Pesquisadoras da USP e Unifesp mapeiam o ativismo curatorial como campo de saber no Brasil

Ana Avelar e Marcella Imparato discutem como a curadoria pode romper o elitismo dos museus e promover a inclusão de artistas e territórios historicamente invisibilizados
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Redação
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“É preciso pensar a curadoria de um ponto de vista territorializado, para tensionar esses discursos hegemônicos que são discursos universais” – Marcella Imparato e Ana Avelar, da esquerda para a direita – Foto: Arquivo Pessoal
“É preciso pensar a curadoria de um ponto de vista territorializado, para tensionar esses discursos hegemônicos que são discursos universais” – Marcella Imparato e Ana Avelar, da esquerda para a direita – Foto: Arquivo Pessoal

Como a arte pode corrigir apagamentos históricos? Para responder a essa pergunta, Ana Avelar, professora do Departamento de História da Arte na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e Marcella Imparato, doutoranda na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, organizaram o livro Ativismo Curatorial no Brasil, publicado pela Editora Mireveja. A obra mapeia o trabalho de 15 curadores, profissionais responsáveis pela seleção de obras e definição da narrativa de uma exposição, em todas as regiões do País. Em entrevista ao Jornal da USP, as autoras defendem que o papel das exposições hoje vai além da estética, exigindo uma postura política que envolva desde a valorização dos setores educativos até a transparência nos bastidores das grandes instituições culturais.

Ana Avelar – Foto: Arquivo Pessoal
Ana Avelar – Foto: Arquivo Pessoal

A gênese do projeto remonta à tradução para a revista Ars, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, de um ensaio fundamental de Maura Reilly, curadora estadunidense responsável por cunhar o termo “ativismo curatorial”. Desde então, o conceito passou a capitanear debates sobre a função social das mostras de arte. Para Ana Avelar, o interesse reflete uma mudança de paradigma: “Me parece ser um assunto que está muito em alta no Brasil. Pesquisadores estão muito interessados em olhar para exposições que trazem esse questionamento ético por meio do estético”, observa a professora.

O livro ganhou corpo durante a pandemia, quando as aulas de Ana na Universidade de Brasília (UnB) tornaram-se um espaço de diálogo on-line. Marcella recorda que o processo foi de escuta ativa de realidades que problematizam o sistema artístico sob novos pontos de vista. Ela destaca que o objetivo foi “imaginar coletivamente outras maneiras de pensar e de fazer curadoria”, reforçando a importância de “trazer esses relatos para mostrar que existem outras maneiras de fazer, para além dessa grande narrativa que estamos acostumados nessas grandes exposições”.

Um Brasil de contrastes

Ao reunir entrevistados de todas as regiões, as organizadoras mapearam as especificidades do fazer artístico nacional. Enquanto no eixo Rio-São Paulo o embate é frequentemente contra o cânone institucional, em outras regiões o ativismo é uma questão de sobrevivência infraestrutural. Ana cita o exemplo de Rafael Maldonado (MS), que realizou exposições em tendas de feiras por falta de prédios museológicos, e as vozes do Norte, que enfrentam o preconceito do Sudeste. “As regiões têm as suas especificidades no sentido de nomear essas dificuldades, mas também de trazer estratégias”, explica Ana.

Marcella Imparato aprofunda essa análise ao defender a curadoria como um processo situado. “A importância de trazer esses relatos é que a gente vai vendo como são curadorias que estão muito implicadas na especificidade do seu próprio meio, que é o que a Ana fala de um ponto de vista territorializado”, explica a pesquisadora. Para ela, o ativismo curatorial brasileiro rompe com a “lógica de consumo das exposições que vão circulando o País sem nenhum tipo de modificação”, focando nos interesses e questões locais para tensionar discursos universais.

A barreira invisível e o poder do educativo

Uma das discussões mais sensíveis foi a acessibilidade do público comum a espaços muitas vezes vistos como elitistas. Ana Avelar aponta que a exclusão começa no desenho das instituições: “Museus possuem uma arquitetura que já é uma barreira invisível em si. Há uma barreira social que é frequentemente transmitida por meio das arquiteturas museais”.

A solução reside nos setores educativos, descritos como a “frente de batalha das exposições”. Citando a influência de Ana Mae Barbosa, arte-educadora brasileira, e Paulo Freire, professor brasileiro, Ana Avelar defende que o mediador traduz o conhecimento científico para o afetivo. Marcella complementa, situando o educativo no centro da construção crítica: “O educativo serve para construir junto à curadoria, eles têm esse lugar de construção do pensamento crítico e esse processo de conexão mesmo, de acolhida dos públicos para transmitir essas ideias”.

Do ativismo ao cuidado

Indagadas sobre como diferenciar o ativismo real do interesse comercial (pink money, em inglês), as pesquisadoras apontaram para o que ocorre nos bastidores. Para elas, uma exposição só é ativista se sua estrutura interna for coerente com o discurso nas paredes. É aqui que surge o conceito da Curadoria do Cuidado (Curating with Care). Ana explica que o termo curadoria vem de curare (cuidar), e que esse zelo deve ser expandido das obras para as pessoas.

Marcella reforça que essa prática nunca é neutra: “A consciência de que a curadoria envolve uma série de mediações, com as obras, com o espaço, com os públicos, mostra que isso nunca é neutro; sempre expõe uma dimensão ética e política. Curadoria é pensar a responsabilidade da curadoria”. Ela destaca, ainda, o papel fundamental da academia nesse processo: “As universidades ainda são esses lugares de maior liberdade, de experimentação, para pensar outras formas de fazer curadoria”.

O convite final é para que o público não apenas leia, mas habite essas discussões. Como define Ana Avelar, o objetivo é “compreender melhor ainda o que a gente está fazendo hoje e o que a gente vem fazendo desde o século 19”. Com a força de 15 vozes e o rigor ético de suas organizadoras, Ativismo Curatorial no Brasil já nasce como um marco para quem acredita que a arte é um compromisso social inegociável.

Reportagem de Mariana Gaia,estagiária sob supervisão de Antônio Carlos Quinto, publicada no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/diversidade/pesquisadoras-da-usp-e-unifesp-mapeiam-o-ativismo-curatorial-como-campo-de-saber-no-brasil/