Culpa feminina e estereótipos de raça foram tema de palestra de reitora da UFSB

Joana Guimarães, reitora da UFSB, trouxe exemplos de sua própria vivência para explicar sobre machismo e racismo na academia

Por
Astral Souto
Data de Publicação
Editoria

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Ianni Scarcelli, Adrian Fanjul, Patrícia Izar, Silvana Nascimento e Joana Guimarães (Foto por: Gabriela César)

Dia 27 de abril, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), o Instituto de Psicologia (IP), a Escola de Enfermagem (EE) e a Faculdade de Saúde Pública (FSP) receberam Joana Angélica Guimarães da Luz, reitora da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), para discursar na conferência “Para marcar o mês das mulheres”. 

Ianni Scarcelli, diretora do IP, abriu o evento chamando à mesa Joana e as mulheres que estão na liderança das unidades envolvidas. Silvana de Souza Nascimento, vice-diretora da FFLCH, Vilanice Alves de Araújo Püschel, diretora da EE, Patrícia Jaime Constante, vice-diretora da FSP, e Patrícia Izar, vice-diretora do IP, foram homenageadas e falaram sobre o mês das mulheres e suas vivências na USP.

As falas das professoras foram focadas em denúncias sobre desigualdades de gênero e raça na universidade. Diante de uma mesa de mulheres, Vilanice lembrou que homens brancos costumam ser a maioria entre os convidados de eventos acadêmicos.

Patrícia Jaime também evidenciou a nova contratação de professores da USP, mas alertou que isso não mudará significativamente a diversidade de professores negros, pardos, indígenas e professoras. Silvana trouxe dados sobre a condição da pluralidade racial entre os docentes da USP: “Especialmente nos cargos de gestão, são bem poucos os docentes negros. Na USP, são 6% negros e pardos em um total de cinco mil professores. Na FFLCH o número é 8%, um pouco mais. Porém, esses números vêm crescendo a cada ano”. A vice-diretora da FFLCH também destacou o mérito dos movimentos sociais dentro e fora da Universidade, relacionando a presença de pessoas negras e mulheres a eles: “Devemos muito aos movimentos sociais. Os lugares que estamos ocupando são fruto das lutas desses movimentos”. 

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Silvana Nascimento (Foto por: Gabriela César)

A convidada, Joana Guimarães, dividiu sua fala em duas partes. Uma focada na sua vivência como mulher e a outra na sua vivência como negra. Na primeira parte, a reitora falou sobre a aproximação entre mulheres e o cuidado. Comentou que os cursos que têm mais mulheres na universidade são cursos voltados para o cuidado. Como pôde se ver na mesa composta por mulheres líderes de unidades que ensinam o cuidado de alguma forma. A reitora da UFSB explicou que isso ocorre porque a função social da mulher na sociedade é o “cuidar”. E, por esse papel do cuidar ser desvalorizado, as mulheres são invisibilizadas e passam por diversos processos de culpabilização quando abandonam, nem que seja parcialmente, esse papel. 

Sensibilizada, Joana contou que foi a primeira pessoa de sua família a entrar em uma universidade. Nasceu em uma área rural de Itabuna, região cacaueira, em um lar com seis irmãos. Nesse contexto, as mulheres a sua volta tornavam-se líderes de suas famílias, porque comumente essas mulheres, além de serem responsáveis pelo cuidado familiar, também traziam o sustento. Os homens normalmente não se viam completamente responsáveis por suas famílias. Ao continuar sua história, Joana conta que sempre foi considerada uma mãe insensível por não cuidar integralmente de sua filha, pois ela a deixava na creche para conseguir fazer seu doutorado. Isso fez com que Joana se culpasse, no entanto, o pai de sua filha não tinha os mesmos sentimentos: “Quando nos separamos, meu ex-marido foi fazer pós-doutorado em Portugal e minha filha estava em uma fase muito rebelde, porque ela era mais apegada ao pai. Aí eu falei para o meu ex levá-la com ele e ele me respondeu ‘Meu projeto é individual, não é familiar’”. 

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Joana Guimarães e Patrícia Jaime Constante (Foto por: Gabriela César)

Na segunda parte, Joana falou sobre a estereotipação dos negros na sociedade, o negro é acompanhado de diversos esteriotipos negativos desde a escravidão. Esses estereótipos limitam e cercam a vida das pessoas negras, que se veem impossibilitadas de ocupar determinados lugares sociais. Sendo a primeira pessoa a adentrar a vida acadêmica em sua família, Joana diz que há dois motivos para as pessoas a sua volta não tomarem o mesmo caminho. Alguns não tiveram oportunidade, outros sim, mas não viam a faculdade como uma realidade possível. 

As mulheres e os homens negros buscam espaços sociais de reconhecimento, no entanto, quando vêm de uma situação de grande vulnerabilidade social, a busca por esses espaços torna-se cada vez mais difícil, principalmente quando não se tem grande representatividade. Joana disse que na sua jornada como reitora, em muitos dos eventos acadêmicos era a única mulher negra em meio a homens brancos. 

No final, Joana abriu o evento para perguntas e respondeu sobre cotas raciais na universidade, bancas de heteroidentificação, a importância da representatividade em cargos de poder e questões feministas. 

A transmissão do evento pode ser acessada pelo canal do Youtube do Instituto de Psicologia através desse link