho entre a temporalidade do título e a época em que se passam os poemas indica que a colonização é um “dado fundamental da nossa identidade, com características que persistem para além da Independência proclamada em 1822”, não só um período restrito em sua cronologia. “A escrita da história e a produção da memória social não são exclusivas dos historiadores. Os artistas também as fazem quando representam o passado.”
Outros artigos sobre história e ficção na literatura brasileira, publicados em Teresa, são O Reino da Estupidez: Sátira Estudantil Portuguesa Anônima do Século XVIII, de Marcia Arruda Franco; Palíndromo, Palavra em Movimento: Viagem, Tempo e História em Guimarães Rosa, de Marise Hansen; e Antonio Candido e a Formação da Crítica Literária no Brasil: Aposta e Risco, de Jefferson Agostini Mello.
Além dos artigos sobre história e ficção na literatura brasileira, a nova edição de Teresa traz outras seções, com artigos igualmente instigantes. Em A Vingança do Gênio Negro, presente na seção Inéditos e Raros, a professora Cilaine Alves da Cunha, da FFLCH, analisa O Gênio das Ruínas, poema de J. Ramos Coelho publicado em Ensaios Literários: Jornal Acadêmico, periódico fundado no século 19 por estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo, hoje ligada à USP. A seção Poesia inclui o poema Incêndio, de Marília Garcia, em que a poetisa mistura suas memórias pessoais com fotografias e história familiar. Já a seção Livros na Mesa reúne duas resenhas, uma sobre a obra completa do padre jesuíta Manuel da Nóbrega, de autoria de Fábio Rodrigues da Silva, e outra sobre o livro As Letras na Terra do Brasil (séculos XVI a XVIII): uma Introdução, escrita por Paulo Roberto Pereira.
A revista Teresa, do Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, está disponível gratuitamente no Portal de Revistas da USP
Texto de Clara Hanek publicado no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/cultura/revista-explora-as-relacoes-entre-historia-e-ficcao-na-literatura-brasileira/