
Em 29 de janeiro de 2022, o projeto de pesquisa e extensão Corpas Trans na Universidade de São Paulo lançava uma pesquisa de mapeamento da comunidade trans da USP. O estudo marcou a primeira ação do grupo criado para conhecer melhor a comunidade trans dentro da USP e, posteriormente, construir ações de enfrentamento à transfobia no ambiente universitário.
A pesquisa ainda está em processo de finalização. Os primeiros resultados, até 2023, apontaram que há uma sub-representação da população trans na USP: menos de 2% dos uspianos são pessoas trans. “Apesar da discrepância com respeito à população brasileira, nossos dados são compatíveis com a distribuição racial presente na USP”, afirma o Corpas Trans.
Gabrielle Weber, professora da Escola de Engenharia de Lorena da USP e co-fundadora do projeto, destaca nos resultados a evidência da universidade como um suporte para a experimentação de gênero. Dos 117 ouvidos na pesquisa, 80% eram estudantes de graduação, 12% de pós-graduação e 6,5% docentes, pós-doutorandos e técnicos administrativos.
Por outro lado, Weber chama a atenção para a hostilidade do ambiente universitário às pessoas trans: 68,5% dos entrevistados afirmam ter sofrido transfobia, enquanto 60,2% a testemunhou. “Nossos dados mostram taxas alarmantes de ideação suicida e tentativa de suicídio muito acima da população cis e acima da população trans fora da USP. O que é chocante, porque alguns outros estudos falam que estar na universidade é um fato que diminui a ideação suicida”.
Ela explica que, historicamente, o meio acadêmico foi criado para acolher as elites conservadoras da sociedade. A entrada de pessoas marginalizadas, como negros e trans, mudou a composição da universidade e vem explicitando o racismo institucional. Isso também vem gerando um êxodo das classes dominantes e uma dificuldade no financiamento da universidade pública. “No fim das contas, quem garantia esse dinheiro eram as elites, que são quem têm mais espaço para fazer políticas públicas”, afirma.
Apesar disso, a docente se mostra otimista com o progresso na Universidade e vê a luta pela inclusão como o caminho a ser seguido. Em sua experiência, ela nota uma maior diversidade nas turmas, o que possibilita discussões sociais e mais espaço para experimentações.
Sobre o Corpas Trans
O Corpas Trans surgiu para solucionar a ausência de dados sobre a população LGBTQIAPN+ na Universidade. “Quando você é uma das poucas trans na área de exatas, as pessoas começam a pedir para você falar sobre sua vivência. Então, eu fui atrás de estatísticas, descobri que não tinha quase nada e, em junho de 2020, comecei a trabalhar com o levantamento de pessoas LGBT na universidade”, comenta Weber.
A iniciativa da docente foi ao encontro dos objetivos da Coletiva Xica Manicongo e de Silvana Nascimento, atual vice-diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Em 2021, o grupo conseguiu apoio no Programa Unificado de Bolsas (PUB) da Pró-Reitoria de Graduação e do Edital ODS/ONU 2021 da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão.
O intuito do projeto é colaborar para a construção de espaços de convivência e redes de apoio por meio de pesquisas, atividades educativas e de formação, de acolhimento e mobilização da comunidade acadêmica em relação à temática trans. Atualmente, o grupo conta com 11 integrantes trans, contando com estudantes e docentes.
Valorizar não é estigmatizar
No dia 29 de janeiro, comemora-se o Dia Nacional da Visibilidade Trans. A doutoranda em Antropologia pela FFLCH, Carolina Iara Ramos de Oliveira, destaca que é importante não estigmatizar a entrada de pessoas trans na academia. Para ela, deve-se combater as ideias de que a produção científica é “apenas militância” e que as pessoas trans se restringem a nichos específicos, como os estudos de gênero.
Ainda sobre a data, Oliveira comenta que o marco nacional diferencia a comunidade trans no Brasil do restante do mundo. “Ainda somos o país que mais mata travestis, mas também somos o país que mais elege travestis. Temos um movimento social mais forte. O Brasil é o único país do mundo em que conseguimos pela via administrativa, sem relatório ou laudo médico, mudar nossos documentos”. Ela reflete que a mudança de condições para as pessoas trans no país só acontecem com coletividade e alianças.
A importância de fortalecer as lutas para o acesso e permanência da comunidade trans na educação também foi mencionada pela pesquisadora. Participante de discussões para a conquista de políticas afirmativas na Universidade Federal do ABC (UFABC) e na Universidade de Campinas (UNICAMP), ela reflete a dificuldade de se estabelecer isso na USP. “Transicionar na universidade é legítimo, mas há pessoas trans fora da USP que querem entrar mas não estão conseguindo. Ter essa política afirmativa é também uma reparação histórica pelas perseguições que tivemos em São Paulo”, afirma.