Entre arte e militância: mulheres que desenharam o feminismo no século 20

Historiadora mostra como artistas latino-americanas transformaram a produção visual em instrumento de luta, articulando imprensa política e emancipação feminina
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Redação
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Cartaz do Primeiro Congresso Nacional do Movimento pela Emancipação das Mulheres do Chile, 1937 – Foto: Retirada do artigo
Cartaz do Primeiro Congresso Nacional do Movimento pela Emancipação das Mulheres do Chile, 1937 – Foto: Retirada do artigo

No início do século 20, artistas mulheres participaram ativamente dos movimentos feministas na América Latina, utilizando a arte como ferramenta política. A relação entre produção artística e militância é tema da pesquisa da historiadora Thaís Batista Rosa de Moreira, que investiga atualmente, no doutorado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a produção visual e gráfica de movimentos das sufragistas — mulheres que lutaram pelo direito de votar — do Cone Sul. Em um artigo publicado na Revista do Instituto de Estudos Brasileiros (n. 92, 2025), a pesquisadora comparou a trajetória das artistas Regina Veiga, no Brasil, e Laura Rodig, no Chile.

Essas artistas se destacam por terem em comum uma formação nas Belas Artes e passagem por “ritos” do campo artístico, como premiações. Além disso, se relacionaram com a militância feminista na década de 1930. Em um contexto de poucos direitos civis e políticos, aliar-se a esses movimentos não era simples, afirma Thaís.

Regina Veiga – Foto: Retirada do artigo
Regina Veiga – Foto: Retirada do artigo

De acordo com o autor do livro Pequena história das artes plásticas no Brasil, Carlos Rubens, Regina Veiga estudou na Europa e se destacou como discípula de Rodolfo Amoedo na Escola Nacional de Belas Artes. A artista teve vínculo com a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), organização que lutou a favor dos direitos civis e políticos das mulheres. Foi fundada em 1922 no Rio de Janeiro, por iniciativa principalmente de Bertha Lutz (1894–1976), uma das figuras mais influentes da história brasileira, destacando-se como bióloga, política, diplomata e líder do movimento sufragista no País.

Segundo Thaís, não se sabe quais seriam as motivações de Regina Veiga para se vincular com a FBPF: “o que a gente encontra nos arquivos é justamente muitos desses desenhos que ela fez e mandou [para FBPF], e deixou a cargo dos dirigentes do movimento para utilizaram na imprensa”.

No Brasil, o movimento sufragista não era tão à esquerda quanto no Chile. “A FBPF nunca teve um vínculo político muito explícito com algum partido em especial”, explica a pesquisadora. Nisso, difere do Movimento Pró Emancipação das Mulheres (MEMCH), ligado ao Partido Comunista Chileno.

A historiadora ressalta que a FBPF era predominantemente liberal e buscou apoio de políticos específicos, como Juvenal Lamartine (1874–1956), um advogado, jornalista e político potiguar, lembrado historicamente como o grande aliado político de Bertha Lutz e o “patrono do voto feminino” no Brasil. Sua atuação levou o Rio Grande do Norte a instituir o sufrágio feminino em 1927.

O voto em nível federal veio em 1932. O País vivia uma ruptura política com a ascensão de Getúlio Vargas em 1930. Thaís destaca que a FBPF acompanhou esse movimento, dialogou com Vargas e conquistou o sufrágio feminino durante seu governo.

O que a pesquisadora hipotetiza ainda é que Regina Veiga estava de acordo com as premissas da FBPF, mas que a artista não queria se envolver a ponto de se pronunciar sobre assuntos artísticos como uma feminista.

Já Laura Rodig é uma figura mais estudada e mais conhecida. Foi ativista do Partido Comunista do Chile e uma das líderes do MEMCH.

Laura Rodig – Foto: Retirada do artigo
Laura Rodig – Foto: Retirada do artigo

A artista teve seu trabalho reconhecido com apenas 13 anos, ano em que recebeu menção honrosa no Salão Oficial de Belas Artes de Santiago. Segundo a historiadora  sua carreira artística se combinou com a atuação na museologia, educação e militância política.

O contexto, como explica Thaís, era de efervescência política no Chile no ano de 1938, quando o MEMCH já tinha três anos de existência. O período foi marcado pela ascensão da Frente Popular, coalizão de esquerda e dos progressistas que elegeu o advogado e educador Pedro Aguirre (1879–1941) como o 23º presidente do Chile, tendo governado entre 1938 e 1941.

“Se eu fosse trazer uma hipótese, talvez ela ser uma artista e estar vinculada a um movimento de esquerda não fosse tão prejudicial à carreira dela, de algum modo ela conseguia conciliar isso. Com a Regina Veiga, é difícil dizer com todas as letras, porque a gente não tem muita documentação”, diz Thaís.

A iconografia feminista

O principal instrumento dessas artistas para mobilização feminista era a arte na imprensa. Um dos grandes temas apropriados por elas foi o da maternidade. “Existe toda uma questão ali de representar a maternidade, mas puxar a maternidade para o feminismo. Então trazer essa figura das mães que estão cuidando dos filhos e que estão reivindicando direitos como representantes de ideias feministas”, comenta a historiadora.

Desenho de Regina Veiga – Foto: Retirada do artigo
Desenho de Regina Veiga – Foto: Retirada do artigo

A pesquisadora destaca ainda a importância disso se levarmos em consideração a época, já que “havia uma visão muito tradicional de entender que o papel da mulher na sociedade era de ser mãe […]. Então, quando você se apropria disso para a sua causa, se mobiliza uma simbologia muito forte”.

Outra estratégia foi destacar figuras femininas, como no painel La mujer en el progreso nacional, feito por Laura Rodig para o La Mujer Nueva, jornal do MEMCH. Nesse painel, Laura retrata médicas, advogadas e a notável Gabriela Mistral (1889–1957), pseudônimo de Lucila Godoy Alcayaga, uma das intelectuais mais importantes da América Latina. Gabriela foi a primeira pessoa e a primeira mulher latino-americana a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1945. No Chile e na Argentina, mulheres trabalhadoras também se tornaram referências visuais.

No Brasil, as imagens feministas eram publicadas em uma imprensa mais ampla. “A Federação Brasileira pelo Progresso Feminino vai ter um boletim próprio em meados dos anos 1930, mas no final dos anos 1920, o grande veículo de comunicação da FBPF era o jornal O País, em que elas conseguiram uma seção específica dentro do jornal, chamada feminismo, onde podiam mandar seus textos, imagens e fotografias para publicação”, conta Thaís.

Painel “La mujer en el progreso nacional” de Laura Rodig – Foto: Retirada do artigo
Painel “La mujer en el progreso nacional” de Laura Rodig – Foto: Retirada do artigo

A imprensa, portanto, foi um canal muito importante para conseguir levar para públicos mais amplos as perspectivas das artistas sobre movimento, já que a produção gráfica funcionava como um modo de pensar o mundo que essas artistas queriam: um mundo mais solidário, igualitário e emancipado para as mulheres.

Reportagem de Milena Miyazaki Grigoletto, estagiária sob supervisão de Antônio Carlos Quinto e Silvana Salles, publicada no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/diversidade/entre-arte-e-militancia-mulheres-que-desenharam-o-feminismo-no-seculo-20/