Ao longo de sete décadas, o historiador Fernando Antônio Novais (1933-2026) dedicou-se ao ensino de história e à formação de sucessivas gerações de historiadores e pesquisadores universitários. Ainda durante a sua graduação em História e Geografia, na combativa Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, trabalhou como auxiliar de ensino da historiadora Alice Canabrava (1911-2003) na disciplina de História Econômica Geral e do Brasil, ministrada na Faculdade de Economia e Administração da USP.
Uma vez licenciado, fez concurso público para o magistério secundário superior, lecionando por dois anos no Colégio Estadual Fernão Dias Pais e no Ginásio Estadual Viradouro, sem deixar de prestar assistência à cadeira de História Econômica na Faculdade de Economia e Administração. A partir de 1961, passou a dar aulas no Departamento de História, onde permaneceu até a sua aposentadoria, em 1985. Ao longo desse período, fez um itinerário raro nos dias atuais, dando cursos em vários departamentos: na Geografia, nos cursos de Ciências Sociais, na Filosofia e na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.
Também participou do processo de criação da Unicamp (1971-1974), onde, depois da sua aposentadoria na USP, veio a lecionar por mais duas décadas tanto no Instituto de Economia como na Facamp. Neste breve texto gostaria de destacar sua decisiva atuação na estruturação do Programa de Pós-Graduação na USP e no Instituto de Economia da Unicamp.
Desde 1974, ministrou cursos de pós-graduação sobre a história da colonização do Brasil e sobre a história da sociedade escravista em perspectiva comparada: Brasil e Estados Unidos da América. A partir de meados dos anos 1990, passou a oferecer a disciplina de História da Historiografia nos cursos de pós-graduação da Unicamp, com a convicção de que os estudos históricos são essenciais para a formação dos jovens economistas. Fernando Novais se interrogava sobre as especificidades do ofício do historiador perante as demais ciências humanas, insistindo sempre que o grande desafio dos historiadores ao reconstituir o passado era o de esquecer o que aconteceu para não incorrer em anacronismo, ou seja, para evitar imputar aos protagonistas o conhecimento (que nós temos) dos desdobramentos de suas próprias ações no tempo. Um desafio complexo que exigia um conhecimento exaustivo da historiografia, um domínio capaz de estimular um ponto de vista situado do objeto de estudo e, ao mesmo tempo, o distanciamento crítico encravado no diálogo cerrado com as categorias analíticas formuladas pelas demais áreas das ciências sociais. Essas questões foram tratadas nos dois volumes da coletânea Nova História em Perspectiva, editada em co-organização com Rogerio F. da Silva.
Para Fernando Novais, o discurso historiográfico não deveria levar em conta apenas as obras acadêmicas, mas abranger uma plêiade de artefatos socioculturais, desde um bom inventário de fontes arquivísticas até a produção de livros didáticos e reconstituições cinematográficas. A história da transmissão da memória histórica era em si um dos seus assuntos prediletos, pois aqueles materiais serviam como sinais indiciários de outras transformações econômicas e políticas em curso no tempo presente. Em uma resenha sobre a coleção francesa Nouvelle Clio (Editions Flammarion), publicada no periódico campineiro Notícia Bibliográfica e Histórica, em 1972, Novais observa: “Nos dias que correm, com leitura dinâmica, comunicação de massa, circuitos fechados e outras maravilhas – os livros também vão se modificando no fundo e na forma. São as vicissitudes culturais da sociedade de consumo”, citando obviamente as obras de Marshall McLuhan (1911-1980), criador do termo aldeia global.
Em conferência oferecida à Sociedade de Psicanálise sobre as relações da história com a memória coletiva, Fernando Novais questionava os sentidos da história à maneira de Jorge Luís Borges: “Os historiadores, ao fim e ao cabo, são tergiversadores de alheias histórias, não devem fixar identidades, mas sim perturbar as consciências em prol da transformação social”.
Seja pela sua formação na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, seja por ter sido um dos membros do grupo do Seminário do Capital (1958-1964), ou por ter durante muitos anos oferecido disciplinas na graduação em Ciências Sociais, Fernando Novais foi um dos mais argutos intérpretes da formação histórica do Brasil, aprofundando os argumentos dos seus mestres, mas também rediscutindo suas proposições sem servilismo intelectual.
