Joana d'Arc é executada pela Igreja Católica

Líder da libertação francesa na Guerra dos Cem Anos, Joana d'Arc foi acusada de heresia e executada pela Igreja Católica, tornando-se um símbolo do nacionalismo francês
Por
Paulo Andrade e Lara Tannus
Data de Publicação
Editoria
Hoje na História

 

Joana d'Arc é executada pela Igreja Católica (Arte: Renan Braz)
De acordo com Flávia Amaral, no século XIX, "o conteúdo religioso da epopeia de Joana é esvaziado para que, em seu lugar, surgisse a heroína laica, patriota e representante legítima do povo francês". (Arte: Renan Braz)


Após liderar os exércitos franceses até a coroação do rei Carlos VII, a acusação de heresia e execução pela Igreja Católica, no ano de 1431, foi o desfecho da trajetória de Joana d’Arc como um dos maiores símbolos da libertação francesa na Guerra dos Cem Anos.

Sua morte fortaleceu a lenda em torno de sua história, tornando a camponesa um dos maiores símbolos do nacionalismo francês. A força de seu nome levou a própria Igreja Católica, responsável por sua execução, a canonizá-la em 1920.

O contexto político de sua condenação pelo Tribunal Inquisitorial, assim como a associação de sua história com o nacionalismo francês no século XIX, foram analisados em entrevista com a pesquisadora Flávia Aparecida Amaral, doutora em História Social pela FFLCH USP. Confira abaixo:
 
Serviço de Comunicação Social: Na história que conhecemos, Joana D'arc, após ser capturada pelos ingleses, foi julgada e condenada à fogueira por feitiçaria. Mas em sua análise, por que mataram Joana D'arc? Quais motivações políticas determinaram sua condenação tanto do lado inglês quanto do próprio rei da França?
 
Flávia Amaral: Na verdade, Joana d’Arc foi queimada como herege e não como bruxa. Sua condenação se deu em torno de dois pontos essenciais: em primeiro lugar, ela não aceitou a conclusão do Tribunal Inquisitorial, para quem suas visões eram ilusórias e obras do demônio. Ao optar por manter sua convicção na origem divina das vozes que ouvia, Joana não aceita a interpretação da Igreja, sendo por isso considerada insubordinada. 
 
Em segundo lugar, Joana d’Arc usava roupas masculinas próprias para a guerra, algo interditado às mulheres no período medieval. O Tribunal a condena também por esse motivo, considerado um grande escândalo, ato indecente e pecaminoso. Uma vez que ela segue vestindo roupas masculinas, mesmo no cárcere, e não aceita usar os vestidos a ela oferecidos por obediência às vozes que ouvia, foi sentenciada à morte também a partir dessa argumentação 
 
É extremamente complicado separar religião e política na Idade Média. Algo que para nós é concebido como esferas sociais distintas, naquele período, caminhavam juntas e isso não era visto exatamente como um problema. No entanto, o julgamento de Joana d’Arc possui vários vícios de procedimento, o que nos leva a considerar a tendência a um veredicto contra a ré, exatamente pela posição que ocupava no exército francês daquele momento. 
 
De fato, os ingleses queriam retirar Joana d’Arc do cenário público, pois todas as lendas relacionadas aos seus feitos causavam pânico nos seus guerreiros. Não se pode esquecer, que uma parte da nobreza francesa apoiava a ocupação inglesa e ela foi essencial na captura e no julgamento de Joana d’Arc, uma vez que a composição do Tribunal Inquisitorial instaurado contava com inúmeros teólogos da Universidade de Paris.
 
Podemos dizer que, por parte do rei francês, Carlos VII, levado à coroação pela própria Joana d’Arc, não houve nenhum movimento efetivo para proceder a alguma negociação e/ou libertar Joana do cárcere. Apenas em 1456, vinte e cinco anos após sua execução na fogueira, a Igreja Católica, atendendo a um apelo desse mesmo Carlos VII, revê o processo de condenação a Joana e o anula. O que explica essa ação tardia do rei francês foi o fato de não desejar que seu governo estivesse associado a uma herege queimada viva por determinação da Inquisição. Então, com o objetivo de “limpar a memória” de seu reinado, Carlos VII se empenha diante da Igreja para que Joana fosse inocentada.
 
Serviço de Comunicação Social: A imagem heroica de Joana D'arc só foi construída séculos depois por uma releitura de sua história. Qual o contexto na França para que isso acontecesse? Existia um projeto de identidade nacional francês?

Flávia Amaral: Na verdade, mesmo durante sua vida Joana d’Arc recebia a caracterização de uma heroína e era considerada como tal, como atestam várias crônicas do período. O que vai mudar, ao longo dos séculos, é o tipo de heroísmo a ser associado a ela.

Se, nos séculos XV, XVI e XVII ele girava em torno do heroísmo feminino bíblico veterotestamentário (Deborah, Judith, Esther), a partir do século XVIII há um novo tipo de interpretação, segundo o qual o heroísmo associado às ações de Joana d’Arc seria causado por um temperamento imbuído de entusiasmo, capaz de realizar ações concretas no nível político, de caráter eminentemente libertador.

Dessa forma, o nacionalismo francês do século XIX pôde associar a trajetória de Joana d’Arc à sua causa essencial da criação de identidade do povo francês que teria como sua grande inspiração uma simples camponesa medieval, que a partir de seu devotamento à pátria pôde enfrentar todos os perigos e romper todas as barreiras para libertar o seu país. Dessa forma, o conteúdo religioso da epopeia de Joana é esvaziado para que, em seu lugar, surgisse a heroína laica, patriota e representante legítima do povo francês.