Fundadora do Ballet Stagium lança livro de memórias

Obra de Marika Gidali será lançada nesta quarta-feira, em São Paulo, com exibição da companhia de dança que ela criou em 1971
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Redação
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A bailarina Marika Gidali em apresentação do Ballet Stagium – Foto: Divulgação/Ballet Stagium
A bailarina Marika Gidali em apresentação do Ballet Stagium – Foto: Divulgação/Ballet Stagium

O livro De Corpo e Alma, escrito pela fundadora da companhia de dança Ballet Stagium, a bailarina Marika Gidali – uma sobrevivente do Holocausto -, é o primeiro volume da Coleção Travessias, uma das iniciativas do projeto Travessias – Enciclopédia de Artes, Literatura e Ciências, coordenado pela professora Maria Luiza Tucci Carneiro, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Publicada pela Editora Sarabanda, a obra será lançada nesta quarta-feira, dia 29 – Dia Internacional da Dança e aniversário de 89 anos de Marika –, às 20 horas, no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, com a apresentação do espetáculo Sair Pro Mar, do Ballet Stagium, com coreografia assinada por Décio Otero (1933-2025) e direção teatral de Marika Gidali. A entrada é grátis.

Capa do livro De Corpo e Alma, de Marika Gidali, que será lançado nesta quarta-feira, dia 29 – Foto: Divulgação/Editora Sarabanda
Capa do livro De Corpo e Alma, de Marika Gidali, que será lançado nesta quarta-feira, dia 29 – Foto: Divulgação/Editora Sarabanda

Marika Gidali nasceu em Budapeste, na Hungria, sobreviveu aos horrores do Holocausto e desembarcou no Brasil aos 10 anos. Em 1971, fundou o Ballet Stagium, ao lado de Décio Otero, seu companheiro de trabalho e de vida. Durante a ditadura militar (1964-1985), os dois utilizaram a dança para romper com o elitismo artístico e denunciar injustiças sociais. “O Ballet Stagium tem a resistência como filosofia. A gente nasceu na ditadura, mas não deixou de falar nada”, afirma Marika, em entrevista ao Jornal da USP, por telefone. Ela explica que isso foi possível porque, diferente do teatro, os agentes de censura subestimavam o poder político da dança. “Os censores não levavam a dança muito em conta, porque achavam que a gente ficava só pulando e não tinha problema.”

Décio Otero com Marika Gidali, durante apresentação no Alto Xingu, em 1977 – Foto: Mauricio Kubrusly/Divulgação/Ballet Stagium
Décio Otero com Marika Gidali, durante apresentação no Alto Xingu, em 1977 – Foto: Mauricio Kubrusly/Divulgação/Ballet Stagium

Décio faleceu em julho do ano passado, aos 92 anos. “Eu tenho que continuar porque a vida continua. O legado dele está no livro e continuamos juntos. Nós éramos dois corpos com uma só cabeça. Fizemos um trabalho de 55 anos que modificou a dança no Brasil.”

Com 328 páginas e capa dura, De Corpo e Alma foi escrito com base nas agendas de trabalho e nos diários que Marika mantém desde a infância. Ela define o livro como uma “bagunça literária” porque nele não há ordem cronológica – nem mesmo sumário. “O livro não nasceu para ser uma coisa literal, é a minha memória, são as minhas experiências”, diz. As lembranças da bailarina, de diferentes momentos da sua vida, estão documentadas por fotografias do seu acervo pessoal e também dos fotógrafos que a acompanhavam, como Emídio Luisi, responsável pela imagem da capa, e Alberto Torres. Além de ser autobiográfica, a obra é um registro histórico do desenvolvimento da dança moderna e contemporânea no Brasil. 

“É muito bonito dançar não somente por dançar. Dançar dentro de um conteúdo que você quer passar. Isso é o mais importante do livro. Eu não danço por dançar”, acrescenta Marika. Ela destaca ainda que as circunstâncias políticas e a perseguição que trouxeram sua família ao Brasil se tornaram, para ela, um impulso de resistência. “Sempre fui para frente, nunca fiquei reclamando, porque não adiantava. O importante é como sobrevivemos, como podemos resistir. Coloquei todos os meus sentimentos na arte, na dança.”

O projeto Travessias

O projeto Travessias – Enciclopédia de Artes, Literatura e Ciências é um trabalho de reconstituição histórica, centrado na recuperação do legado de refugiados do nazismo e do fascismo europeu no Brasil, segundo a professora Maria Luiza Tucci Carneiro. Além da reconstituição da trajetória desses refugiados, o objetivo é registrar e divulgar o legado deixado por eles na cultura e na ciência do País. O projeto é desenvolvido por pesquisadores do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) da FFLCH, dirigido por Tucci Carneiro.

Além da Coleção Travessias, o projeto disponibilizará uma enciclopédia em plataforma digital com busca avançada. A ênfase será nas jornadas dos refugiados e nas dificuldades para obtenção de vistos e entrada no Brasil. “Pretendemos incluir 520 verbetes na enciclopédia. Será possível identificar personagens que vivenciaram a mesma situação de perseguição e violência em diferentes países, como uma cartografia desses testemunhos”, comenta Tucci Carneiro. 

Os volumes seguintes da coleção já têm temas definidos, embora ainda não haja previsão de publicação. O segundo volume vai tratar dos franceses que se refugiaram do nazifascismo no Brasil, entre eles escritores e artistas, resultado de pesquisas coordenadas pela professora Karina Marques, da Universidade Sorbonne Nouvelle, em Paris, na França. O terceiro volume será dedicado aos refugiados que contribuíram para a formação da fotografia moderna no Brasil. Ele será coordenado pelo Professor Emérito da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Boris Kossoy, pioneiro do estudo da fotografia no Brasil. “No seu conjunto, as obras produzidas por intelectuais e artistas judeus exigem um refinamento do olhar. Conseguiremos identificar um conjunto de vestígios que revelam a memória coletiva”, diz a professora.

O lançamento do livro De Corpo e Alma, de Marika Gidali, com a apresentação do espetáculo Sair Pro Mar, do Ballet Stagium, acontece nesta quarta-feira, dia 29, às 20 horas, no Teatro Sérgio Cardoso (Rua Rui Barbosa, 153, Bela Vista, em São Paulo). Entrada grátis. Os ingressos devem ser retirados na bilheteria do teatro a partir de uma hora antes do espetáculo.

Reportagem de Clara Hanek publicada no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/cultura/fundadora-do-ballet-stagium-lanca-livro-de-memorias/