Muito já se escreveu sobre o seu livro seminal: Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial 1777-1808, tese originalmente defendida em março de 1973, mas vale a pena circunstanciá-la, chamando atenção para o contexto político e intelectual em que a pesquisa se realizou, nos arquivos portugueses em Lisboa e Coimbra (1965), assim como para o momento em que ela foi redigida e, finalmente, publicada em livro (1979). Novais fez sua investigação ainda sob o salazarismo, quando a mobilização contra a longa ditadura portuguesa no Brasil ganhara o apoio dos intelectuais e artistas; no prefácio datado de 1978, ele explica: “Ampliamos nossa experiência em universidades americanas, pudemos voltar à Europa, e rever Portugal transfigurado pela Revolução [dos Cravos]”. Nessa direção, podemos dizer que a sua tese foi gestada à luz desses dois contextos de repressão política, mas também de lutas e esperanças.
Por isso, cabe perguntar até que ponto as expectativas que marcaram a guerra pela independência das ex-colônias portuguesas em África e a revolução socialista em Portugal não incidiram nas redivivas polêmicas geradas pelo seu livro tese no mundo universitário nacional e internacional. De qualquer forma, a tese foi tributária da sua interlocução e amizade pessoal com os historiadores portugueses críticos do autoritarismo e da censura ideológica em seu país; entre eles, cabe mencionar os nomes de Vitorino Magalhães Godinho, Joel Serrão, Joaquim Barradas de Carvalho, José Gentil da Silva, José Tengarrinha, entre outros.
No Brasil, por sua vez, passávamos da euforia desenvolvimentista aos sucessivos planos econômicos concentradores de renda adotados pela ditatura militar entre 1964 e 1979. Escreve Novais: em 1964, “a sensação dos brasileiros, ou de grande parte dos brasileiros, era a de que faltava dar uns poucos passos para finalmente nos tornarmos uma nação moderna” (prefácio do ensaio Capitalismo tardio e sociabilidade moderna, em coautoria com João Manuel Cardoso de Mello). As preocupações com as condições de superação do atraso econômico e com a desigualdade brasileira vinham de longe.
Em 1957, publicou o primeiro artigo acadêmico no Jornal do Grêmio de Filosofia (ano II, n. 3 – novembro), intitulado: Colonização e desenvolvimento econômico. Nesse exercício de juventude, Novais sublinhou: “É no estudo da colonização europeia nas várias regiões da América que se devem procurar as razões básicas dos acentuados desníveis de desenvolvimento nos países latino-americanos”. O problema da assimetria e da articulação entre desenvolvimento e subdesenvolvimento econômico marca suas investigações nos anos dourados do surto desenvolvimentista da Era JK. Já na condição de Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, ministrou cursos de pós-graduação sobre Capitalismo e Colonização, revisitando as obras de Fernand Braudel e Immanuel Wallerstein. Nos últimos anos, dedicou-se ao estudo das relações entre o marxismo e a historiografia, que ainda será publicado pela revista Margem Esquerda.
Mas certamente foi a constituição do célebre grupo de leitura de O Capital, de Karl Marx, que se reunia regularmente até o golpe militar de 1964, que lhe ofereceu um ambiente propício para debater os rumos do pensamento crítico na América Latina e em outros quadrantes. Nos anos subsequentes escreveu artigos lapidares (republicados na coletânea Aproximações) nos quais explorou, sob os mais diferentes ângulos, as relações de dominação e de interdependência entre a metrópole portuguesa e as camadas senhoriais colonizadoras, como, por exemplo: “A proibição das manufaturas no Brasil e a política econômica portuguesa do fim do século 18″, publicado em 1966 na Revista de História do Departamento de História da USP. No mesmo ano, publica na Revista do IEB o ensaio: As considerações sobre o sentido da colonização; em 1969, sai O Brasil nos quadros do Antigo Sistema Colonial, publicado na coletânea clássica dirigida por Carlos Guilherme Mota: Brasil em Perspectiva. Foram anos de muitas viagens ao exterior como professor visitante nas mais importantes universidades dos Estados Unidos, em Cuba, Peru, Colômbia, México, França, Holanda, Bélgica. Destaco aqui a sua participação no Seminário de História Quantitativa do Brasil entre 1800-1930, organizado por Fréderic Mauro e Pierre Monbeig em outubro de 1971.
Atento aos movimentos pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos e próximo da historiografia caribenha e africanista, acompanhou com a máxima atenção os debates travados pelo movimento anticolonialista internacional que se ampliou partir dos anos 1950. Foi um dos primeiros leitores brasileiros das obras de Eric Williams (historiador natural de Trinidad Tobago, autor do clássico Capitalismo e Escravidão, na edição de 1961), de Pierre Verger (Fluxo e Refluxo do Tráfico de Escravos, defendida na Sorbonne em 1966 e publicada em Paris em 1968) e do historiador Yves Benot (Diderot: de l’athéisme à l’anticolonialisme, 1970). Em parceria com o professor Francisco Falcon, apresentou no Simpósio dos Historiadores em Goiânia um dos seus ensaios mais luminosos: A Extinção da Escravatura Africana em Portugal no Quadro da Política Econômica Pombalina, em 1971.
No sesquicentenário da Independência, em plena ditatura militar, participa da clássica coletânea, organizada por Carlos Guilherme Mota: 1822: Dimensões. Ali, ele avalia as dimensões internas e externas do processo de Independência no Brasil, demonstrando que o processo permitiu a acomodação dos interesses dos grandes senhores de escravos, acirrando as formas de dominação interna e a exploração da população escrava, indígena e livre pobre. A seu ver, no plano internacional, a emancipação política do Brasil ao garantir a continuidade dinástica dos Bragança no trono, chancelou a sobrevida de Portugal no quadro europeu. Em resumo, a emancipação foi uma revolução, mas uma revolução conservadora na medida em que aprofundou as estruturas de dominação do período colonial.
Entre 1995 e 1998, Fernando Novais dirigiu o projeto editorial da História da Vida Privada — obra coletiva organizada em quatro volumes, coordenados respectivamente por Laura de Mello e Souza, Luiz Felipe de Alencastro, Nicolau Sevcenko e Lilia Moritz Schwarcz —, que teve um forte impacto na historiografia brasileira ao oferecer um novo repertório de fontes textuais, iconográficas e fotográficas analisadas sob o ângulo da relações entre a esfera pública e as formas de sociabilidade privada ao longo de cinco séculos. Inspirado na coleção francesa homônima, o projeto editorial brasileiro trouxe à tona questões relacionadas com a violência cotidiana e com as diferentes expressões do racismo estrutural que marcam a sociedade brasileira.
O ensaio que abre a coleção, Condições de privacidade na colônia, demonstra com clareza as contradições, as incongruências e os dilemas constitutivos de uma sociedade onde o escravismo atravessava todas as relações sociais. Avesso à hiperespecialização, ao dogmatismo e aos modismos intelectuais, Fernando Novais foi um dos mais tenazes defensores da profissionalização dos historiadores, seja na docência como na pesquisa e nas atividades de extensão.
O professor refletia sobre o métier enquanto vocação e enquanto método — no espírito crítico de Marc Bloch, certamente. Suas arguições em bancas de defesa faziam rir o público na assistência; nessas ocasiões, além de nos sugerir articulações impensadas, dedicava parte do tempo a desferir críticas mordazes aos descuidos formais com o texto acadêmico, insistindo no rigor das citações, que a seu ver devia ser algo inerente ao ofício do historiador. Em tempos de desinformação e realidades pré-fabricadas pelas desinteligências artificiais, essas dicas valem ouro. Casado com Horieta Novais (falecida em 2024), pai de Luís Fernando e de Ana Lúcia, deixa netas, netos, bisnetos, uma multidão de amigos e discípulos com saudades.
Texto de Iris Kantor publicado no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/artigos/fernando-novais-guardiao-do-metier-do-historiador-e-da-democracia-no-brasil/